O cuproalumínio – uma história brasileira breve (1922-1956)

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Reverso dos $500 comemorativos do centenário da Independência (fonte: http://amadiocoins.com/catalog/coin/2119)

Entre 1922 e 1956, o Brasil emitiu moedas “amarelas”, que alguns mais velhos diziam ser de latão. Trata-se, na verdade, o cuproalumínio, liga binária de cobre e alumínio, também chamada, com alguma imprecisão, de “bronze de alumínio” ou “bronze-alumínio”. Optamos por usar a nomenclatura cuproalumínio por esta ser mais condizente a uma liga, como o cuproníquel, p. ex., e porque a palavra bronze dá uma ideia errada, já que esta palavra designa a liga de cobre e estanho como componentes majoritários; o latão, citado mais acima, também aponta para outra liga, de cobre e zinco.

O cuproalumínio como metal de cunhagem aparece no Brasil em 1922, com as emissões de 500 e mil réis, comemorativas do centenário da Independência. Essas peças deveriam ter sido batidas em prata, como os valores prévios o foram, mas a escassez de prata no primeiro pós-guerra levou o governo brasileiro a adotar um metal novo, usado desde o ano anterior na França.

Inicialmente, a liga foi apresentada pelo químico francês Henri de Sainte-Claire Deville, em 1854 (HORNE, 2013, p. 104). Em 1913, um relatório do Senado da França traz o tema da fabricação de moedas de níquel perfuradas, efetivamente fabricadas a partir de 1913 (25 cêntimos) e 1914 (5 e 10 cêntimos, conhecidas hoje como Lindauer, pelo nome do gravador, Edmond-Émile Lindauer).

Mas o mesmo relatório, datado de 24 de junho de 1913, traz que desde 1909 estufavam-se ligas de cobre e alumínio para substituir as moedas de denominação mais baixa, principalmente as de bronze (5 e 10 cêntimos).

A escassez de prata, como dito acima, levou o governo francês a emitir “fichas” de cuproalumínio no valor facial de 50 cêntimos, 1 e 2 francos, as chamadas peças Dommard. Chamamo-las de “fichas” porque, embora tenham sido moeda de facto, tratou-se de uma emissão “dissimulada”; a autoridade emissora não era oficialmente o Banco de França, mas as “Câmaras de Comércio da França”; essas peças foram batidas até 1927 e tal comportamento de emissão foi reproduzido nas possessões e colônias francesas; em 1931, a cunhagem de cuproalumínio foi “oficialmente” emcampada pelo Estado, que emitiu as peças Morlon no mesmo valor, que resistiriam até a invasão alemã (1940).

No Brasil, a liga aparece em 1922, nas pelas de $500 e 1$ que celebravam o centenário da Independência. As peças deveriam ser de prata (BRASIL, 1920), porém o valor do metal impossibilitou a emissão desses valores faciais (MALDONADO, 2014, p. 827). O Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922, estatuiu que a liga a ser usada seria de cobre e alumínio (BRASIL, 1922a); um decreto de 19 de agosto do mesmo ano estabelecia as características das peças. A liga estabelecida é 910 milésimos de cobre e 90 milésimos de alumínio.

Para a nova série introduzida em 1924, as moedas de $500 e 1$, com novos anversos e reversos, mantém as características físicas estabelecidas para as peças da Independência do mesmo valor.

Art. 1º As moedas nacionaes de prata do valor de 2$ e as de cobre e aluminio dos valores de 1$ e 500 réis, que se cunharem de ora em deante conservarão o peso, liga, tolerancia e modulo já determinados em leis, e obedecerão aos caracteristicos seguintes:

[…]

As moedas de cobre e aluminio dos mencionados valores terão no anverso a figura de Céres, ornada por 21 estrellas, symbolizando os Estados e na frente da figura o Cruzeiro do Sul; no reverso os ramos de café e algodão, com o valor no centro, por cima a estrella da União, encimada pela palavra – Brasil, e por baixo a éra do cunho. (BRASIL, 1924)

Essas moedas serão batidas de 1924 a 1931. Aparentemente, é a primeira aparição do Cruzeiro do Sul fora de ornamentação heráldica, como ocorreu até então.

