Variante da moeda de 50 centavos de real de 2009 (BC R-512 / KM#651a)

Todas as emissões de moedas têm suas irregularidades involuntárias, ou seja, um problema no cunho ou em algum outro equipamento relacionado à cunhagem que gera um defeito na peça emitida, tornando-a única, seguindo a classificação explanada por Suzuki, 2004, ou com pouquíssimos exemplares. Moedas que têm ligeiras alterações nos seus detalhes, mas que não constituem uma anomalia, são caracterizadas como variantes:

As VARIANTES são moedas que, sendo do mesmo tipo, foram produzidas por um cunho, anverso ou reverso, ou por um par de cunhos diferentes, e apresentam uma ou mais alterações das características gerais definidas para a moeda, sendo encontradas dezenas ou centenas delas. (SUZUKI, 2004: 14)

Explicitadas as definições com base nelas, o intuito deste artigo é assinalar a existência de uma variante da moeda de 50 centavos de real (KM #651a) emitida em 2009 (BC R-512)[1]. Como se sabe, esta peça era originalmente de cuproníquel — entre 1998 e 2001 — e, a partir de 2002, passou a ser de aço inox, como eram todas as moedas destinadas à circulação comum entre 1979 e 1998.

A moeda de 50 centavos recupera o bordo inscrito (ORDEM E PROGRESSO e BRASIL separados por duas estrelas); a última peça de circulação comum a ter esse acabamento foi a moeda de 1 cruzeiro comemorativa do Sesquicentenário da Independência, de 1972 (KM #582, BC Cr70-30). Tal processo de gravação no bordo é chamado de orlagem, assim como a máquina que o produz é chamada de máquina de orlagem.

Foi um problema na orlagem que torna as moedas de 50 centavos de 2009 ligeiramente diferente das de anos posteriores e anteriores.

Tomou-se um corpus inicial de 52 peças — 4 de 2002, 2 de 2003, 6 de 2005, 3 de 2006, 4 de 2007, 2 de 2008, 22 de 2009, 3 de 2010, 1 de 2011 e 1 de 2012 e 3 de 2013 — coletadas na cidade de Araraquara/SP e na Capital paulista. Comparadas a olho nu com peças de outros anos, duas das quatro peças de 2009 tem a inscrição do bordo com caracteres nitidamente maiores. Efetuada a medição individual de todas as peças com paquímetro, tomando por base a altura do caractere E, as peças apresentam 1,4 mm de altura, exceto 11 moedas de 2009, que apresentam 1,72 mm, a diferença na altura é de 0,32 mm, ou seja, os dois exemplares de 2009 têm a altura dos caracteres da inscrição do bordo 22,8% maior (vide figura 1)

bordo

A moeda da parte superior é de 2009 segue o tipo de bordo tanto das moedas anteriores quanto das posteriores; a debaixo é a variante de 2009. Observe que os caracteres são visivelmente maiores

Apesar de tudo, parece que tal modificação não atinge todas as moedas daquele ano, mas somente parte delas. A explicação pode estar fora da Casa da Moeda (CMB).

É sabido que a CMB apenas cunha as moedas, terceirizando a produção dos discos para outras empresas[2]. Consultando os contratos disponíveis da CMB no site da instituição, verifica-se que, pelo menos desde 2005, há duas empresas que produzem os discos: a Três S Ferramentas de Precisão Ltda. e a EBF Vaz Indústria e Comércio Ltda., ambas do Estado de São Paulo.

A Três S tem uma história curiosa, pois é controlada pela Permetal S.A. — empresa que foi fornecedora de discos para a CMB de 1966 até 1994 quando, por não cumprir com um contrato foi suspensa, conforme mostra auditoria do Tribunal de Contas da União[3].

 A Três S teve e tem com a CMB, desde 2007, 15 contratos para fornecimento dos discos metálicos, tanto dos de aço inoxidável — miolo da moeda de 1 real e moeda de 50 centavos — quanto os de aço-carbono eletrorrevestidos — 5, 10 e 25 atualmente.

Os contratos da CMB disponíveis no site cobrem de 2005 até o presente e o primeiro contrato da EBF é o 3381/2008, cujo assunto é “aquisição de discos de aço inoxidável e discos de aço de baixo teor de carbono”. O contrato entrou em vigência em 24/6/2009 até 2010, conforme publicado no DOU de 22/7/2009[4].

Como naquela data é presumível que os discos viessem já com o serviço de orlagem feito do fornecedor — digo isso porque outro contrato, o 1313/2011 informa que a CMB comprou uma máquina de orlagem da própria EBF — supõe-se que as moedas de 50 centavos cunhadas no 2º semestre de 2009 (e talvez algumas do começo de 2010) em discos fornecidos pela EBF tenham o bordo ligeiramente diferente, com as letras um pouco maiores, o que justifica a existência de dois tipos de bordo para a BC R-512.

Referências

SUZUKI, Celso. Anomalias e variantes. In: Boletim Informativo da Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina, nº 51, pp. 14-17. Florianópolis, agosto de 2004


[1] Aqui estamos usando tanto as codificações do Krause Standard Catalog of World Coins 1901-2000, 39ª, como as usadas pelo Banco Central, disponíveis em <http://www.bcb.gov.br/?MOREAL94&gt;, acessado em 24/5/2013. No caso em estudo, a codificação do BC nos parece mesmo mais conveniente por ter um número específico para cada ano de emissão, ao contrário do Catálogo Krause, que tem um número por peça.

