Bustos de personagens históricas nas moedas brasileiras

Após a queda da monarquia, as moedas brasileiras deixaram de trazer o busto os governantes; em seu lugar passaram a ostentar efígies (República e Liberdade) ou o brasão da neonata república. O retorno de rostos humanos nomeados deu-se com a série de três moedas ($500, 1$ e 2$) que comemoraram o centenário da Independência (1922) e traziam, em segundo plano, o rosto de dom Pedro I e, logo à frente, o do então presidente, Epitácio Pessoa. Desde a queda da monarquia era a primeira vez que o busto de um governante em exercício do poder era representado em uma moeda. (mais detalhes dessas peças aqui)

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Anverso das três peças do centenário da Independência (1922), com os bustos de Pedro I e Epitácio Pessoa

As representações tiveram continuidade com a série vicentina (1932), que comemora o quarto centenário do início da colonização do Brasil e traz personagens relacionadas ao acontecimento relembrado. A peça de $100 trazia o cacique Tibiriçá (?-1562), a de $500, João Ramalho (1493-1580), a de 1$, Martim Afonso de Souza (nobre e militar português, primeiro donatário da Capitania de São Vicente, 1490/1500-1564, representado dos joelhos para cima) e a de 2$, dom João III (rei de Portugal, 1502-1557). Outra novidade estética são os bustos três quartos e não em perfil, como fora regra até então, seja para os monarcas, para as alegorias da República e da Liberdade ou os bustos usados para o centenário da Independência.

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Anverso da peça de 100$ da série vicentina (1932), mostrando o busto do cacique Tibiriçá

Embora fossem representações diferentes das até então existentes, pois eram bustos mais completos, representando também ombros e parte do tórax, as imagens marcam o retorno de personagens reais às moedas brasileiras. A ideia, pelo jeito, agradou, pois, em 1935 (Decreto nº 24.257, de 16 de maio de 1934), deu-se a reformulação do cunho metálico com a introdução da série que ficou conhecida como a 1ª série de Brasileiros Ilustres, trazendo o Regente Feijó (político e religioso, regente do Império, 1784-1843, $500, busto três quartos), o Padre Anchieta (religioso e catequista da Companhia de Jesus, 1534-1597, 1$, perfil) e o Duque de Caxias (militar brasileiro com destacada participação na Guerra do Paraguai, 1803-1880, 2$, perfil).

A fins de 1935, a série é completada, com as peças de $100 (Almirante Tamandaré, militar e patrono da Marinha, 1807-1897, busto frontal, mais novidade), $200 (Barão de Mauá, empreendedor, 1813-1889, quase frontal), $300 (Carlos Gomes, compositor, 1836-1893, três quartos), $400 (Osvaldo Cruz, médico sanitarista, 1872-1917, três quartos) e 5$ (Alberto Santos Dumont, inventor, 1873-1932, perfil).

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A dita segunda emissão da série de Brasileiros Ilustres (1936)

A série Vargas (1938), comemorativa do primeiro aniversário do Estado Novo, reintroduziu o busto do governante da vez, Getúlio Vargas, em moedas não comemorativas, fato que não ocorria desde a queda da monarquia (peças de $100, $200, $300 e $400, todas com busto perfil, marcadamente de inspiração romana) e uma nova série de “centenários” para as peças de $500 (Machado de Assis, escritor, 1839-1908, três quartos), 1$ (Tobias Barreto, jurista, 1839-1889, três quartos) e 2$ (Floriano Peixoto, militar, político e o 2º presidente da República, 1839-1895, perfil). Nesta última moeda, é nítido que o gravador Orlando Moutinho Maia baseou-se em retrato do Marechal Floriano feito em 1881, pelo célebre fotógrafo teuto-brasileiro Alberto Henschel (1827-1882).

