A moeda de 1 real dos Direitos Humanos

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É difícil dedicar-se à pesquisa numismática pela internet. Grande parte das consultas e das comunidades dedicadas ao tema nas redes sociais é dominada por vendedores; existe um financismo excessivo no meio, o que não deixa de ser irônico para quem dedica a vida a colecionar e estudar a numária.

Nosso enfoque neste blogue não é o mercado numismático, mas a pesquisa de peças. Porém, é impossível fazer vista grossa a uma questão recente.

Os valores inflacionados de peças comum têm chamado a atenção. No centro da polêmica mais recente, o famoso real de 1998 que celebra os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ou, para sermos mais breves, o real Direitos Humanos (DH).

Com emissão de 600 mil exemplares, mas encontrá-la a preços decentes tem sido uma via-crúcis para o colecionador. Valor de catálogo em 2014 era de R$ 10 em condição FDC, porém, a peça não é achada por menos de R$ 50, chegando até mesmo a estratosféricos R$ 200. Consideremos que o catálogo, por defasagem ou cálculo errôneo, esteja desatualizado. Mesmo assim, as cifras vão acima de muitas moedas coloniais consideradas raras, com tiragem bem menor.

Não há por que desses valores. A moeda é categorizada pelo Bentes como C.1 (comum), ou seja, o segundo menor grau de raridade segundo aquele catálogo; o mais baixo é CC (muito comum). O que pretende com esses valores? Não faço a menor ideia. Mas recomendo aos colecionadores que segurem sua sanha de adquiri-la agora; é só esperar a bolha estourar.

A terceira série do primeiro cruzeiro

O primeiro cruzeiro (1942-1967) é o padrão que sucedeu o mil-réis e herdou deste último o processo inflacionário, que se acentuou nos anos 1950 e 1960.

O padrão teve quatro séries de moedas metálicas: a primeira (1942-1956), que usou bronze-alumínio e cuproníquel 88-12 e teve seis peças, a “efêmera” (1956), com moedas de bronze-alumínio menores e a introdução do alumínio — cinco peças, a segunda (1957-1961), totalmente de alumínio, também com cinco peças, e, finalmente, a terceira série (1965).

O período entre 1961 e 1965 é, certamente, um dos mais confusos e intrincados da nossa história.

Se o leitor consultar a nossa reclassificação das séries brasileiras, encontrará lá duas classificações: as duas moedas de alumínio como terceira série e os 50 cruzeiros de cuproníquel como emissão avulsa.

Aproveitamos a ocasião para, diante de novos fatos, alterar essas considerações.

Passamos a incluir as três moedas dentro da mesma rubrica, ou seja, a terceira família do primeiro cruzeiro, incluindo a emissão avulsa dos 50 cruzeiros como pertencente a esse conjunto.

A explicação disso vem do conturbado período econômico por que o Brasil passou então e das várias decisões tomadas pelo Ministério da Fazenda e pela Casa da Moeda entre 1961 e 1965. Lembre-se de que o Banco Central só foi criado em 1965; a emissão de moeda era objeto de lei e portaria do Ministério da Fazenda.

Se consultarmos os jornais da época — nos restringimos aqui a apenas um título, pois há muitos outros — veremos como há um vai e vem de decisões.

Em 29 de dezembro de 1961, o Jornal do Brasil informava a extinção das moedas de 10, 20 e 50 centavos. A Casa da Moeda informava sobre a ideia de criar peças de 5, 10, 20 e 50 cruzeiros, que seria apresentada ao Conselho de Ministros (estávamos no período parlamentarista).

Em junho de 1962, o então diretor da Casa da Moeda, Silvino de Sousa Martins, informava o mesmo Jornal do Brasil que as provas das moedas de 5 cruzeiros já estavam prontas; a entrada em circulação aguardava autorização do Congresso Nacional.

Sabemos bem que essa moeda jamais circulou.