Em 1932 foi emitida a chamada série Vicentina, que comemorou os 400 anos do início da colonização do Brasil. As peças de cuproalumínio têm as mesmas características físicas das anteriores, segundo o art. 3º do Decreto nº 21.358, de 4 de maio de 1932. É curioso notar que essas duas peças da série Vicentina são consideradas difíceis de encontrar por sua baixa tiragem: 34.214 exemplares para a $500 e 56.214 para a de $1 (MALDONADO, 2014); seu valor financeiro alto faz com que empresas chinesas entupam o mercado numismático com “réplicas”.

Art. 3º A liga monetária das moedas de cobre-alumínio e de niquel, seu valor, peso e módulo e bem assim as tolerâncias permitidas serão os mesmos das atuais moedas dessa espécie. (BRASIL, 1932).

A liga, inicialmente denominada apenas cobre e alumínio, passa a ser um substantivo composto ligado por hífen: cobre-alumínio.

Em 1935, aparece a chamada 1ª emissão da 1ª série dos Brasileiros ilustres. O decreto que faz referência a elas fala sobre a alteração da liga no caput, mas não diz quais seriam.

O Chefe do Govêrno Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil usando das atribuições que lhe confere o art. 1º do decreto n. 19.398, de 11 de novembro de 1930, e atendendo ao que lhe representou o ministro da Fazenda sôbre as técnicas de alterar a tolerância da atual moeda de 2$000 e a composição das de 1$000 e $500, (BRASIL, 1934).

As alterações seguintes virão com o Decreto nº 565, de 31 de dezembro de 1935, que cria a chamada 2ª emissão da 1º série de Brasileiros Ilustres. São reduzidos os módulos das peças de $500 e 1$ e cria-se uma nova, a de 2$. O artigo 2º do decreto uma tabela em que a liga é estipulada: 900 Cu, 80 Al e 20 Zn (BRASIL, 1935). É possível que a composição da 1ª emissão da série seja essa também.

Nessa mesma liga seriam batidas as moedas de $500, 1$ e 2$ da 2ª série de Brasileiros Ilustres (1939), as de 1, 2 e 5 cruzeiros (1942-1943) e todas as moedas de cruzeiro entre 1943 e 1956.

Seguiu-se um período de reinado absoluto do alumínio (1957-1965), que possivelmente nos deu as peças mais feias da numária brasileira. A partir de 1961-2 começa um período extremamente confuso da nossa política econômica e, consequentemente, da nossa numária, em que o diz-que-me-diz tomou conta do noticiário. Entre as várias moedas que nunca viram a luz havia projetos de novas peças de cuproalumínio, inclusive para o valor de 5 cruzeiros, o valor “maldito” do padrão cruzeiro — depois, em outro texto, explicaremos esse “maldito”.

Com a criação do cruzeiro novo, em 1966, e a introdução de uma nova família de moedas de aço, cuproníquel e níquel em 1968, o cuproalumínio sumiu da numária brasileira, ao que parece, para nunca mais voltar.

* * *

BRASIL. Decreto nº 4.182, de 13 de novembro de 1920.

BRASIL. Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922. 1922a.

BRASIL. Decreto nº 15.620, de 19 de agosto de 1922. 1922b.

BRASIL. Decreto nº 16.409, de 12 de março de 1924.

BRASIL. Decreto nº 21.358, de 4 de maio de 1932.

BRASIL. Decreto nº 24.527, de 16 de maio de 1934.

BRASIL. Decreto nº 565, de 31 de dezembro de 1935.

HORNE, P. M. de. Dictionnaire de chimie: une approche étymologique et historique. De Boeck: [s/l.], 2013.

MALDONADO, R. Moedas Brasileiras – Catálogo Oficial (1500-2014). Ischia: MBA Editores, 2014.

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O bordo das moedas de 50 centavos (1998-2015)

A moeda de 50 centavos de real atualmente fabricada traz um detalhe raro na numária brasileira, que é o bordo com legenda. A única moeda comum com esse tipo de ornamento é a de 1 cruzeiro de 1972, comemorativa dos 150 anos da Independência.

