Ouro nórdico

Se observarmos as moedas de 10, 20 e 50 cêntimos de euro, perceberemos que elas são douradas, mas, em comparação às peças brasileiras de 10 e 25 centavos, as europeias mostram um tom mais pálido.

Isso se deve ao fato de essas peças serem feitas de uma liga metálica conhecida por ouro nórdico — 89% cobre, 5% alumínio, 5% zinco e 1% estanho —, ao passo que as nossas moedas são revestidas de um tipo de bronze conhecido comercialmente por bronze fosforoso (88% cobre e 12% estanho).

À esq., 50 cêntimos de euro, de ouro nórdico; à dir., 25 centavos de real, de aço eletrorrevestido de bronze fosforoso
À esq., 50 cêntimos de euro, de ouro nórdico; à dir., 25 centavos de real, de aço eletrorrevestido de bronze fosforoso. É nítida a diferença na tonalidade de dourado entre as duas peças

O ouro nórdico leva esse nome por ter sido desenvolvido na Suécia, pela metalurgista Mariann Sundberg, da Companhia Outokumpu de Cobre, em Västerås. A liga foi usada em cunhagem pela primeira vez em 1991, na moeda de 10 coroas suecas.

10 KR 1992 (3)
Peça de 10 coroas suecas, a primeira moeda a ser feita com ouro nórdico (fonte: http://www.falcoin.se/media/Kronmynt/10%20KR%201992%20(3).jpg)

A Real Casa da Moeda da Suécia escolheu o ouro nórdico, pois ele cumpria todos os requisitos estipulados pela instituição [1]:

  • A aparência da moeda deveria ser dourada e resistente à corrosão, sem o desbotamento da cor com o tempo.
  • O material deveria ser dúctil, para facilitar o processo de cunhagem.
  • O material deveria ser durável e resistente para uso prolongado e manuseio contínuo.
  • E, igualmente importante, a Casa da Moeda estava particularmente preocupada com possíveis reações alérgicas causadas por alguns metais; logo, o novo material teria de ser antialérgico.

Além da Suécia e da Zona do Euro, há ou houve moedas de ouro nórdico nos seguintes países: Albânia, Estônia (pré-euro), Líbano, Líbia, Malásia e Polônia, segundo o Currency Wiki.

Sundberg, agora diretora da Associação Escandinava de Desenvolvimento do Cobre, responde algumas questões sobre o uso da liga nas moedas de euro[2] elaboradas pelo site britânico predecimal.com.

  1. O ouro nórdico é a nova liga para as moedas de 10, 20 e 50 cêntimos de euro. Ela foi criada especialmente para o euro?

O ouro nórdico é uma liga que combina cobre (89%) com pequenas quantidades de alumínio, zinco e estanho. Foi originalmente desenvolvida há mais de dez anos [a entrevista é de 2002] para a Casa da Moeda da Suécia e hoje é usada na moeda de 10 coroas.

  1. A Casa da Moeda da Suécia tinha expectativas específicas para essa liga?

Quando a Casa da Moeda procurava por um novo material para a moeda de 10 coroas, ela especificou alguns critérios de desempenho que qualquer material submetido para aprovação deveria ter [os critérios estão no artigo acima, fora da entrevista]. A liga final de ouro nórdico cumpriu todos os requerimentos e vem sendo usada na moeda de 10 coroas por mais de dez anos.

  1. Quais foram os maiores desafios durante o desenvolvimento da liga?

Um dos maiores desafios foi a cor do metal. O cobre é o único metal, além do ouro, com uma tonalidade que é diferente de cinza. Com a adição do cobre rubro-acastanhado, a cor de algo como uma moeda pode ser mudada consideravelmente alterada para obter-se um aspecto muito próximo do ouro, daí seu nome, ouro nórdico. O segundo desafio principal foi conseguir a resistência à corrosão das moedas. Testamos a reação do material contra outros, como suor das mãos, couro e vários tecidos usados em roupas. Escolhemos um número de combinações, e como mostrou-se o caso, a combinação mais resistente à corrosão foi o cobre ligado a alumínio, zinco e estanho.

