O real que não foi

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O anverso da moeda de 10 centavos da série projetada por Lyara Apostolico

Em 1997, o Banco Central promoveu um concurso para definir as características estéticas da segunda família de moedas do real, que seria lançada em 1998. Embora as informações sejam fragmentadas, ou seja, não estão facilmente disponíveis, um dos projetos era o da designer Lyara Apostólico.

Aqui, informação sobre a série nas palavras da própria Lyara e imagens das outras peças da série.

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‘O BC e a nova moeda’, Helcio Emerich

Em 29/9/1997, à época do concurso para definir o design das novas moedas do real, a Folha de São Paulo publicou este fantástico texto do jornalista e publicitário Helcio Emerich.

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Com anúncio publicado nas principais revistas semanais, o Banco Central está lançando um concurso para escolha do desenho da nova moeda brasileira, que deverá estar em circulação no próximo ano.

Em estilo solene, o texto do comunicado ensina que: “O design da moeda deve respeitar o gosto e os hábitos do usuário”. Mais adiante, continuando a resvalar para o terreno do óbvio, o anúncio lembra que: “Em vários países também existe uma atenção especial com o design das moedas. Impossível não se maravilhar com a belíssima moeda da Holanda ou ignorar o Euro, a moeda da unificação européia”.

Cultura inútil à parte, a iniciativa do BC significa, no fundo, a admissão de um dos maiores fiascos impostos à população pelas autoridades monetárias do país a partir da implantação do Plano Real. O nosso dinheiro é um dos mais medíocres, despersonalizados e antifuncionais do planeta. Além do layout primário e da padronização barata das cédulas, algumas moedas não se distinguem das outras, nem pelo tipo de metal utilizado nem pela cor, peso e muito menos pelas efígies nelas cunhadas.

O publicitário Roberto Duailibi, que é um estudioso da numismática, escreveu há tempos na revista “Exame” um artigo definitivo sobre a indigência da nossa moeda. Como resposta, houve um pronunciamento de um diretor da Casa da Moeda que, entre outras bobagens, exaltava a “abnegação dos técnicos brasileiros” responsáveis pela invenção do novo dinheiro. É espantoso que só três anos após o lançamento do real o BC venha a reconhecer publicamente o amadorismo e a precipitação com que a nova moeda foi criada e colocada no mercado.

A confissão está em outro parágrafo do anúncio: “Hoje, gastam-se minutos preciosos para pagar e conferir o troco em filas de metrô, nas catracas dos ônibus, nas padarias”.

Durante todo esse tempo os tecnocratas da área financeira jamais devem ter presenciado, por exemplo, o desconforto das pessoas idosas e dos deficientes visuais ao tentar identificar os valores das infames moedinhas. O BC informa também que a última etapa do processo de mudança do real será uma pesquisa de opinião pública para escolher e aprovar o projeto vencedor entre os dois melhores e um terceiro desenvolvido pela Casa da Moeda (que não deveria ter nova chance depois do vexame que deu com a moeda atual).

Parece democrático, mas é outro equívoco. Moeda é assunto para designers, numismatas e especialistas em ergonomia. A população pode optar pelo pior projeto e seria melhor pré-testar o novo dinheiro simulando seu uso no dia-a-dia, pois ninguém paga contas com projetos.
De qualquer forma, uma coisa é certa: quem vai bancar a despesa de toda essa sesquipedal incompetência (como diria o culto ex-presidente Costa e Silva) é o contribuinte.

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Anverso de uma moeda da série de alumínio do primeiro cruzeiro (1956-1965)

Moedas sociais

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Cédula de 1 maracanã, moeda social da Aossociação dos Moradores da Área Verde de Pajuçara, Maracanaú/CE

Moeda social é um meio de realizar trocas em locais onde há escassez de meio circulante, como instrumento de desenvolvimento local. No Brasil, a prática tem se alastrado consideravelmente e não é ilegal quando observados alguns preceitos, como a convertibilidade garantida pela instituição emitente com a moeda oficial, emitida pelo Estado, e sua equivalência quantitativa à moeda oficial (R$ 1 = uma unidade da moeda social).

A ideia de moeda social tem por base a economia solidária, para o desenvolvimento local, com circulação restrita e descentralização econômica.

Aqui, um documento do Banco Central Brasileiro sobre o tema.

A moeda social geralmente é material, com preferência para as cédulas, pois estas são de confecção mais simples. Logo, a questão que nos pomos é se as cédulas das moedas sociais são objetos colecionáveis com as cédulas dos estados ou se formam um ramo novo do colecionismo.

