As moedas plásticas da Transnístria

Este blogue já tratou em outra ocasião da Transnístria, uma pequena faixa da Moldávia Oriental que é de facto independente do resto do país, embora tenha reconhecimento internacional limitado.

Como todo Estado que se preza — reconhecido ou não — a Transnístria tem sua própria moeda, o rublo transnistriano, que, desde 2000, está em sua terceira edição. Na taxa oficial de câmbio, um rublo vale por volta de R$ 0,233 [janeiro de 2018], o que equivale a 1 USD = 16,5 rublos. Claro fique que essa é a taxa oficial de câmbio [fonte].

Embora o rublo transnistriano tenha aceitação semilimitada dentro do próprio país — circulam comumente o leu moldavo e a grivnia ucraniana —, ele é a moeda oficial dessa pequena nação e é emitido pelo Bank Pridnestrov’ja (traduzido como Priednestrov Republican Bank – Banco da República da Transnístria – PRB).

Como o país não tinha casa da moeda, as peças metálicas foram batidas em outras instituições, como a Minnica Polska, em Varsóvia. Em 2001, essa relação da fabricante polonesa — empresa cujo capital é detido pelo governo da Polônia — gerou um imbróglio diplomático entre a Ucrânia e a Polônia, quando as forças de segurança deste último país interceptaram um carregamento de moedas transnistrianas.

As moedas metálicas de circulação comum têm todas datas de 2000, 2002 e 2005, o que indica que foram batidas até 2005, muito provavelmente pela mesma Minnica Polska.

O papel-moeda já se imprimia em Tiraspol, capital do país, mas as moedas vinha de fora. No final de 2005, o governo transnistriano abriu sua própria casa da moeda, embora as moedas metálicas emitidas após essa data sejam apenas peças comemorativas.

O que chama a atenção é que, em 2014, o PRB lançou moedas de material plástico. O uso de materiais alternativos nos remete às Notmünze alemãs — emitidas durante a Primeira Guerra Mundial e no pós-guerra imediato, algumas chegaram a ser feitas de porcelana ou eram invólucros com um selo postal dentro — e aos Sales Tax tokens, emitidos por alguns Estados dos Estados Unidos.

À esq., Notmunze de 50 pfennig (50 centésimos de marco) de porcelana, emitido pela cidade de Grünberg (atual Zielona Gora, na Polônia) [fonte: Rider Collections]; à dir. Sales Tax tokens emitidos pelos Estados de Missouri, Mississippi, Colorado e Utah, com valores expressos em mills (décimos de centavo ou milésimos de dólar) [fonte: en.wiki]

No caso da Transnístria, não se trata de uma escassez pontual de meio circulante emitido pelo banco central (como era a motivação das Notmünzen) ou de meios de pagamento de um imposto (caso americano), mas uma alternativa encontrada pelo pequeno país para emitir um meio circulante barato e durável (em princípio), como as moedas metálicas.

transnistrtian cpins

Com dados do PRB, eis as descrições das moedas plásticas.

1 rublo
Cor: amarelo/amarronzado
Forma: circular, com diâmetro de 26 mm
Espessura: 1,2 mm
Borda: lisa

Anverso: no centro, retrato de Aleksandr Vasílievitch Suvorov; sob este o texto: ПРИДНЕСТРОВСКИЙ РЕСПУБЛИКАНСКИЙ БАНК (Banco da República da Transnístria); à esquerda, a denominação 1 РУБЛЬ (1 rublo); texto orientado na direção vertical sobre o valor: СЕРИЯ АА (Série AA).

Reverso: grade de losangos com o logotipo do Banco e, sob este, a denominação ОДИН РУБЛЬ (um rublo); no canto direito do logotipo, o ano do modelo, 2014.

3 rublos
Cor: tons de verde
Forma: quadrado com lados de 26 mm
Espessura: 1,2 mm
Borda: lisa

Anverso: no centro, retrato de Franz Pávlovich De Volan; sob este o texto: ПРИДНЕСТРОВСКИЙ РЕСПУБЛИКАНСКИЙ БАНК (Banco da República da Transnístria); à direita, a denominação 3 РУБЛЯ (3 rublos); texto orientado na direção vertical sobre o valor: СЕРИЯ АА (Série AA).

Reverso: grade de losangos com o logotipo do Banco e, sob este, a denominação ТРИ РУБЛЯ (três rublos); no canto direito do logotipo, o ano do modelo, 2014.

5 rublos
Cor: tons de azul
Forma: pentágono com 28 mm de altura, do topo à base
Espessura: 1,2 mm
Borda: lisa

Anverso: no centro, retrato de Pjotr Aleksándrovitch Rumjantsev-Zadunaiski; sob este o texto: ПРИДНЕСТРОВСКИЙ РЕСПУБЛИКАНСКИЙ БАНК (Banco da República da Transnístria); à direita, a denominação 5 РУБЛЕЙ (5 rublos); texto orientado na direção vertical sobre o valor: СЕРИЯ АА (Série AA).