[2] Consultado em <http://www.casadamoeda.gov.br/acessoinformacao/contratos.html>, acessado em 22/5/2013; a base de contratos infelizmente só tem aqueles feitos de 2005 em diante.

[3] Disponível em <http://bit.ly/16QCv1J&gt;, acessado em 22/5/2013.

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As mudanças que ninguém viu 2 – Boletim da SNP

Com relação à postagem As mudanças que ninguém viu, cabe fazer um adendo. O Boletim nº 20 (ago/2003) da Sociedade Numismática do Paraná (SNP) traz um artigo de Rogério Bertapeli sobre as alterações no cunho do reverso das moedas de real. As cópias foram fornecidas pelo confrade Edgar Serrato. Além de outro detalhe que nos passou despercebido: o aumento no tamanho da data.

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As poucas moedas comemorativas brasileiras

É notória a prodigalidade com que certos países emitem moedas comemorativas. Os EUA, por exemplo, têm a famosa série de quartos dos Estados, com 56 peças, os dólares presidenciais, os quartos dos parques nacionais, apenas para ficarmos nos últimos 20 anos. O México também: peças celebrando os estados, o bicentenário da independência. A Índia emite peças bimetálicas de 10 rúpias comemorativas entre duas e três por ano. Mesmo a Argentina, mais modesta, tem uma quantidade interessante de moedas comemorativas de circulação.

E nós? Bem São poucas peças. Vamos ficar no período do real. Temos os 10 e 25 centavos comemorativos da FAO, de 1995, o real bimetálico do cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1998), o real do centenário de Juscelino Kubitschek (2002), o real dos 40 anos do Banco Central (2005) e, mais recentemente, a moeda alusiva à transferência da bandeira olímpica (2012). Ou seja, seis moedas para um período de quase 20 anos.

Lógico que não entramos aqui nas moedas de prata e ouro, cunhadas para um público de colecionadores muito específico. Por que essa baixa quantidade? Será que não temos fatos e lugares a serem celebrados? Os 25 anos da Constituição de 1988 (2013) passaram em brancas nuvens. Uma série de moedas de um real mostrando nosso patrimônio arquitetônico não seria má ideia. Ou mesmo copiar a ideia dos quatros de dólar americanos e fazer uma série de reais celebrando os estados brasileiros, por que não?

Ideias não faltam. Falta que Banco Central e Casa da Moeda entrem num acordo para brindar a nós, colecionadores, e a população em geral com novas e belas moedas.

As mudanças que ninguém viu

Temos a mesma série de moedas circulando desde 1998, certo? Aparentemente, sim. A última grande mudança foi em 2002, quando houve troca de metais nas moedas de 50 centavos — que era feita de cuproníquel, trocado pelo aço inoxidável — e 1 real — a alpaca e o cuproníquel, do anel e do miolo, respectivamente trocados por aço inoxidável revestido de latão e aço inoxidável.

A mudança dos metais teve uma campanha para mostrar à população que as novas moedas nada tinham de errado; continuavam valendo o mesmo que antes.

Porém, outra alteração, ocorrida a partir de 2004, foi efetuada sem nenhum aviso e sem que ninguém percebesse. Pelo menos até agora.

Nas fotos abaixo, temos duas moedas de 25 centavos, uma de 2001 e outra de 2009.

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Aparentemente iguais. Agora, na foto abaixo, o detalhe do Cruzeiro do Sul, que fica no quadrante superior direito.

estrelas

À esquerda, a moeda de 2001; à direita, a de 2009. Não se iluda. A estrela inferior que fica sobre a faixa da bandeira está lá, mas bem fraca. O detalhe não é esse. Observe o formato das estrelas. Nas versões de 2002 e anteriores, elas eram mais “encorpadas”, nas moedas batidas a partir de 2003, as estrelas são mais delgadas e pontudas.

Agora, mais um detalhe. Observe as fotos abaixo.

centavosEmbora esteja fora de escala, é visível que a inscrição “centavos” foi ampliada. Basta ver a posição da letra “t”. Em 2001, ela está praticamente para dentro da última linha dos detalhes; na de 2009, apenas metade dela está.

Para as moedas de 25 centavos, a inscrição passou de 13,85 mm de largura por 2 mm de altura para 14,8 mm de largura por 2,25 mm de altura.

E nota: todas as moedas da série passaram por essa alteração em 2003. Apenas a inscrição “real”, da moeda de 1 real, não sofreu alterações. Em todas as estrelas foram remodeladas.

Além dessas alterações, as moedas de 50 centavos tiveram, na mesma época, uma alteração no anverso. Observe a figura (clique para ampliar).

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Observe que há um detalhe de linhas que passa por trás do busto do Barão do Rio Branco. Na parte de baixo do busto, onde o detalhe reaparece, nas moedas anteriores a 2003 (à direita), apenas cinco linhas aparecem, enquanto que nas moedas após 2005 — em 2004 não foram emitidas moedas de 50 centavos —, há seis linhas, como pode ser observado na moeda da esquerda.