O bordo da moeda de 50 centavos traz as inscrições ORDEM E PROGRESSO e BRASIL; as duas inscrições são separadas por duas estrelas de cinco pontas. Trata-se de inscrição negativa, ou seja, a letra é profunda com relação à superfície do bordo.

O que chama a atenção nessa moeda fabricada desde 1998 são as alterações estéticas que a inscrição sofreu com o passar do tempo. Inicialmente, a peça era cunhada em discos de cuproníquel; a partir de 2002, passou a ser de aço inoxidável.

Fomos capazes de identificar, com o auxílio de uma câmera USB de aumento, quatro variedades de inscrição, a que chamamos de A, B, C e D.

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Bordo A – 1998

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Bordo A – 2000

A1998

Bordo A – 2001

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Bordo A (g sem braço) – 2002

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Bordos B (acima) e A (abaixo) – 2002. Atentem-se às formas dos rr e dos ss

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Bordos B (2009, acima) e C (2002, abaixo)

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Bordos D (2012, acima), C (2009, no meio) e D (2012, abaixo)

Com base em amostra inicial de vinte peças de cada ano, chegamos ao resultado preliminar.

Ano – Bordo (s)

1998 – A
2000 – A
2001 – A
2002 – A, B
2003 – B
2005 – B
2006 – B
2007 – B
2008 – B
2009 – B, C
2010 – B, C (baixa frequência)
2011 – B
2012 – B, D
2013 – B, D
2014 – D
2015 – D
2016 – B

Veja também: Mais considerações acerca do anverso da peça de 50 centavos e Os dois anversos da moeda de 50 centavos.

Conheça a nova cédula de 20 francos suíços (clipping)

Por Catherine Bosley (original)

10 de maio de 2017 – 6h27 Hora de Brasília

O Banco Nacional da Suíça leva o dinheiro a sério.

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O vice-presidente do Banco Nacional da Suíça, Fritz Zurbruegg, anuncia a nova cédula de 20 francos (foto: Michele Limina/Bloomberg).

A instituição mal venceu o prêmio de cédula do ano, com a peça de 50 francos, e já apresentou o desenho da nova nota de 20 francos, na última quarta-feira, considerada pelo vice-presidente do Banco, Fritz Zurbruegg, a mais segura do mundo.

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Com coloração predominantemente vermelha e com o tema da luz e da cultura, a nova cédula, feita de papel de algodão com um núcleo de polímero, entrará em circulação em 17 de maio.

“A nota de 20 francos foca na criatividade da Suíça, destacando a cena cultural e artística vibrante em várias áreas”, disse Zurbruegg em uma cerimônia em Berna.

A nota de 20 segue-se à introdução da nova cédula de 50 francos, que foi considerada a cédula do ano de 2016 por um grupo internacional de especialistas, batendo outros dezoito competidores, incluindo a controversa nota de 5 libras do Banco da Inglaterra. A nova série suíça mostra elementos da natureza em vez de retratos de figuras históricas do país.

A nova nota de 20 tem quinze elementos de segurança, incluindo um globo que muda de cor, um mapa da Suíça prateado e uma cruz que se transforma na bandeira do país.

Em resposta sobre por que a nota seria a mais segura do mundo, Zurbruegg respondeu com uma risadinha: “Eu reivindico o título”.

O meio circulante do real

Muita especulação e muito achismo aparecem quando se fala no meio circulante do real, segundo padrão monetário de maior duração desde 1942, contando, em dezembro de 2017, com 23 anos e cinco meses, prestes a ultrapassar o primeiro cruzeiro, esse sim, o padrão mais duradouro no pós-1942, vigente de outubro de 1942 a fevereiro de 1967, contando 24 anos e cinco meses; marca que o real alcançará em novembro de 2018.

Nesses quase 23 anos e meio de real, houve alterações substanciais no meio circulante. Em julho de 1994 foram lançadas uma série de cédulas e uma série de moedas para circulação provisória. A segunda família de moedas, que pôs fim ao reinado absoluto de quase vinte anos do aço inox, entrou em circulação em 1º de julho de 1998, quarto aniversário do padrão. A série de cédulas foi sendo substituída em três etapas, entre 2010 e 2013.

O fato de terem sido lançadas novas séries de cédulas e moedas não quer dizer que as primeiras versões não tenham mais validade.