Reverso: grade de losangos com o logotipo do Banco e, sob este, a denominação ТРИ ПЯТЬ РУБЛЕЙ (cinco rublos); no canto direito do logotipo, o ano do modelo, 2014.

10 rublos
Cor: vermelho e laranja
Forma: hexagonal, com 28 mm entre os vértices opostos
Borda: [sem informação na fonte]

Anverso: no centro, retrato da Imperatriz Catarina II; sob este o texto: ПРИДНЕСТРОВСКИЙ РЕСПУБЛИКАНСКИЙ БАНК (Banco da República da Transnístria); à direita, a denominação 10 РУБЛЕЙ (10 rublos); texto orientado na direção vertical sobre o valor: СЕРИЯ АА (Série AA).

Reverso: grade de losangos com o logotipo do Banco e, sob este, a denominação ДЕСЯТЬ РУБЛЕЙ (dez rublos); no canto direito do logotipo, o ano do modelo, 2014.

 

 

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Nós, o aço e o Sri Lanka

Recentemente, em dezembro de 2018, o Sri Lanka, país-ilha localizado ao sul da Índia — aquela “lágrima” no mapa — adotou uma nova família de moedas de 1, 2, 5 e 10 rúpias. A novidade, que na verdade vinha sendo adotada lentamente desde 2013 nas moedas antigas, é que toda a série é de aço inox.

The new coins are made of stainless steel, which gives more durability than the existing plated coins. The cost of production has also been minimized through the reduction of size and weight of the coins and usage of stainless steel. (Newsfirsr.lk)

Nós, inversamente, abandonamos o aço inox em 1997, e o retomamos e 2002 apenas na peça de 50 centavos. O que vinte anos de moedas revestidas no Brasil nos mostraram é a baixa qualidade e a baixa durabilidade dessas peças. Não era má ideia que uma terceira série do real retomasse a nossa vocação para as peças de aço inox, material abundante no Brasil. Hoje sabe-se que é possível confeccionar belas peças de aço.

2019 e o meio circulante metálico brasileiro

Embora as minudências do meio circulante sejam realmente minudências neste momento, parece claro que, dentro do perfil do governo Jair Bolsonaro, as questões a ele relacionadas terão algum destaque no futuro próximo.

O próximo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, além do peso do sobrenome — é neto do finado ministro de Planejamento Roberto Campos (1917-2001) —, é partidário de medidas que limitem o tamanho do Estado. E, para um economista dessa vertente, diminuir o tamanho do Estado é cortar despesas. E nosso atual meio circulante metálico é, digamos, quase deficitário.

Além do novo nome para o BC, a Medida Provisória 870, que reorganiza os órgãos do Governo Federal, altera também a composição do Conselho Monetário Nacional, órgão que, com o Banco Central, tem papel preponderante na gestão do meio circulante.

Como já tratamos em outras oportunidades, nosso meio circulante metálico apresenta peças que não apenas não se pagam, mas custam até seis vezes mais que seu valor de face. Na última atualização que o BC fez das estimativas de custo (março/2018), os valores unitários arredondados eram:

5 centavos, R$ 0,308;
10 centavos, R$ 0,403;
25 centavos, R$ 0,497;
50 centavos, R$ 0,409;
1 real, R$ 0,468.

Nota-se uma aumento não desprezível com a estimativa de dezembro/2016:

5 centavos, R$ 0,282;
10 centavos, R$ 0,369;
25 centavos, R$ 0,456;
50 centavos, R$ 0,375;
1 real, R$ 0,428.

É óbvio que, dentro da noção de eficiência que os responsáveis pela área econômica querem trazer, é preciso rever o custo de manutenção do meio circulante. Nos EUA, há mais de uma década que se tenta terminar a produção do penny (1 cent de dólar), o custo da peça é de 0,0182 USD, ou seja, a moeda custa 182% do seu valor de face. Nossa pequena de 5 centavos custa simplesmente 616% do seu valor facial. O Canadá já extinguiu a produção do seu penny em 2012.

Nossa moeda de 1 centavo foi extinta em 2005, embora as peças existentes continuem tendo valor legal, ou seja, devem ser aceitas nas transações.

A questão é que a moeda de 5 centavos se está tornando irrelevante. Em minha opinião, acredito que a peça possa e mesmo deva ser extinta. Seu poder de compra é pífio, lembrando que, geralmente, as balas custam R$ 0,10; ou seja, 5 centavos são meia bala.