Ainda em junho, o JB informou que a Casa da Moeda estava aparelhada para a cunhagem de Cr$ 1 bilhão em moedas divisionárias. Estranhamente, incluíam-se na lista os valores de 10, 20 e 50 centavos, cuja extinção já havia sido anunciada, mais as de 1, 2 e 5 cruzeiros. O intuito principal era substituir o papel-moeda de menor valor, que se achava em condições das piores possíveis.

Em 24/8/1962, o JB trazia mais uma matéria com argumentos dados por Sousa Martins. Informava-se que as provas (ou ensaios?) das moedas de 10, 20 e 50 cruzeiros estavam prontas, e que as peças deveriam circular até 1963.

Em dezembro de 1962, a situação não havia mudado. O JB de 30/10 trazia mais declarações de Sousa Martins. Ali, o diretor da CMB dizia desconhecer qualquer iniciativa para a emissão de uma moeda de 100 cruzeiros. É a primeira menção a tal denominação.

Em 17/12/1962 foi sancionada a Lei nº 4.190, publicada em Diário Oficial em 16/1/1963, que traz no § 1º do artigo 3º como seriam as moedas metálicas. Constam as já citadas peças de centavos, 1, 2 e 5 cruzeiros, mas a descrição desta é igual às outras:

Anverso – Armas da República; na orla, República dos Estados Unidos do Brasil.
Reverso – Algarismos arábicos, em linhas sobrepostas, indicando o valor da moeda e, logo abaixo, por extenso, a palavra cruzeiro, usando-se plural para os 2 cruzeiros e separando-se por um traço horizontal o ano da emissão.

Um pouco depois, em janeiro de 1963, Sousa Martins submetia à aprovação das instâncias superiores alguns modelos de peças de 5 cruzeiros, cuja cunhagem já havia sido autorizada pelo Congresso (pela  Lei nº 4.190?). O JB, citando Sousa Martins, informa, em sua edição de 9/1, que as peças seriam de “uma liga de cobre, alumínio e zinco”, o que marcaria o retorno do bronze-alumínio à cunhagem. O caput do artigo 3º da Lei nº 4.190 não especifica metal para a cunhagem, informando apenas que “as moedas metálicas terão o peso, diâmetro, composição da liga e tolerância que forem determinados pelo Ministério da Fazenda”. Obviamente, essa moeda nunca circulou.

Dias depois, em 13/1, o JB informava que o modelo da moeda de 5 cruzeiros já havia sido escolhido.

“A moeda é fina, com um milímetro e meio de espessura, tem num lado as armas da República e no outro o algarismo correspondente ao seu valor, cortado ao meio pela palavra Cruzeiro, e tem na parte de baixo o ano da cunhagem — 1963. Segundo o Diretor da Casa da Moeda [ainda Sousa Martins], o modelo, pela sua espessura, oferece dificuldades para a falsificação, e é de fácil transporte e de muito bom aspecto. Tanto que é programa da Casa da Moeda, tão logo consiga a aprovação no Congresso, cunhar na mesma espessura moedas de Cr$ 10 e Cr$ 20, porém em tamanhos maiores.”

Esses 5 cruzeiros parecem um tipo misto entre as moedas existentes e aquelas que viriam a ser lançadas em 1965: têm as armas nacionais no anverso, como todas as peças até então, mas a descrição do reverso aponta nitidamente àquele usado nas moedas de 10 e 20 cruzeiros lançadas dali dois anos.

O artigo ainda relembrava a suspensão da cunhagem daquela denominação, o que aconteceu em 1943, e os custos de emissão de cédulas e moedas, calculados em Cr$ 4 para a nova moeda e Cr$ 8 para uma cédula, que, naquela época, vinha do exterior. Citava-se novamente a peça de 50 cruzeiros.

Pelo que parece, o assunto, em meio à barafunda política, acabou perdendo importância; somente em setembro de 1964, depois do golpe, o tema volta à tona. A edição de 26/9 do JB informa a criação de uma série de quatro peças: 5, 10, 20 e 50 cruzeiros; a única que não tinha motivos definidos era a de 5, embora seu modelo tivesse sido dado como certo em janeiro.

