As novas moedas do kwanza

Angola sofreu anos com a desvalorização da moeda nacional, o kwanza. Temos o primeiro Kwanza (1975-1990), dividido em 100 lwei, o novo Kwanza (1990-1995), que, apesar da paridade mantida com o padrão anterior, somente 5% do meio circulante poderia ser trocado pelo novo, o kwanza reajustado (1995-1999), que equivalia a mil novos kwanza, e, finalmente o segundo kwanza, que equivalia a um milhão de kwanzas reajustados.

Apesar de ter sofrido alguma inflação no início, hoje a moeda encontra-se estabilizada.

Em 2012, o Banco Nacional de Angola emitiu uma nova série de moedas, nos valores de 50 cêntimos, 1, 5 e 10 kwanzas, sendo as duas últimas bimetálicas.

Nova série de moedas do kwanza
Nova série de moedas do kwanza; na figura, da esq. para a dir.: reverso, bordo e anverso

Para completar a família, foi emitida no final de 2014 uma moeda de 20 kwanzas bimetálica com o motivo dos 351 anos da morte da Rainha Nginga Mbande, benemérita da nação angolana. A emissão também faz parte das comemorações dos 40 anos da independência de Angola.

Moeda bimetálica de 20 kwanzas (fonte: coinweek.com)
Moeda bimetálica de 20 kwanzas (fonte: coinweek.com)
Anúncios

Área Esterlina

A Área Esterlina (Sterling Area) foi um conjunto extraoficial de países que tinham suas moedas indexadas à libra esterlina ou usavam simplesmente variações da libra britânica. Quando o governo britânico abandonou o padrão-ouro, a área surgiu informalmente como um conjunto de países que tinham suas divisas indexadas à libra e não ao ouro, ligação que, antes, era lastreada pela libra.

O bloco incluiu diacronicamente o Império Britânico, nações do Commonwealth e também países que aderiram aos mecanismos de conversão, como Islândia, Jordânia e Líbia.

O principal atrativo do bloco era a unidade monetária e o livre fluxo de capitais. Também as moedas metálicas entraram no sistema. Austrália e África do Sul mantiveram suas libras com os mesmos padrões da esterlina até que a Grã-Bretanha abandonasse a cunhagem em prata (1946) e a trocasse pelo cuproníquel para as moedas de 6d (seis pence), 1s (um xelim), 2s (dois xelins/um florim) e 2s6s (meia coroa, ou seja, dois xelins e seis pence) — apenas lembrando que a libra, até 1971, tinha submúltiplos não decimais: uma libra = 20 xelins (s); um xelim = 12 pence (d); além das moedas com denominação tradicional, como o florim (2s), a meia coroa (2s6d) e a coroa (5s).

Como nunca existiu oficialmente, há uma grande flutuação na presença ou não dos países na Área Esterlina. A Nova Zelândia, por exemplo, deixou a área quando, em 1933, desvinculou a sua libra da esterlina. A Austrália, embora sua libra tenha flutuado em relação à esterlina, permaneceu tecnicamente no espaço até a criação do dólar australiano (1966), à taxa de 2 dólares para uma libra. Quando a África do Sul deixou o Commonwealth e proclamou a república (1961), abandonou a libra e adotou o rand como moeda nacional, na taxa de 2 rand para uma libra.

Conforme o Império Britânico foi se desfazendo, moedas nacionais foram sendo criadas em substituição às libras locais. A partir de 1972, considera-se a Área Esterlina desfeita.

O mais curioso é que, entre as principais libras, as moedas tinham as mesmas dimensões, embora, posteriormente, os metais tenham variado e a Grã-Bretanha tenha adotado uma moeda de três pence de alpaca (1937), que circulou paralelamente à diminuta moeda de prata de mesmo valor até 1945.

austrshi
Um xelim australiano (1953)
Um xelim britânico
Um xelim britânico
Um xelim sul-africano (1933)
Um xelim sul-africano (1933)

Numismática fantástica – a moeda do Manuscrito 512

Existe, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, uma curiosa carta, o chamado Manuscrito 512, relativamente breve e de autoria desconhecida, datada de 1753. A carta narra uma expedição bandeirante em busca das afamadas minas de metais preciosos — que haviam sido descobertas por um homem de alcunha Moribeca — e descreve a descoberta de uma cidade fantástica nas brenhas do trecho baiano da Mata Atlântica.

Dentre as descrições mirabolantes e curiosas da cidade de pedra ruinosa e abandonada com jeitão de civilização perdida, chama atenção a descrição de uma moeda de ouro.

Hum nosso companheiro chamado João Antonio achou em as ruinas de huma caza hum dinheiro de ouro, figura esferica, maior que as nossas moedas de seis mil e quatrocentos: de huma parte com a imagem, ou figura de hum moço posto de joelhos, e da outra parte hum arco, huma coroa e huma setta, de cujo genero não duvidarmos se ache muito na dita povoação, ou cidade dissolada, por que se foi subversão por algum terremoto, não daria tempo o repente a por em recato o preciozo, mas he necessario hum braço muito forte, e poderozo para revolver aquele entulho calçado de tantos annos como mostra.