A primeira família de cédulas, lançada em 1994, contava com as peças de 1, 5, 10, 50 e 100 reais. A cédula de 2 reais foi introduzida em 13 de dezembro de 2001, e a de 20, em 27 de julho de 2002. A numária brasileira não via cédulas com múltiplo de 2 desde o lançamento da cédulas de 200 cruzados novos, que comemorava os cem anos da Proclamação da República, em 1989.

A primeira família de moedas foi lançada também em julho 1994 e contava inicialmente com as peças de 1, 5, 10, 50 centavos e 1 real. A moeda de 25 centavos, provavelmente um protótipo para uma possível segunda família, foi lançado em setembro daquele ano.

Vamos então a alguns mitos e boatos que há a respeito da numária do real.

A moeda de centavo não vale mais.

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Falso. Embora sua produção tenha sido descontinuada a partir de 2005, a moeda segue tendo curso legal, ou seja tem valor e tem de ser aceita como meio de pagamento (até o limite de cem vezes seu valor de face). E isso vale tanto para as moedas de aço da primeira família como para as de aço eletrorrevestido de cobre da segunda.

As moedas de aço não valem mais.

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Parcialmente falso. Todas as moedas emitidas a partir de 1994 têm valor legal, exceto a de 1 real da primeira família, que foi demonetizada em 23 de dezembro de 2003; é a única sem valor. As outras continuam tendo poder de compra.

As moedas verdadeiras são atraídas pelo ímã.

Parcialmente falso. Entre 1998 e 2001, foram emitidas moedas de 50 centavos e 1 real, de cuproníquel e de anel de alpaca e miolo de cuproníquel, respectivamente. Esses metais são amagnéticos, ou seja, não são atraídos pelo ímã. Em 2002, por conta dos custos de produção, o Banco Central trocou por aço os metais das moedas citadas.

 Qualquer moeda fora dessas datas (1998-2001) e não magnéticas, sim, são falsas.

A cédula de 1 real não vale mais.

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Falso. A produção da cédula de 1 real foi descontinuada em 2005 — fato por que não há cédula de 1 real na segunda família —, mas as que ainda estiverem em mãos dos usuários podem ser usadas e devem ser aceitas, pois têm valor legal.

A cédula de 10 reais de plástico é falsa/não vale mais.

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Em 2000, o Banco Central emitiu uma cédula de polímero que comemorava os 500 do descobrimento do Brasil, bem diferente da série então vigente. Tratou-se de um teste de material para a segunda família, mas que não vingou. Embora praticamente não sejam mais vistas em circulação, continuam tendo valor legal e devem ser aceitas por comércio e setor bancário.

Meu primo/vizinho/amigo me disse que as moedas das olimpíadas valem R$ 50 cada.

Falso. Das moedas comemorativas do real, podem chegar a ter valor considerável a de 1 real dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1998), com 600 mil exemplares, e o chamado real da Bandeira Olímpica (2012), com 1 milhão de exemplares. As de 10 e 25 centavos da FAO, de 1995, também podem chegar a valer algo. Todas as outras, incluindo as das modalidades olímpicas (2015-2016), do Juscelino Kubitschek (2002), dos 40 anos do BC (2005) e dos 50 anos do BC (2015) foram emitidas todas em quantidades superiores a 10 milhões, o que não faz delas raridades.

A moeda de 25 centavos é uma invencionice

Em 27 de agosto de 1994 (Carta Circular BC nº 4.198), à imitação do dólar americano, foi introduzida a moeda de 25 centavos de real, representando um quarto da unidade. O fato justifica-se por conta da dolarização inicial trazida pelo plano Real

Tal valor é alienígena se observarmos moedas emitidas anteriormente, em que a possibilidade de fração entre 10 centavos (um décimo) e 50 centavos (meio) era representada por um submúltiplo de 2 (vinte centavos, um quinto). É antinatural porque não se reproduz nos múltiplos. Seria necessária uma cédula/moeda de R$ 2,50 (como alguns países tiveram, como Espanha e Portugal).

Toda nossa numária posterior a 1942 tem como base os múltiplos ou submúltiplos de 1, 2 e 5. O mais aceitável seria uma moeda de 20 centavos, como tivemos entre 1942 e 1961, entre 1967 e 1979 e entre 1986 e 1988.