Ainda segundo a matéria:

“As novas moedas são de liga de bronze e alumínio, tendo no verso uma efígie da República e no anverso um ramo de cada um dos produtos mais exportados pelo Brasil […] Essas moedas variam de tamanho com a importância de cada uma, sendo as maiores as de Cr$ 50. As de Cr$ 10 terão gravadas em seu anverso um ramo de algodão, as de Cr$ 20, de trigo, e as de Cr$ 50, de café.”

E um dado importantíssimo: a matéria indica ainda que esses projetos são de autoria de Benedito Ribeiro.

Apesar de o metal ter sido mudado — e provavelmente o tamanho também —, parece claro que o desenho dessa moeda de 50 cruzeiros, com o ramo de café, é o que entrou em circulação em 1965 e que influenciou a moeda de 1 cruzeiro da primeira série do segundo cruzeiro.

Entre as duas moedas, notem a inversão de valor e motivo e as folhas de café mais fechadas. Mas é óvio o aproveitamento da ideia, com similaridade nas letras e números.

Em 4/12/1964, o JB publica matéria com informações dadas pelo então diretor da Casa da Moeda, Nélson de Almeida Brum. Os valores são de 5, 10, 20, 50, 100 e 200 e deveriam entrar em circulação até março do ano seguinte.

A matéria informa que os valores de 5, 10 e 20 seriam de alumínio e teriam no reverso o valor inclinado e, no anverso, o mapa do Brasil (o texto faz confusão entre anverso e reverso, como até hoje comumente acontece). As peças de 50, 100 e 200 cruzeiros seriam de cuproníquel; a de 50 traria os ramos de café (claramente reaproveitamento do projeto de Benedito Ribeiro), a de 100, elementos da siderurgia, e a de 200 simbolizaria a construção naval. Havia ainda prevista em lei (Lei nº 4.511, de 1°/12/1964) a moeda de 500 cruzeiros, que teria como tema a indústria naval; a subsérie seria cunhada em cuproníquel.

Embora o artigo 3° da Lei nº 4.511 citasse os tipos a serem cunhados, não estipulava nenhuma de suas características, deixando-as a cargo da CMB.

Art. 3º – As moedas metálicas, que corresponderão aos valores de 1, 2, 5, 10, 20, 50, 100, 200 e 500 cruzeiros terão as suas características técnicas bem como pormenores artísticos determinados pela Casa da Moeda.

Essa nova série entrou parcialmente em circulação: conhecemos as peças de 10 e 20 cruzeiros, cujo anverso é baseado nos 5 cruzeiros anunciados em janeiro de 1962.

No dia 8/12/1964, o JB trazia matéria de página dupla sobre as novas moedas, com desenhos dos projetos das peças.

Compare-se o desenho dos 200 cruzeiros com os 20 centavos emitidos com era 1967.

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“As novas moedas terão efígies com símbolos econômicos, exceto os valores até Cr$ 20, cunhados em alumínio, que terão no anverso (sic) o valor inclinado — chamado Bossa Nova — e no reverso o mapa do Brasil.”

Com esses dados, é possível chamar a subsérie de Bossa Nova. Mais um detalhe interessante que faltam dos nossos compêndios de numismática. Ao que tudo indica, o nome do reverso veio da própria Casa da Moeda.

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Reverso “bossa nova”

Em 18/3/1965, o JB veicula um artigo intitulado “Casa da Moeda, verso e reverso”, que noticiava a suspensão, até maio da cunhagem da moeda de 1 cruzeiro, o que indica que a moeda com era 1961 continuou sendo batida até 1965, o que nos parece plausível com as quantidades emitidas, segundo o Catálogo Bentes (2ª ed.):

1957, 11.894.000
1958, 15.443.000 (+29%)
1959, 25.010.000 (+61%)
1960, 35.267.000 (+41%)
1961, 51.816.000 (+47%)

O JB de 9/4/1965 indica que, no dia anterior, havia começado a cunhagem das moedas de 10, 20 e 50 cruzeiros, e que seriam postas em circulação em maio. O níquel para a moeda de 50 era de origem soviética.