É necessária uma reformulação dos módulos das moedas; as peças de 25, 50 centavos e 1 real são demasiadamente grandes e pesadas para o valor parco que representam. Seria de bom tamanho abandonar os discos eletrorrevestidos, que são nitidamente mais caros, bastando comparar o valor de produção das peças de 10 centavos — aço baixo-carbono eletrorrevestido de bronze fosforoso — e 50 centavos — do bom e velho aço inox, que foi a regra entre 1979 e 1997.

A introdução de peças com valor superior a 1 real parece inevitável dentro dessa lógica. Por mais que a atual série é produzida desde 1998, o que é um recorde para os padrões brasileiros, a inflação considerável desses 21 anos devastou o poder de compra das moedas e aumentou seus custos de produção.

O que podemos ver daqui para diante?

Cenário mais conservador: (i) manutenção da atual família com (ii) a introdução de uma peça de 2 reais.

Cenário médio: (i) manutenção da atual família, com a (ii) introdução de uma peça de 2 reais e a (iii) supressão da peça de 5 centavos.

Cenário avançado: reformulação da família, com (i) troca dos metais, (ii), redução dos módulos, (iii) supressão da moeda de 5 centavos e (iv) introdução de uma peça de 2 reais.

Acredito que a introdução de uma peça de valor superior a 2 reais seja improvável.

Certamente veremos novidades logo mais.

Anverso C da peça de 25 centavos e anverso B da peça de 1 real – era 2018

O colecionador João Vianney Albertin, há alguns meses, entrou em contato conosco pela página do Facebook e relatou ter notado uma diferença no anverso das moedas de 25 centavos era 2018. Ele teve a gentileza de nos remeter fotografias; e nós também, com exemplares conseguidos, pudemos perceber que há diferenças, o que configura, ao que parece, o anverso C.

Se você já é leitor deste blogue há algum tempo, em janeiro de 2015 publicamos um artigo intitulado “Em 2004, o Marechal foi ao barbeiro”. Ali, pudemos constatar que há um anverso A, usado de 1998 a 2004, e um B, usado de 2004 a 2018. A diferença mais visível entre A e B reside nos detalhes da barba, que em B passaram a ser mais nítidos. No mesmo artigo afirmamos que a era 2004 da peça apresentava os dois anversos.

Com esse retoque do anverso feito em 2018, as peças deste ano também podem apresentar dois anversos, o B e o C, como pode ser visto nas fotografias.

À dir., o chamado anverso B, usado de 2004 a 2018; à esq., o C, usado a partir de 2018. As duas peças são da era 2018 (fotos: cortesia J. V. Albertin)

Percebam que os detalhes da barba e do cabelo do Marechal Deodoro são muito mais nítidos no reverso C; o desenho como um todo está mais sutil e mais nítido, e as estrelas do Cruzeiro do Sul, no centro das Armas da República, estão maiores e mais nítidas.

O gentil sr. Albertin também nos informou sobre uma alteração no anverso da peça de 1 real. Aparentemente, nesse anverso B o desenho está mais “raso”, como se tem observado nas outras remodelações de anverso, mas a principal característica é uma “linha dupla” na no contorno do canto do maxilar da efígie da República. A peça de 1 real era 2018 apresenta os dois anversos.

1 real
Acima, o anverso B; abaixo, o A. Repare na curva do maxilar na imagem de cima; é o traço mais caraterístico das mudanças (fotos: cortesia J. V. Albertin)

Ao sr. Albertin nosso eterno agradecimento.

P. S.: o presente artigo foi lido por uma amiga do autor; ela classificou o reverso B da peça de um real como “Cristo de Borja”. Para quem são sabe ou não se lembra do caso, ocorrido em 2012, aqui há informações.

Clipping – Descoberto centavo de vidro

Da equipe de imprensa do Numismatic News.

Em 1943, os Estados Unidos tiveram centavos de aço, não de vidro, mas os ensaios feitos para buscar um substituto do cobre durante a Segunda Guerra Mundial ainda atiçam os colecionadores.

O pesquisador Roger W. Burdette deu notícia da única peça experimental de vidro intacta, de 1942.

Feita pela Blue Ridge Glass Company, ela foi certificada como PR-64 pelo Professional Coin Grading Service.

A peça experimental de vidro atualmente [2016] está em uma coleção privada, segundo Burdette.

glass-1942-cent.png
Peça de um centavo de dólar (fonte: PCGS/Numismatic News)

Assim como ele conta a história completa da peça, feita de vidro temperado transparente amarelo-âmbar. Ela tem o mesmo alinhamento anverso-reverso que o outro exemplo conhecido, mas que está quebrado pela metade, e está descrita e ilustrada nas páginas 95 e 96 do livro Pattern and Experimental Pieces of WWII, de Burdette.

Durante o ano de 1942, a US Mint [Casa da Moeda americana] procurava por um material substituto para o cobre usado na moeda de um centavo. O cobre era então uma matéria-prima fundamental para a guerra, e o War Production Board recusou-se a destinar cobre suficiente para a instituição cunhar moedas no ano seguinte.