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Cédula de 50 centavos de gostoso, de São Miguel do Gostoso/RN

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Moedas cerâmicas de muiraquitã, do Pará

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Cédula de 10 vidas, moeda social do Jardim Gonzaga, São Carlos/SP

Aloísio Magalhães

No Brasil, mal se sabe o nome dos artistas responsáveis pelas obras de arte que estão nos nossos bolsos. Cada cédula e moeda é fruto da concepção artística de uma pessoa ou de uma equipe. Nessa vereda, possivelmente não há nome mais expressivo que o do pernambucano Aloísio Magalhães.

Abaixo, uma pequena biografia retirada do site Escritório de Arte:

Pintor, designer, gravador, cenógrafo, figurinista. Aloísio Barbosa Magalhães forma-se em direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 1950. Nessa época, participa do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), onde exerce as funções de cenógrafo e figurinista, além de ser responsável pelo teatro de bonecos. Com bolsa do governo francês, estuda museologia em Paris, entre 1951 e 1953, também frequenta o Atelier 17, um centro de divulgação de técnicas de gravura, onde é aluno do gravador Stanley William Hayter (1901-1988). Volta ao Brasil em 1953. Em 1956, com bolsa concedida pelo governo americano, viaja aos Estados Unidos, onde se dedica às artes gráficas e à programação visual. Publica, com Eugene Feldman, os livros Doorway to Portuguese e Doorway to Brasília, e leciona na Philadelphia Museum School of Art. Em 1960, volta ao Brasil e abre um escritório voltado à comunicação visual, campo no qual é um dos pioneiros no país, e realiza projetos para empresas e órgãos públicos. Em 1963, colabora na criação da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), onde leciona comunicação visual. Cria, em 1964, o símbolo do 4º Centenário do Rio de Janeiro, seu primeiro trabalho de grande repercussão pública e, no ano seguinte, desenha o símbolo para a Fundação Bienal de São Paulo. Desde 1966, desenvolve desenhos para notas e moedas brasileiras. Em 1979, é nomeado diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, no ano seguinte, presidente da Fundação Nacional Pró-Memória, quando inicia campanha pela preservação do patrimônio histórico brasileiro. Em sua homenagem, a Galeria Metropolitana de Arte do Recife passa a denominar-se Galeria Metropolitana de Arte Aloísio Magalhães, em 1982. Em 1997, o nome da instituição é alterado para Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam).

Magalhães foi responsável pelo projeto da primeira série de cédulas genuinamente brasileira, a do segundo cruzeiro (1970-1986). Ainda do Escritório de Arte:

A inovação de Aloísio para o Cruzeiro Novo se deu não só semanticamente, mas talvez acima de tudo, funcionalmente. A história é muito bem contada no livro “A Herança do Olhar”, organizado por João de Souza Leite. Resumindo, Aloísio fez uso de um efeito chamado moiré, que trata-se do desalinhamento reticular, para, assim, gerar um efeito óptico de difícil reprodução. Com tal cartada, Aloísio vence o concurso e ainda inova numa área praticamente milenar, que é a da produção de papel moeda.

Para percebermos a inovação estética de Magalhães, basta comparar sua série com a precedente, do velho cruzeiro, uma emulação do dólar.

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1 cruzeiro (1970)

A obra de Magalhães viria a ficar ainda mais refinada com a cédula de 500 cruzeiros que celebra os 150 anos da independência.

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500 cruzeiros (1972)

Mas sua apoteose se deu, de fato, com a cédula de 1.000 cruzeiros, lançada de 1977, e que serviu de base para a segunda família do segundo cruzeiro. Uma cédula tão emblemática, que o título de seu retratado até hoje designa quantidade de dinheiro. Trata-se da cédula do Barão. Do Escritório de Arte:

[Magalhães] Participou de segundo redesenho, quando dessa vez inova funcionalmente no uso do dinheiro: percebendo o grande empecilho que é o dinheiro possuir lado de cima e debaixo, dificultando muitas vezes o reconhecimento do valor ou sua ordenação, fez com que as notas possuíssem o mesmo espelhamento que caracteriza outros de seus projetos anteriores: a partir desse momento, o papel deixa de ter lado superior ou inferior, mantendo-se o mesmo não importando a maneira como o coloca na carteira ou junto dos demais.

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1.000 cruzeiros (1977), desenhada com João de Souza Leite e Washington Dias Lessa

O que chama a atenção é o espelhamento das imagens, à semelhança das figuras presentes no baralho francês. Algo até então inédito no Brasil.