“Maior que as nossas moedas de 6$400.” As que circulavam nesse período tinham 30 mm e eram 14,34 g de ouro 22 quilates (916,6‰).

Maior que a famosa dobra de quatro escudos (6$400)
Maior que a famosa dobra de quatro escudos (6$400)

Muita gente procurou a cidade misteriosa, mas, obviamente, ninguém a encontrou. Muito certamente se trata de delírio ou de simples ficção, mas fica a descrição de uma peça numismática, o único objeto descrito pela carta.

* * *

O Manuscrito 512 escaneado.
Comentários sobre o Manuscrito e sua transcrição (por Marcelo Bighetti).
Página da Wiki a respeito.

Por que uma moeda de 2 reais?

Moeda de 2 reais composta ironicamente a partir da antiga moeda de 1 real de aço inox
Moeda de 2 reais composta ironicamente a partir da antiga moeda de 1 real de aço inox

Há vantagens em substituir as cédulas de 2 reais por uma moeda do mesmo valor?

O custo de médio de produção das cédulas de real é de R$ 204,75/milheiro, se bem que os valores variavam, em 2010, de R$ 175,30, para as cédulas de 2 reais, a R$ 247,51, para a de 100 reais (fonte).

O custo de confecção da nova série de cédulas é superior ao da antiga, mas a durabilidade das cédulas também é maior. Segundo pesquisa do BC, as cédulas de menor valor (2, 5, 10 e 20) duram por volta de 14 meses, enquanto as maiores (50 e 100) duram até 37 meses (fonte).

As moedas são mais caras, mas, em compensação, circulam entre dez e 15 anos.

Uma moeda de 1 real tem custo de fabricação estimado em R$ 0,29 (fonte). O custo estimado de uma cédula de dois reais é de R$ 0,175 (em valores de 2010).

Considerando que, para dez anos, o BC terá de emitir 8,57 cédulas de 2 reais para manter o meio circulante, o custo dessa operação é de R$ 1,50 no período. Se houvesse uma moeda de 2 reais, um pouco maior que a habitual e bimetálica, que custasse por volta de R$ 0,35, essa peça não precisaria ser substituída, o que representaria uma economia ao BC de R$ 1,15/unidade no período de um decênio. Parece pouco, mas, se considerarmos que em maio/2015 havia 554.474.256 cédulas e 2 reais em circulação, em dez anos, seria uma economia de algo em torno de R$ 637,65 milhões. Ou R$ 63,77 milhões por ano.

O grande obstáculo a essa troca é a rejeição que a população tem às moedas; os anos hiperinflacionários desacostumaram gerações de brasileiros ao trato com as peças metálicas. A informação é dedutível pela porcentagem que considera necessária a adoção de moeda de valor superior a 1 real.

Numismática invisível – parte III

Alto Carabaque (Nagorno-Karabakh) – dram do Alto Carabaque

O Alto Carabaque ou Nagorno-Karabakh é um país não reconhecido entre o Azerbaijão e a Armênia, no Cáucaso. Com o fim da União Soviética, as tensões étnicas cresceram na região, e o oblast autônomo do Alto Carabaque, ente territorial da República Socialista Soviética do Azerbaijão e de maioria armênia. A região está de facto desligada do resto do Azerbaijão desde 1988, desde a eclosão do movimento Karabakh, que advoga pela união da região à República da Armênia. A união entre os dois países chegou a ser objeto de um referendo no fim dos anos 80 e também foi sancionada pelo Soviete Supremo da então República Socialista Soviética da Armênia, mas a guerra entre o Alto Carabaque e o Azerbaijão e as posteriores tratativas de paz mantiveram a independência da região frente ao Azerbaijão e impossibilitaram a união da pequena república com a Armênia.

A localização do Alto Carabaque, em verde (fonte pt.wiki)
A localização do Alto Carabaque, em verde (fonte pt.wiki)

Na prática o meio circulante da República do Alto Carabaque é o dram armênio. Há moedas-suvenir cunhadas. Embora não se saiba com precisão qual casa da moeda bateu as peças — o Alto Carabaque não possui tais instalações —, suspeita-se que tenha seja a Mennica Polska, já que as moedas armênias são cunhadas por ela [1].