O mesmo artigo informa ainda:

“[Almeida Brum] também não pôde precisar quando deverão sair as de Cr$ 100, 200, ‘e muito menos a de Cr$ 500’, pois a prioridade, segundo determinações do Governo, é para as de Cr$ 10, 20 e 50.”

Em 13/6/1965, as moedas previstas para o começo daquele mês ainda não haviam entrado em circulação, como atesta o noticiário do JB. A distribuição começaria em julho.

“O retardamento da entrada em circulação das novas moedas é explicado por técnicos do Banco [Central], como sendo provocado pela intenção do Governo de só lançar as moedas quando o País já se encontrar com sua economia estabilizada, o que acreditam os técnicos governamentais começará a ocorrer no próximo mês.”

As moedas e 10, 20 e 50 cruzeiros acabariam sendo postas em circulação em 28/6.

Em 14/9/1965, o JB informava que as peças de 100 e 200 cruzeiros, parte da subsérie dos 50 cruzeiros, seriam lançadas ainda naquele ano.

Porém, o Decreto-Lei nº 1, de 13/11/1965, instituía, a partir de 1º/1/1966, o cruzeiro novo, que equivaleria a mil cruzeiros antigos; em 14/11/1965, o mesmo JB anuncia o novo padrão e a previsão para as moedas de 1, 5 e 10 centavos, equivalentes a 10, 50 e 100 cruzeiros, o que matou no berço os modelos de 100 e 200 cruzeiros. A moeda de 10 centavos é totalmente diferente da de 100 cruzeiros, embora mantenha a temática da siderurgia, mas nota-se o aproveitamento do leiaute dos 200 cruzeiros para os 20 centavos.

Logo, a subsérie que conteria as moedas de 50, 100 e 200 cruzeiros limitou-se àquela de 50, caracterizando-a como emissão avulsa da terceira série do primeiro cruzeiro.

Carlos Drummond de Andrade e as moedas

Li muita coisa de Drummond, mas nunca tinha me deparado com um texto seu sobre moedas. O que aqui transcrevemos foi originalmente publicado na coluna que o poeta mantinha no Correio da Manhã.

* * *

Novas moedas

Como são leves as novas moedas divisionárias! Mais do que leves: leveiras, levianas, levípedes, alípedes… O dicionário analógico não me dá outros adjetivos, e as moedas não valem o momento de pesquisa. Tive, diante delas, a sensação de vapor, e é bom que nos habituemos a considerar dinheiro algo vaporoso, sem forma ou volume próprio, que se arredonda na carteira dos ricos e se comprime no bolso dos pobres. Gás extremamente volátil.

A ideia de fazer níquel de alumínio é uma grande ideia, a começar pela diferença de peso atômico entre os dois metais, e a continuar pela infinita facilidade com que os métodos industriais de fabricação do alumínio permitem abastecer o mercado. De alumínio são nossas panelas, de alumínio móveis e moedas, e amanhã teremos estátuas, navios e corações de alumínio. Estes, suas penas de amor serão tão ligeiras quanto a substância, e há de ser fácil mantê-los puros e reluzentes.

Não se pense, contudo, que devemos a inovação monetária à moderna alkmia*, instalada no Ministério da Fazenda. Quase todos os países do mundo já a praticam. Apenas, costumam usar desenhos mais bonitos no verso e anverso de seus trocados. Nossas moedinhas de 1956 têm a mesma falta de gosto das anteriores. De um lado, o algarismo nu e cru; do outro, as eternas armas da República, indicando talvez que nossa República tem o complexo das armas. Na moeda francesa, a indicação do valor é rodeada por duas cornucópias de frutas e folhas.; do outro lado, a figura simbólica de mulher, com o barrete frígio contornado por uma coroa de trigo (durante a revolução, essa figura era nada menos que o retrato de Mme. Recamier). Na de 5 francos, desapareceu o barrete, e o gravador não se esquivou a assinar o trabalho, de boa qualidade. A de 10 liras, italiana, ostenta um ramo de oliveira, frutificado; na outra face, um pégaso em ascensão. Mesmo convencionais, estas imagens agradam pela execução apurada, e como são audaciosas, diante de nossas pobres concepções da ornamentação do dinheiro!