À esq. moeda de 20 centavos de 1970; à dir., a peça de 25 centavos introduzida em 1994

O poder liberatório das moedas metálicas

Poder liberatório, segundo o Glossário do Banco Central (BC) é a “capacidade da cédula, ou moeda, de liberar débitos, de efetuar pagamentos”.

Se observamos os vários textos legais que punham as moedas em circulação, encontraremos um limite de uso de moedas metálicas, como disposto, p. ex., no art. 5º do Decreto nº 21.358, de 4 de maio de 1932, que dispõe sobre as moedas da chamada Série Vicentina:

Art. 5º O poder liberatório das moedas que trata o art. 1º será, salvo mútuo consentimento das partes, respectivamente 40$0, 20$0 e 4$0, para as de prata, cobre-alumínio e [cupro]níquel, respectivamente.

Ou seja, as moedas, em um pagamento feito apenas com elas, tinham um limite de aceitação, que, a critério do recebedor, poderia ser ampliado. Ninguém era obrigado a aceitar moedas acima do limite estipulado.

Nas normativas a respeito do real há referência ao poder liberatório das peças metálicas, do que se deduz ser possível pagar qualquer quantia com moedas metálicas.

Errado. Embora não conste limitação expressa do poder liberatório das moedas, a Lei nº 8.697, de 27 de junho de 1993 — conversão em lei da Medida Provisória nº 336, de 28 de julho de 1993 —, que criou o cruzeiro real, fixa, em seu art. 9º:

Art. 9º Ninguém será obrigado a receber, em qualquer pagamento, moeda metálica em montante superior a cem vezes o respectivo valor da face.

Embora a MP nº 542, de 30 de junho de 1994 —  a MP do Real, reeditada várias vezes[1] e finalmente convertida na Lei nº 9.069, de 29 de junho de 1995 — tenha criado uma nova moeda e não trate do poder liberatório das peças metálicas, como não consta revogação expressa da Lei nº 8.697, as partes do texto que não foram alteradas pela MP do Real são aplicáveis continuam em vigor:

Art. 23. A partir de 01.08.93:

[…]

V – Ninguém será obrigado a receber, em qualquer pagamento, moeda metálica em montante superior a cem vezes o respectivo valor de face;

[…]

Logo, o poder liberatório das nossas moedas metálicas segue esse inciso. Ninguém é obrigado a aceitar montante superior a cem vezes o valor de face das peças; vejam que não é uma proibição, logo, fica a critério do recebedor aceitar ou não.

O poder liberatório das moedas metálicas

* * *

[1] MPs nº 566, de 29 de julho de 2994, nº 596, de 26 de agosto de 1994, nº 635, de 27 de setembro de 1994, nº 681, de 27 de outubro de 1994, nº 731, de 25 de novembro de 1994, nº 785, de 23 de dezembro de 1994, nº 851, de 20 de janeiro de 1995, nº 911, de 21 de fevereiro de 1995, nº 953, de 23 de março de 1995, nº 978, de 20 de abril de 1995, nº 1.004, de 19 de maio de 1995, e nº 1.027, de 20 de junho de 1995.

Casas da Moeda

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Anverso de peça de prata emitida pelos trezentos anos da Casa da Moeda, em 1994

Desde que o governo Temer anunciou a inclusão da Casa da Moeda do Brasil (CMB) em um bloco de concessões, os ânimos estão acirrados, seja entre críticos das privatizações ou entre alguns colecionadores e numismatas.

A CMB é tricentenária. Foi fundada ainda na época colonial, em 8 de março de 1694, com sede originalmente em Salvador, à época capital da colônia, mas logo mudada para o Rio de Janeiro, onde está até hoje, se bem que não mais nos recintos apertados da praça da República; desde os anos 1980, a unidade fabril está em Santa Cruz, zona Oeste da capital fluminense.

O anúncio da privatização da fábrica mexeu com os brios patrióticos de alguns. Mas todo país tem necessariamente uma casa da moeda? Vamos analisar rapidamente nossos vizinhos da América do Sul.