Última série de moedas emitida pelo Alto Carabaque. As prateadas são de alumínio; as douradas, de uma liga de cobre
Última série de moedas emitida pelo Alto Carabaque. As prateadas são de alumínio; as douradas, de uma liga de cobre

As emissões monetárias do Alto Carabaque resumem-se a um conjunto de moedas comemorativas e a duas séries de “circulação normal”, com valores entre 10 luma (o luma é a centésima parte do dram) e 5 drams. Como a moeda é pegada ao dram armênio, deduz-se que mesmo essas moedas “comuns” são destinadas a colecionadores, pois a taxa de câmbio no dia 22/6/2015 era de 473 drams armênios para um dólar, o que dá à moeda de 5 drams do Alto Carabaque o valor de compra de um centavo de dólar americano. As moedas de prata e ouro são cunhadas pela Lialoosin Inc., uma empresa privada da Califórnia.

Mesmo assim, as peças são batidas com baixas tiragens, o que as torna procuradas pelos colecionadores [2].

[1] http://www.ciscoins.net/cis/enmintsets.htm, consultado em 22/6/2015.

[2] “The mintages of Nagorno-Karabakh coins are low, and as a result, they are often sought after by coin collectors.” De http://currencies.wikia.com/wiki/Nagorno-Karabakh_dram, consultado em 22/6/2015.

O sorriso do velhinho

O título deste artigo faz menção à letra do jingle da campanha de Getúlio Vargas para as eleições de 1950, cantado por Francisco Alves. A vitória levaria Vargas mais uma vez ao Palácio do Catete, de onde, conforme posteriormente prometido, só sairia morto.

Mas o que vamos tratar tem relação com a Era Vargas (1930-1945), mais especificamente com o período chamado de Estado Novo (1937-1945).

No período republicano (de 1889 em diante), poucos governantes tiveram a audácia de pôr seus retratos nas moedas. Aliás, os primeiros vultos a serem retratados que não fosse a alegoria da República foram dom Pedro I e o presidente Epitácio Pessoa, na série comemorativa do Centenário da Independência ($500, 1$000 e 2$000, 1922). O próprio Epitácio Pessoa era o presidente no momento da emissão das peças, e seu retrato aparece eclipsando o do aclamador da Independência.

Além de Epitácio Pessoa, do presidente Eurico Dutra (1946-1951) e do presidente Emílio Médici (1969-1974), que apareceu em emissões comemorativas, o governante que mais teve seu rosto estampado em moedas enquanto governava foi Getúlio Vargas.

Seu retrato ornou a série criada para comemorar o 1º aniversário da Constituição de 1937, a Polaca, com quatro peças: $100, $200, $300 e $400. Emitidas em 1938, foram novamente batidas em 1940 e 1942, formando subséries da série Marajoara (1938-1942); o retrato é de autoria do gravador Leopoldo Alves de Campos.

Peça de 400 réis da série
Peça de 400 réis da série “Marajoara”, subsérie Estado Novo

Quando da reconversão da moeda em 1942, as novas peças centesimais ganharam um novo retrato do ditado. A moeda de 10 centavos manteve seu rosto até 1947, a de 20 e a de 50 centavos, até 1948. Esse retrato, de linhas mais finas e menos austero, embora baseado no anterior, é de Orlando Moutinho Maia.

Anverso da peça de 50 centavos
Anverso da peça de 50 centavos

Além disso, Vargas fez estampar seu rosto na cédula de 10 cruzeiros lançada em 1942, que, com outras estampas, chegou aos anos 60.

Cédula de 10 cruzeiros de 1943
Cédula de 10 cruzeiros emitida em 1943

O Estado Islâmico e a numismática

A imprensa britânica tem dado destaque à emissão de moeda pelo Estado Islâmico, milícia muçulmana radical que controla atualmente grandes áreas do Iraque e da Síria. O grupo propugna um retorno ao dinar de ouro, ou seja, à moeda com lastro, cujo valor é intrínseco, baseado no sistema monetário do Califado de Otomão (634 d.C.).

A notícia foi trazida pelos jornais The Guardian e The Telegraph, mas o conceito não é tão novo. Em 2007, o clérigo Imran Nazar Hosein, que se dedica aos estudos islâmicos desde 1985, escreveu um libelo, em 2007, chamado “O dinar de ouro e o dirrã de prata: o Islã e o futuro do dinheiro”, no qual explica as bases para a adoção de uma moeda islâmica. A obra pode ser lida aqui, em inglês.

Foto publicada por perfil relacionado ao EI no Twitter. Aparentemente, uma moeda de 5 dinares (?) de ouro
Foto publicada por perfil relacionado ao EI no Twitter. Aparentemente, uma moeda de 5 dinares (?) de ouro

Ainda segundo informações da imprensa internacional, estão previstas duas emissões de ouro, três de prata e duas de cobre, o que lembra muito o sistema vigente em boa parte do Ocidente até o começo do século XX.

Anverso e reverso das sete moedas do EI. Como se vê, a de 5 dinares da foro acima aparece nas duas figuras da última linha, à direita
Anverso e reverso das sete moedas do EI. Como se vê, a de 5 dinares da foro acima aparece nas duas figuras da última linha, à direita (foto de Coin World http://www.coinworld.com/insights/can-isis-issues-its-own-coins–.html)