Verdade seja que acabaram as figurinhas importantes, entre as quais os poderosos do dia alternavam com Ruy Barbosa e José Bonifácio. Foi bom. Não teremos mais o rosto de Machado de Assis, naquele 500 réis de 1939, mas em compensação deixaremos de carregar no bolso, com o retrato do nosso amor, cinco ou seus efígies do presidente da República em quem não votáramos. A moeda pecava pelo exagero. Lembro-me do mil-réis de 1922, ano do centenário da Independência, em que no primeiro plano aparecia o chefe do governo de então, e lá atrás, meio escondido, o rapaz que fizera o brinquedo e soltara o grito do Ipiranga.

Não sou contra as caras reproduzidas em ouro, prata ou alumínio, desde que sejam belas. Nossos homens ilustres não precisam ser cultivados em 20 centavos. Mas um rosto feminino, que represente ou não ideia cívica, uma forma grácil da natureza, uma flor nacional, um traço engenhoso, que dê à materialidade do dinheiro certa fantasia e convide os olhos a se deterem nele um instante — que mal há nisso? Também não seria mau que artistas como Goeldi, Poty, Abramo fossem chamados a cunhar na Casa da Moeda. Dinheiro e medalha não deveriam ser feios obrigatoriamente. Basta que o feio seja facultativo.

* Assim grafado se encontra no original, muito possivelmente uma referência ao ministro da Fazenda sob cuja gestão as moedas foram introduzidas, José Maria Alkimin.

(Correio da Manhã, 27/12/1956, 1º caderno, p. 6)

* * *

Na sua coluna de 3/3/1957, Drummond publica o poema “Brincando de brincar”, que tem a seguinte quadra:

Faz de conta que esse alumínio
das novas moedas é puro ouro.
(Nosso chefe, Deus ilumine-o
pelo menos no ano vindouro.)

R00020AO mais irônico é Drummond ter ornado duas moedas brasileiras, não de alumínio, mas de prata e ouro, que celebraram seu centenário, em 2002.

As pequeninas de 1956

O primeiro cruzeiro durou de 1942 a 1966 e legou-nos quatro séries de moedas metálicas. A primeira, de bronze-alumínio, com os valores de 10, 20 e 50 centavos, e 1, 2 e 5 cruzeiros, que foi cunhada entre 1942 e 1956, com exceção da moeda de 5 cruzeiros, batida apenas em 1942 e 1943.

Em 1956, introduziu-se nova série: 10 e 20 centavos de alumínio, que conservavam, porém, o módulo das homólogas predecessoras, e 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros, que conservavam o bronze-alumínio, mas tinham módulo reduzido, como indica a Portaria nº 333, de 10/12/1956.

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Peças de 1 cruzeiro da “Efêmera”

Essa série, na reclassificação que propusemos, é a “efêmera” ou “de transição”.

As três moedinhas de bronze-alumínio, cunhadas apenas com a era 1956, tinham um motivo de ser, como informou ao Jornal do Brasil o então diretor da Casa da Moeda, Filinto Epitácio Maia, em declaração ao diário carioca Correio da Manhã, publicada na edição de 22/8/1957.

“As moedas de 50 centavos e um e dois cruzeiros serão também cunhadas em alumínio e voltarão ao tamanho que tinham anteriormente. Seu tamanho diminuiu porque tínhamos de acabar com pequeno estoque de liga de cobre que havia aqui na Casa da Moeda. Mas dentro de pouco tempo, logo assim termine o estoque, passaremos a cunhar todo o nosso dinheiro em alumínio, desaparecendo a moeda amarela.”