Têm instituições similares à nossa CMB Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela. São mais recentes as da Colômbia, criada em 1982, e a da Venezuela, criada em 1989. As de Argentina, Chile e Peru são como as nossas, evoluções de instituições fundadas ainda no tempo da colonização espanhola.

E os outros países sul-americanos? Como fabricam suas moedas? Fora. O Uruguai é cliente habitual das casas da moeda de Argentina e Chile; eventualmente encomenda alguns lotes de moedas metálicas à Royal Mint do Reino Unido. O Paraguai já fez moedas com a Kropf, fábrica privada alemã, com a Royal Mint, Casa da Moeda do Chile e CMB. A Bolívia também compra moedas de vários fabricantes, inclusive da CMB; o Equador também importou moedas de vários países, inclusive do Brasil. As da Guiana são feitas pela Royal Mint, na antiga metrópole. E, por fim, o Suriname importa suas moedas da Holanda (Koningklijk Nederlandse Munt) e do Reino Unido (Royal Mint).

A venda da CMB não significa que o dinheiro deixará necessariamente de ser feito no Brasil; a ideia é que a fábrica seja administrada pela iniciativa privada, e o BC poderá abrir editais. A fábrica que oferecer melhores condições leva o contrato.

O que é estranho é a CMB, sendo estatal e localizada no Brasil, usando insumos também nacionais — o papel das cédulas vem de Salto/SP, e os discos de duas empresas, em Jundiaí/SP e Guarulhos/SP — não consiga produzir cédulas mais baratas que uma fábrica localizada na Suécia.

Vigência das cédulas de maior valor

Embora o assunto principal deste blogue sejam as moedas, é interessante ver o comportamento do nosso meio circulante de papel.

Tendo em conta os ciclos inflacionários pós-1942, fizemos uma contagem aproximada de quanto tempo determinada cédula foi a maior em circulação enquanto outra não a suplantou.

No período pós-1942, a mais longeva é a cédula de 100 reais, que continua contando tempo aos seus 23 anos em circulação como valor mais alto. A que ocupou o posto por menos tempo foi a de mil cruzeiros reais, por 28 dias em outubro de 1993.

Os valores de equivalência de poder de compra são em níveis de junho de 2017.

Mil cruzeiros (1943) – aproximadamente 19 anos. Pelo IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas, pela correção inflacionária, essa cédula, quando lançada, teria o poder de compra hoje de aproximadamente R$ 2,3 mil. Em 1947 pagava mil tarifas de ônibus na cidade de São Paulo (Cr$ 1,00). Comprava, em dezembro de 1943, US$ 94,07, a Cr$ 10,63 por dólar (fonte Diário da Noite de 30 dez. 1943).

1000 cruzeiros cabral

5 mil cruzeiros (17 dez 1962) – aproximadamente três anos e quatro meses. Em valores atualizados, valia, em seu lançamento, o equivalente a R$ 383. Pagava exatamente 200 passagens de ônibus em São Paulo (Cr$ 25). Em 27 dez. 1962, o dólar cotava-se a Cr$ 810, logo, a cédula comprava US$ 6,17 (fonte Correio da Manhã de 27 de dezembro de 1962).

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10 mil cruzeiros (agosto de 1966) 10 cruzeiros novos (a partir de 13 fev. 1967) – três anos e nove meses. Valia, no lançamento, cerca de R$ 120. Pagava 66 passagens de ônibus (Cr$ 150) e sobravam Cr$ 100. Em 11 de agosto de 1966, o dólar valia Cr$ 2.200; a cédula comprava US$ 4,54 (fonte Correio da Manhã de 11 de agosto de 1966).

Em fevereiro de 1967, a cédula pagava as mesmas passagens, mas comprava apenas US$ 3,69, com o dólar cotado a NCr$ 2,71 (fonte Correio da Manhã de 21 de fevereiro de 1967).

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100 cruzeiros (15 maio 1970) – dois anos e seis meses. Poder de compra estimado em R$ 568 na data de lançamento. Pagava 285 passagens de ônibus (Cr$ 0,35) e sobrava Cr$ 0,25. Comprava então US$ 22,27 (Cr$ 4,49 por dólar).