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A figura espelhada em um rei de copas

Magalhães usou a técnica do cartema, com a qual ele vinha já trabalhando ao longo de sua carreira.

O termo “cartema” é um neologismo criado pelo filólogo Antônio Houaiss para designar este trabalho, que consistia em uma composição visual construída a partir de várias cópias de determinada imagem, tendo como suporte a técnica da colagem.

JARDIM FILHO, Airton Jordani. (Re) construindo os efeitos de sentido da nota de mil cruzeiros: a cédula do Barão também se lê. In Palíndromo, nº 10. UDESC: Florianópolis, 2013.

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Um cartema de Magalhães

Um trabalho muito interessante sobre o design da cédula do Barão foi feito por Airton Jordani Jardim Filho. “(Re) construindo os efeitos de sentido da nota de mil cruzeiros: a cédula do Barão também se lê” está disponível aqui.

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Reportagem da Época sobre exposição da obra de Magalhães (2014).

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Atualização (16/12/2015, às 21h41, hora de Brasília) – O confrade Fagner Máximo Silveira nos passou um artigo da Associação Amigos do Museu de Valores do Banco Central, intitulado “Cédula de um cruzeiro – iconografia”. Nele, documentos interessantíssimos, como estudo e prova de cores da cédula de um cruzeiro (1970).

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Acima: estudo de fundo de segurança (ca. 1968); abaixo: anverso, estudo de fundo de segurança (caneta hidrocor, caneta esferográfica e lápis, ca. 1968). Fonte: Blogue da Associação Amigos do Museu de Valores do Banco Central

Estética nas moedas brasileiras – épocas diferentes, estilos similares

O Brasil teve tantas moedas na última metade do século XX, que é impossível a originalidade estética absoluta. Algumas ideias e conceitos acabaram sendo ‘reciclados’ e sobrevivendo, mesmo com a desvalorização da divisa.

Exemplo interessante é a atual série do real, cujo reverso das peças, além de trazerem o valor e o ano, exibem uma estilização da esfera presente no pavilhão nacional.

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10 centavos (1998-até o momento)

É muito similar à estética usada na série de moedas do terceiro cruzeiro (1990-1993), criada originalmente para o cruzado novo (1989-1990).

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10 cruzeiros (1990-1992)

A ideia da esfera central da bandeira e as estrelas está presente nas duas. Os elementos das moedas de real têm mais ‘plasticidade’. A esfera, com uma faixa esvoaçante, ocupa a posição central no campo, enquanto os elementos da série dos anos 90 são um pouco mais ‘chapados’ e deslocados à direita. Mas não deixa de ser curiosa a similaridade, inclusive na posição do valor numérico e da denominação da moeda.

Iconografia das cédulas brasileiras (I)

Começamos, com este artigo, uma série sobre a iconografia das cédulas brasileiras a partir da era do Cruzeiro (1942). Hoje trazemos a presença da Princesa Isabel no nosso papel moeda. A Princesa Imperial apareceu nas nossas cédulas em duas ocasiões: na primeira e segunda estampas da cédula de Cr$ 50 do 1º cruzeiro (1942-1967) e em uma cédula de Cr$ 200 da segunda série do segundo cruzeiro (1981-1986).

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Cédula de Cr$ 50 do primeiro cruzeiro (1ª estampa)

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Cédula de Cr$ 200 da segunda família do 2º cruzeiro

É perceptível a mudança estética das duas cédulas e também das imagens utilizadas no verso das peças. Na primeira, uma alegoria feminina com uma tábua representando a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil, algo, ao meu ver, de inspiração bíblica (como as tábuas dos Dez Mandamentos); na segunda, mulheres negras trabalhando, com o conceito estético das imagens espelhadas, que guiou aquela série.

Novidades da Argentina

Com a desvalorização do peso argentino, a cédula mais alta em circulação é a de 100 pesos, em três estampas (a primeira com o busto do político Julio Argentino Roca, a segunda com Eva Perón e uma celebrando as Mães da Praça de Maio), com valor aproximado de US$ 7.

O governo recém-empossado, atendendo a um anseio da população e do setor bancário argentino, prometeu emitir denominações de maior valor, provavelmente no valores de 200, 500 e 1.ooo pesos.

É possível que as novas cédulas entrem em circulação ainda em janeiro de 2016.

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Cédula de 100 pesos argentino da 2ª família

Mais infomações: http://www.lanacion.com.ar/1849835-el-nuevo-equipo-analiza-emitir-billetes-de-200-500-y-1000-pesos