Essa declaração dá ainda mais sustentação ao nome que propusemos em nossa reclassificação, já que, em 1957, todas as moedas do cruzeiro passaram a ser de alumínio. Mas que também deixa uma possibilidade no ar: se a portaria que autoriza as moedas é de dezembro de 1956 e a entrevista de Maia é de agosto de 1957, isso pode indicar que as moedas era 1956 foram cunhadas majoritariamente em 1957. Pela data da portaria, 10 de dezembro, arrisco dizer que muito poucas moedas foram cunhadas em 1956 de fato. Ou nenhuma.

Ainda cabem mais pesquisas, mas é algo para se pensar.

Museu Bode de Berlim

O Museu Bode de Berlim, na famosa Ilha dos Museus, abriga a maior coleção numismática do planeta, o Münzkabinett, com cerca de 500 mil peças. Vamos dar um curto passeio por essa maravilha. Vídeo em alemão, com legendas em inglês.

Abaixo, a tradução das legendas.

A coleção numismática dos Museus Estatais de Berlim é uma das maiores do mundo. Suas peças cobrem todo o período desde a invenção da moeda, no VII século a.C. aos euros do século XXI, e todo o mundo, da Finlândia à África do Sul e de Berlim a Buenos Aires.

Há no acervo mais de meio milhão de objetos, como moedas e medalhas, e ainda cédulas, sinetes, fichas e discos de moedas, além ferramentas usadas na cunhagem.

A Coleção Numismática é um museu, mas também um arquivo do dinheiro e um centro de estudo e pesquisa da numismática.

Um catálogo interativo gratuito está disponível na internet. Ele leva o visitante virtual a um passeio pelo acervo sempre crescente e dá informações históricas e numismáticas sobre os objetos.

Por meio do catálogo, os visitantes podem fazer uma jornada pessoal pelo mundo da história monetária.

O catálogo interativo só é possível por conta dos patrocinadores, que bancam as moedas e medalhas.

Com uma doação de 20 euros (dedutível dos impostos), você também pode ser um patrocinador de uma ou mais moedas e custear a documentação no catálogo virtual.

Simplesmente entre em contato conosco e torne-se hoje mesmo um patrocinador. Voe pode ajudar a tornar o maior e mais importante arquivo numismático da Alemanha disponível para todos.

Clipping: ‘A menor moeda do mundo?’

Por Jay, do CoinThrill.com.

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Digam olá à minha nova amiguinha. É um 1½ penny* do Reino Unido, de 1836! E, francamente, é a menor moeda que eu já vi… Vejam o quão fofa ela é (sim, é “ela”). Comprei-a por 27 dólares (vale algo por volta de 33 dólares em condição VF) e não tenho sido capaz de deixá-la de lado desde então. Estou na missão de encontrar uma moeda que seja menor que esta para a minha coleção, mas, de longe, falhei miseravelmente.

Eis a moeda comparada com as americanas:

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1-1-2-pence-compare-dime

1-1-2-pence-compare-quarter

 

Eu não tinha nenhum troco aqui perto, então peguei rapidamente essas coisinhas da minha cumbuca de “renegadas” que juntei com o tempo… As moedas não valem mais nada que seu valor facial, mas têm coisas bem esquisitas nelas, como tinta, mutilações loucas, bordos mais finos em uma que em outra etc. Não velo como repô-las em circulação!

De qualquer maneira, como você pode dizer que essa moeda é a menor das menores. E que denominação interessante! Um penny e meio?! Seria muito interessante ver quanto isso valeria hoje, aproximadamente… Talvez algo como a moeda de 50 centavos? E a coisa tem quase 200 anos! Realmente incrível que se possa ver bem os detalhes.

Alguns detalhes deste 1½ penny, do NGC:

Composição: prata
Peso: 0,7069 g
Peso da prata (ASW): 0,021 oz (2% de uma onça de prata)
Valor da prata: U$ 0,40 (em 7/6/2014)
Busto do anverso: Guilherme IV
Diâmetro: 12 mm

* mantivemos a denominação como o autor a pôs, mas a moeda é conhecida como three halfpence, ou três meios-pence, e não foi feita para circulação no Reino Unido, mas nas suas colônias, principalmente na Índia e no Ceilão. Incluímos a informação do diâmetro.