  1. Por que a Casa da Moeda da Suécia preocupou-se com reações alérgicas?

A instituição preocupou-se porque pesquisas haviam mostrado que outros metais tradicionalmente usados nas moedas podem causar reações alérgicas em algumas pessoas que entrarem em contato com eles. Isso tornou nossas combinações mais cuidadosas, para conseguirmos que a combinação do cobre com outros metais reduzisse essa possibilidade. O ouro nórdico foi perfeito nesse quesito e a questão da reação alérgica caiu de baixa para nenhuma. Uma questão paralela de saúde a ser vista era a da higiene. O manuseio diário das moedas pode prover um caminho fácil para as bactérias espalharem-se de um indivíduo a outro. O cobre tem a característica única de ser um material naturalmente antibacteriano. Este aspecto higiênico do metal é bem conhecido e explica muitos dos outros usos do cobre, como maçanetas e puxadores em ambientes antissépticos como hospitais.

  1. Você pode contar-nos um pouco mais sobre os elementos de segurança das moedas?

Os elementos de segurança são, talvez, o mais complexo, porque esta nova moeda foi introduzida simultaneamente em uma área extensa. Obviamente, quando trabalhamos no ouro nórdico para a Casa da Moeda da Suécia, tínhamos esses objetivos em mente, mas várias dessas demandas foram de súbito postas.

Obviamente há partes do processo que não podemos revelar, mas há vários elementos no desenvolvimento uma peça para uso monetário. Por exemplo, máquinas de venda automática por toda a Europa têm de ter uma maneira de identificar as moedas, incluindo as cunhadas e emitidas por outros países, como verdadeiras. Isso requer que toda moeda tenha uma “assinatura eletrônica” única.

Adicionalmente, a condutividade elétrica das moedas é importante para identificá-las. De novo, é um aspecto em que o cobre é uma ótima escolha. Sua condutividade pode ser alterada em um espectro amplo pelas diferentes composições das ligas. O ouro nórdico possui justamente os níveis certos de condutividades para cumprir com os padrões de segurança.

  1. Quando você diz que a liga precisa ser maleável e durável ao mesmo tempo, não há aí uma contradição?

Não é uma contradição, é exatamente assim. A maleabilidade do cobre permite à casa da moeda usar processos muito mais eficientes na cunhagem das moedas. As ligas de cobre são moldadas em barras afinadas ou fitas espessas e então aplainadas até a espessura correta da moeda. Os discos são cortados da faixa terminada e então orlados e cunhados. Uma das melhores coisas sobre o cobre é que maleável a ponto de admitir relevos relativamente complexos, como pode se ver nas novas moedas de euro. Durante a cunhagem, as moedas são posteriormente endurecidas, com a resistência do cobre à corrosão, dando-lhes então uma vida longa.

  1. Quão importante foi no processo de seleção a questão da reutilização do cobre?

O cobre é totalmente reciclável, o que neste tempo de aumento da consciência ambiental torna-o cada vez mais a escolha perfeita para o meio circulante. É sabido que a fusão e a reutilização do cobre são praticadas desde a Idade do Bronze. Estima-se que mais de 80% de todo o cobre extraído até hoje continua em uso, e o valor do material, ao fim da sua vida útil, garante a reciclagem futura do cobre. Talvez esta seja outra razão por que achei tão interessante seu uso — imaginar a longa cadeia de moedas desde o Império Romano, as vikings, as francesas.

[1] Traduzido de http://web.archive.org/web/20120723022617/http://www.scda.com/copper/development-history.html

[2] Traduzido de http://www.predecimal.com/euroarticle.htm

Anúncios

2 comentários em “Ouro nórdico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s