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Anverso comum das peças de $100, $200, $300 e $400 da série Vargas (1938-1942). Gravação de autoria de Orlando Maia

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Anverso da peça de 2$ da série Centenários (1939), representando o presidente Floriano Peixoto

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Fotografia de Alberto Henschel tirada em 1881 e que foi a base para o busto gravado por Orlando Maia. Observe os detalhes como a gravata e as dragonas. Maia apenas ajeitou a posição da cabeça, deixando o busto mais simétrico

A primeira série dos centavos do primeiro cruzeiro (1942-1946) traziam as três (10, 20 e 50 centavos) o busto perfil de Getúlio Vargas, nova obra do já citado Orlando Maia, com linhas mais atenuadas. A partir de 1947-1948, com a queda de Vargas, o busto do ditador foi substituído por José Bonifácio (na moeda de 10 centavos), Rui Barbosa (20 centavos) e Eurico Gaspar Dutra (50 centavos), todos perfil. Este último foi presidente de 1946 a 1951, tendo sido, portanto, o último governante vivo a ter seu rosto estampado em uma moeda brasileira comum. Mesmo com a volta de Vargas ao poder (1951-1954), a moeda de 50 centavos continuou com o busto de Dutra até 1956, quando o metal e o desenho da peça foram substituídos.

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Anverso comum das moedas de centavo da primeira série do primeiro cruzeiro; entre a letra L de “Brasil” e o ombro direito do busto do ditador Vargas, a assinatura do gravador, Orlando Maia

De 1956 a 1997, os personagens históricos sumiram das moedas, sendo substituídos pelo mapa do Brasil, pelo brasão da República, pela alegoria da República de 1965, por marcos da arquitetura brasileira, profissões tradicionais em desenho estilizado, por animais e pela alegoria da república feita para o centenário do regime (1989). A exceção fica pelas moedas comemorativas do sesquicentenário da Independência (1972), que traz estilizados os bustos de dom Pedro I e do presidente Emílio Garrastazu Médici.

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Anverso da peça de 1 cruzeiro (1972), comemorativa dos 150 anos da Independência. Os bustos estilizados de Pedro I e do então presidente Emílio Garrastazu Médici. Notem ainda as letras de “Brasil”, que lembram muito a segunda série de moedas do segundo cruzeiro (1979-1986)

Em 1992, foi emitida a moeda de 5 mil cruzeiros, comemorando o bicentenário da Inconfidência Mineira, e que trazia um retrato estilizado de Tiradentes, mártir do acontecimento.

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Anverso da peça de 5 mil cruzeiros (1992), que comemora o bicentenário da Inconfidência Mineira. Esta moeda e a de 5 mil réis de Santos Dumont (1936-8) são as duas peças metálicas para circulação comum de maior valor nominal já emitidas

Em 1997, com a introdução da segunda série do real, além das novidades dos metais, voltam os bustos de personagens históricos, todos três quartos: Pedro Álvares Cabral (navegador português, na moeda de 1 centavo), Tiradentes (na de 5 centavos), Pedro I (na de 10 centavos), Deodoro da Fonseca (25 centavos) e 50 centavos (Barão do Rio Branco). A peça de 1 real continuou com a efígie da República.

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Segunda série do real em sua configuração atual (a moeda de 1 centavo deixou de ser feita a partir de 2005)

Cabral, embora já tivesse comparecido em uma cédula (mil cruzeiros, entre 1942 e 1967) e viria a aparecer em uma segunda (10 reais, comemorativa dos 500 anos do Descobrimento), fazia sua primeira aparição metálica. Breve, pois a moeda, embora siga tendo valor legal, foi descontinuada em 2004. Tiradentes também; embora houvesse aparecido em uma cédula de 5 mil cruzeiros (anos 50 e 60) e na moeda do bicentenário da Inconfidência, estreava em uma peça de circulação comum. Pedro I, o mesmo caso, tendo duas aparições comemorativas (centenário e sesquicentenário da Independência). Deodoro apareceu nas cédulas de 20 cruzeiros (1942-1967), 50 cruzeiros (1970-1985) e 500 cruzeiros (1979-1985), sendo sua primeira moeda também. O Barão do Rio Branco figurou nas cédulas de 5 cruzeiros (1942-1967) e nas duas variantes de mil cruzeiros (1979-1985), peça que entrou para o vocabulário do português brasileiro como sinônimo de unidade monetária ou múltiplo de mil, mas não em moedas.

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