Original em inglês.

Moedas do cruzado novo/terceiro cruzeiro

O cruzado novo passou a ser a unidade monetária brasileira em 15 de janeiro de 1989, em decorrência da adoção do Plano Verão, e equivalia a 1.000 cruzados. Além das novidades nas cédulas — que tiveram seu tamanho reduzido de 174×54 mm, tamanho herdado da segunda série do segundo cruzeiro, para 140×65 mm —, introduziu-se uma nova família de moedas.

O reverso é claramente a repetição do das três moedas de 100 cruzados emitidas por ocasião do centenário da Abolição da Escravatura, mostrando o lado esquerdo da esfera presente na bandeira nacional valor facial, denominação e Estado emissor.

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Essa série tem a peculiaridade de ter servido parcialmente a dois padrões monetários, o cruzado novo (de 15/1/1989 a 15/3/1990) e o cruzeiro (a partir de a 16/3/1990). No primeiro padrão, foram emitidas apenas as moedas divisionárias (1, 5, 10 e 50 centavos) e uma moeda comemorativa de 1 cruzado novo, que relembrava os cem anos da República. A moeda de 1 cruzeiro e os múltiplos (5, 10 e 50) só foram emitidas em 1990, depois da mudança do padrão. Lembrando que a mudança do padrão em 1990 apenas afetou o nome da unidade, pois NCz$ 1 = Cr$ 1.

Mas o que nos interessa aqui são os padrões estéticos, as reais novidades. Na segunda série de moedas (1979-1986) do segundo cruzeiro, houve já uma considerável mudança estética, com representações que fugiam ao que já havia sido feito até então. Houve a reprodução de plantas, de esquemas abstratos e de projetos. O cruzado marca uma “sisudez” estética, para alguns até mesmo pobreza, quando as moedas, todas iguais, a não ser pelo tamanho e valor nominal, reproduziam o brasão de armas da República que não respeitava as leis da heráldica.

A série do cruzado novo/terceiro cruzeiro traz a representações de atividades tradicionais da economia brasileira, com uma figura humana e elementos associados dispostos de maneira espelhada a partir do centro do anverso. Além de ser uma série muito rica de detalhes miúdos, uma decorrência da especialização da cunhagem em aço inox, que é um metal muito duro.

A introdução de detalhes da atividade além da figura humana que a representa pode ter sido uma inspiração para a segunda família de moedas do real, cujo reverso também é inspirado na série do cruzado novo/cruzeiro.

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Na peça de 1 centavo (16,5 mm de diâmetro e 2,01 g de peso), temos a pecuária, representada pela figura do boiadeiro com lenço ao pescoço e montado em um cavalo, ladeado por dois berrantes e cordas (ou são as tiras do berrante?). No exergo, junto com a era, sete bois, que, em perspectiva, parecem vir detrás dos berrantes. O reverso apresenta duas estrelas na representação esquemática da esfera da bandeira, uma na parte superior da esfera, sempre representando α-Spica, a estrela do Pará, acima da faixa, e a outra abaixo.

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Na peça de 5 centavos (17,5 mm e 2,26 g), temos a pesca, com a figura do pescador tirando um peixe (ou usando algum tipo de instrumento) da rede com a mão direita, ocupando o centro superior e ladeado por redes e ondas estilizadas, no exergo, com a era, dois peixes, olhando cada um para fora da moeda. o reverso apresenta três estrelas, uma na parte superior e duas abaixo.

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A peça de 10 centavos (18,5 mm e 2,54 g) traz o garimpeiro, debruçado e com uma bateia em mãos e ladeado por círculos e linhas que parecem ser aqueles descritos na água quando do movimento da bateia. No exergo, com a era, três diamantes. O reverso apresenta cinco estrelas, uma na parte superior e quatro abaixo.

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Na peça de 50 centavos (19,5 mm e 2,54 g), há a rendeira, trabalhando sobre uma almofada e ladeada pela visão lateral da almofada, com seus bilros. O exergo é praticamente todo dominado por um padrão de renda, mais a data. O reverso apresenta seis estrelas, uma na parte superior e cinco abaixo.