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500 cruzeiros (15 nov 1972) – seis anos e 21 dias. Valor estimado em R$ 1,8 mil. Pagava mil passagens de ônibus, a Cr$ 0,50 cada. Comprava então US$ 81,57 (Cr$ 6,13 por dólar).

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Mil cruzeiros (06 dez 1978) – um ano, dez meses e dois dias. Cerca de R$ 600. Pagava 333 passagens de ônibus e sobrava Cr$ 1. Comprava então US$ 48,85 (Cr$ 20,47 por dólar).

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5 mil cruzeiros (08 set 1981) – três anos, um mês e 23 dias. Poder de compra estimado em R$ 520. Pagava 227 passagens de ônibus, a Cr$ 22 cada, e sobravam Cr$ 6. Comprava então US$ 47,78 (Cr$ 104,64 por dólar).

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50 mil cruzeiros (01 nov 1984) – onze meses e dois dias. Poder de compra de R$ 260. Pagava exatamente 125 passagens de ônibus a Cr$ 400 cada. Comprava então US$ 18,53 (Cr$ 2.698 por dólar).

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100 mil cruzeiros (03 out 1985) – um ano e dezessete dias. Poder de compra de R$ 180 na data do lançamento. Pagava 111 passagens de ônibus, a Cr$ 900 cada, e sobravam Cr$ 100. Comprava então US$ 12,29 (Cr$ 8.135 por dólar).

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500 cruzados (20 out 1986) – onze meses e nove dias. R$ 480 em poder de compra. Pagava 333 passagens de ônibus, a Cz$ 1,50, e sobrava Cz$ 0,50. Comprava então US$ 36,13 (CZ$ 13,84 por dólar).

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Mil cruzados (29 set 1987) – onze meses e catorze dias. R$ 220 em poder de compra. Pagava exatamente cem passagens de ônibus a Cz$ 10 cada. Comprava então US$ 20,12 (Cz$ 49,71 por dólar).

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5 mil cruzados (15 set 1988) – dois meses e nove dias. Poder de compra estimado em R$ 175. Pagava 62 passagens, a Cz$ 80 cada, e sobravam Cz$ 40. Comprava então US$ 15,56 (Cz$ 321,25 por dólar).

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10 mil cruzados (24 nov 1988) – dois meses e 23 dias. Poder de compra estimado em R$ 220. Pagava 125 passagens, a Cz$ 80 cada. Comprava então US$ 19,25 (Cz$ 519,60 por dólar).

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50 cruzados novos (17 mar 1989) – dois meses e dois dias. Poder de compra estimado em R$ 430. Pagava 294 passagens, a NCz$ 0,17 cada, e sobrava NCz$ 0,02. Comprava então US$ 50,00 (NCz$ 1,00 por dólar).

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100 cruzados novos (19 maio 1989) – cinco meses e onze dias. Poder de compra estimado em R$ 780. Pagava 588 passagens, a NCz$ 0,17 cada, e sobrava NCz$ 0,04. Comprava então US$ 110 (NCz$ 1,10 por dólar).

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200 cruzados novos (08 nov 1989) – três meses. Poder de compra estimado em R$ 300. Pagava 181 passagens, a NCz$ 1,10 cada, e sobravam NCz$ 0,90. Comprava então US$ 33,06 (NCz$ 6,05 por dólar).

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500 cruzados novos (08 fev 1990) – dois meses e um dia. Poder de compra estimado em R$ 220. Pagava 142 passagens, a NCz$ 3,50 cada, e sobravam NCz$ 3. Comprava então US$ 20,53 (NCz$ 24,35 por dólar).

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5 mil cruzeiros (09 abr 1990) – um ano e quinze dias. Poder aquisitivo estimado em R$ 670. Pagava 333 passagens, a Cr$ 15 cada, e sobravam Cr$ 5. Comprava então US$ 40,67 (NCz$ 106,72 por dólar).

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10 mil cruzeiros (26 abr 1991) – sete meses e onze dias. R$ 260 em poder aquisitivo. Pagava exatamente cem passagens, a Cr$ 100 cada. Comprava então US$ 39,78 (Cr$ 251,37 por dólar).

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50 mil cruzeiros (09 dez 1991) – sete meses e treze dias. R$ 450 em poder de compra. Pagava exatamente 200 passagens, a Cr$ 250 cada. Comprava então US$ 52,86 (Cr$ 945,85 por dólar).