O Escritório da Casa da Moeda começou a conduzir experimentos internos que acabariam levando à adoção do centavo de zinco revestido de 1943, mas a Casa da Moeda convidou ainda companhias privadas para testar vários tipos de plástico na eventualidade de os metais não estarem disponíveis.

A alguns fabricantes de botões plásticos e outros itens pequenos foram emprestados um par de cunhos de uma medalha do mesmo tamanho da moeda de um centavo preparado pelo gravador da US Mint John Sinnock. O anverso mostrava a efígie da Liberdade copiada da moeda de dois centavos “Columbia” [1]. O reverso trazia uma simples grinalda, concebida por Anthony Paquet, em meados do século XIX, e as palavras “United States Mint” no centro.

Os experimentos foram divulgados em revistas comerciais, e oficiais foram convidados para acompanhá-los na Blue Ridge Glass Company em Kingsport (Tennessee). A Casa da Moeda tinha um par de cunhos usados mandado pela Colt Manufacturing Co., outro mandado pelos ensaiadores de plástico, e a Blue Ridge obteve os discos de vidro temperado da Corning Glass Co.

A Blue Ridge teve dificuldades consideráveis em fazer os ensaios de vidro. Para imprimir o desenho no vidro, tanto vidro como os cunhos deveriam estar muito quentes — bem próximo da temperatura de fusão do vidro —; então o vidro precisava ser resfriado rapidamente para preservar os detalhes do desenho. Mas a empresa não conseguiu esquentar o cunho, e o resultado foi que as moedas experimentais tinham um nível de detalhamento muito baixo e muitas pequenas imperfeições na superfície. A Blue Ridge descreveu seu processo e os resultados em um relatório de seis páginas, que está conservado nos documentos da US Mint nos Arquivos Nacionais dos EUA.

A nova peça intacta identificada pesa 1,52 g (aprox.), tem diâmetro de 19,85 mm (aprox.) e espessura de 2,36 mm (aprox.).

Por conta do método de fabricação, massa e dimensões podem variar ligeiramente de uma peça para outra.

Os detalhes são perceptivelmente mais sutis que os exemplares de metal ou plástico. As superfícies apresentam padrões de fluidez do vidro e também microfissuras e trincas, tal como descrito no relatório da Blue Ridge de 8 de dezembro de 1942.

[1] N. do T.: não se conseguiu estabelecer de peça exatamente se trata.

Original.

As moedas do cruzado e seu poder de compra

O plano cruzado foi uma tentativa de frear a inflação e estabilizar a economia, lançado em fevereiro de 1986. Com o plano, veio ainda uma reforma monetário em que 1.000 cruzeiros (do segundo cruzeiro, 1970-86) passaram a ser 1 cruzado; entrou em circulação uma série nova de moedas, baseada na terceira série do segundo cruzeiro (1985-6), com as peças de 1, 5, 10, 20 e 50 centavos; e 1 e 5 cruzados, todas de aço inox.

Em março de 1986, o que era possível fazer com as moedas?

Com o valor atualizado pelo Índice de Preços ao Consumidor-SP, da Fipe, atualizamos o poder de compra das peças metálicas. O valor-base é o de 1 cruzado em março de 1986, que equivale a R$ 0,53 em agosto de 2018.

O mais curioso é a emissão de moedas muito pequenas, cujo valor de compra era irrisório; além da transformação das moedas de 100, 200 e 500 cruzeiros nas peças de 10, 20 e 50 centavos, criaram-se as moedas minúsculas de 1 e 5 centavos (15 e 16 mm, respectivamente). Com base no nosso valor do cruzado, temos as seguintes equivalências:

1 centavo: R$ 0,0053, ou seja, pouco mais de meio centavo de real. Basta que nos lembremos o sumiço da moeda de 1 centavo de real e a pouca monta da moeda de 5 para entendermos o que era a moeda de 1 centavo de cruzado.

5 centavos: R$ 0,0265. Dois centavos e meio de real. Igualmente irrisório.

10 centavos: R$ 0,053. Quase cinco centavos e meio.

20 centavos: R$ 0,106. Dez centavos e meio.

50 centavos: R$ 0,265. Vinte e seis centavos e meio. Compare o tamanho e o material das peças de 50 centavos de cruzado e os da moeda de 25 centavos de real atualmente fabricada.

1 cruzado: R$ 0,53.

5 cruzados: R$ 2,65.

Apesar de as três primeiras moedas terem valores irrisórios, a moeda mais alta do sistema tinha um poder de compra mais alto que nossa moeda mais alta atualmente (1 real), a situação não durou muito tempo, pois no final de 1986, o cruzado já começara a fazer água.