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A peça de 1 cruzeiro (20,5 mm e 3,61 g) trata-se de uma quebra de padrão, seja no anverso como no reverso. O reverso traz a ideia da esfera da bandeira, mas sem estrelas e com linhas, que lhe dão a plasticidade da bandeira ondulada pelo vento. No anverso, o losango da bandeira, também com linhas horizontais ondulantes, e a esfera aparecem “estourados”, cuja “explosão” traz o Cruzeiro do Sul. A era vem na parte superior do exergo, á direita.

O catálogo Bentes registra a moeda de 1 cruzado novo, que acabou não entrando em circulação por conta da mudança no padrão. Ela trazia o reverso igual às outras da série, mas o anverso mostra um mapa do Brasil sob um desenho que forma uma cruz como a da Ordem de Cristo. A peça é conhecida como “cruz de Cristo” e, segundo o mesmo catálogo, conhecem-se 15 exemplares. Acredito que haja um problema no Bentes quanto ao diâmetro e ao peso dessa peça. Temos seis estrelas, uma na parte superior e cinco abaixo, descrevendo um “s”.

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A peça de 5 cruzeiros (21,5 mm e 3,97 g) tem por tema a extração artesanal de sal, com a figura do salineiro com uma pá sobre seu ombro direito. As representações abstratas podem ter relação com o sol e com o vento, elementos necessários para a extração artesanal de sal. No exergo, um grande triângulo, ladeado por dois outros bem menores, simbolizando, muito possivelmente, os montes de sal. Temos sete estrelas, uma acima e seis abaixo.

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Os 10 cruzeiros (22,5 mm e 3,74 g) trazem o seringueiro formando uma pela de látex, tendo na mão direita uma cuia e a mão esquerda no cabo da pela. Nos detalhes simétricos, o “painel”, que são as marcas feitas no tronco da seringueira para extração do látex, e duas cuias escalonadas de cada lado limitando o desenho dos painéis. No exergo, alguns desenhos rudimentares de uma instalação fabril, o que pode ser referência ao uso industrial do produto. Há no reverso nove estrelas, uma acima e oito abaixo.

50 Cruzeiros 1991 Anverso

A peça de 50 cruzeiros (23,5 mm e 4,78 g) é a que tem as figuras mais intrigantes. Ela traz a baiana de turbante, com seus tabuleiros e ladeada por uma formação de acarajés sobre guardanapo (dois acarajés sobre cada guardanapo), duas estruturas que poderiam ser samburás ou fornilhos de cachimbo, duas formas em meia-lua (entrei em contato com um amigo praticante de religiões afro-brasileiras que me informou que podem ser canoas ou cadeiras de ogã), e ainda abacaxis e um cajus, além de uma pequena flor entre o caju e a “piteira do cachimbo”. No exergo, uma figa invertida ocupa a posição central, ladeada por um búzio e um peixe, de cada lado. A baiana, reconhecida como profissão, é também uma representação cultural e religiosa. No reverso há dez estrelas, uma acima e nove abaixo.

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Beija-flores

Este interessante artigo do Diniz Numismática mostra a inspiração muito similar em cédulas totalmente diferentes, no caso, uma hondurenha e uma brasileira.

Mas o nosso querido Banco Central reutilizou artes já prontas. Basta ver a cédula de 100 mil cruzeiros/100 cruzeiros reais (1991-1993) e a nossa saudosa cédula de 1 real, cuja produção começou em 1994. O beija-flor, usado no anverso da primeira e no reverso da segunda, é o mesmo. Pode contar os detalhes, apenas cuidado para não tropeçar na “renda” impressa na cédula de 100 mil cruzeiros.

Tendo em vista que a ideia original da primeira família de cédulas do real era ser provisória, a ideia não era assim tão absurda. O problema é que o provisório durou praticamente 16 anos, até as primeiras cédulas da segunda família aparecerem, em 2010; embora a dita cédula tenha sido produzida somente até 2005.

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