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100 mil cruzeiros (24 jul 1992) – seis meses e cinco dias. Cerca de R$ 210 em poder de compra. Pagava 66 passagens, a Cr$ 1.500 cada, e sobravam Cr$ 1.000. Comprava então US$ 26,39 (Cr$ 3.790 por dólar).

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500 mil cruzeiros (29 jan 1993) – oito meses e 28 dias. Algo por volta de R$ 280 em poder aquisitivo. Pagava exatamente 125 passagens, a Cr$ 4.000 cada. Comprava então US$ 35,51 (Cr$ 14.081 por dólar).

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Mil cruzeiros reais (01 out 1993) – 28 dias. Poder aquisitivo na data de lançamento de R$ 50. Pagava 16 passagens, a CR$ 60 cada, e sobravam CR$ 40. Comprava então US$ 6,70 (CR$ 149,26 por dólar).

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5 mil cruzeiros reais (29 out 1993) – cinco meses e um dia. Cerca de R$ 270 em poder de compra. Pagava 62 passagens, a CR$ 80 cada, e sobravam CR$ 40. Comprava então US$ 35,51 (CR$ 149,23 por dólar).

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50 mil cruzeiros reais (30 mar 1994) – três meses e um dia. Poder aquisitivo equivalente a R$ 380. Pagava 333 passagens, a CR$ 150 cada, e sobravam CR$ 50. Comprava então US$ 66,18 (CR$ 755,52 por dólar).

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100 reais (01 jul 1994) – 23 anos e um mês (até 01 ago 2017). Poder aquisitivo na época equivalente a R$ 700 em junho de 2017. Pagava 200 passagens, a R$ 0,50 cada. Hoje (out. 2017) paga 26 passagens, a R$ 3,80, e sobra R$ 1,20. Comprava então US$ 108,11 (R$ 0,925 por dólar). Compra hoje (out. 2017) US$ 31,54 (a R$ 3,17 por dólar).

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Tarifas de ônibus de São Paulo/SP.
Média mensal do dólar (desde 1970).

As estrelas da série do cruzado novo/terceiro cruzeiro

Tratamos já das moedas do cruzado novo/terceiro cruzeiro em outra ocasião, mas as moedas brasileiras sempre têm alguma surpresa.

No caso dessa série específica, o detalhe tem relação ao significado das estrelas no reverso. E notório que a disposição e o número delas e cada anverso não obedecem à forma como se encontram na bandeira nacional, com exceção da estrela α-Spica, que representa o Pará e fica acima da faixa; segundo Vergara (2002, p. 231 e ss.), as estrelas representam o valor em braile.

Para quem não conhece o sistema Braille, trata-se da escrita tátil direcionada aos deficientes visuais, em que cada caractere — letra ou número — é representado dentro de uma grade de pontos com três linhas e duas colunas, chamada de célula.

Braille Alphabet Sheet for Crayon

Para as moedas de centavos, colocadas em circulação a partir de 28 de abril de 1989, vêm simplesmente o sinal que representa o número; o mesmo vale para as peças precursoras, da série, as três moedas de 100 cruzados comemorativas do centenário da abolição da escravidão (1988).

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Reverso comum das três peças comemorativas do centenário da abolição da escravidão (1988); no centro, á direita, os três sinais compostos de uma, três e três estrelas, representando os números 1, 0 e 0, que formam 100, o valor da peça. Repare a ausência do prefixo numérico.

As peças incluídas já no padrão novo, o cruzeiro, lançadas em 31 de maio de 1990, com exceção da de 1 cruzeiro, trazem, além dos símbolos numéricos, o chamado prefixo numérico, que indica para o deficiente visual que a sequência tátil que se segue representa número. Característica que segue inclusive a polêmica moeda “Cruz de Cristo”, a de 1 cruzado novo que não chegou a ser emitida.

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Anverso da peça de 1 cruzado novo (“Cruz de Cristo”), que não chegou a ser lançada, mas que tem a mesma configuração das peças futuras de 5, 10 e 50 cruzeiros. Além o sinal do número em si, há, à esquerda deste, o prefixo numérico (o L invertido).

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