Cêntimo ou centavo?

A moeda brasileira até 1942 foi o real, cujo plural arcaico era réis. A unidade, para o dia a dia, já era considerada o mil-réis. Fato que fez do mil-réis uma moeda de base milesimal, cujo submúltiplo era o real. Mil réis = um mil-réis.

O advento do cruzeiro foi apenas uma adequação formal da situação há muito estabelecida. Um mil-réis passou a ser um cruzeiro, e novas moedas foram batidas. A ideia do cruzeiro é velha, vem do final do século XIX, mas somente no meio dos anos 1920 é que passou a ser tomada mais seriamente.

Um decreto de 1926 estabelecia o cruzeiro como unidade monetária nacional. Por conta das atribulações políticas do período, que terminou com o golpe de estado de Getúlio Vargas, em outubro de 1930, acabaram impedindo a implementação desse primeiro cruzeiro. Vargas era simpático à ideia, tanto que, em 1942, levou a cabo a reforma.

Inicialmente, houve várias ideias de qual seria o submúltiplo do cruzeiro. Projetos apresentados no começo dos anos 1930, incluíram a divisão da nova moeda em décimos. Se levarmos em conta que a menor moeda da última série de mil-réis era 100 réis, a divisão em décimos não parece tão descabida. A última moeda de 50 réis (o equivalente a meio pelo sistema proposto) foi emitida em 1935.

Mais detalhes sobre o padrão cruzeiros podem ser lidos no detalhado artigo de Jairo Luiz Corso, publicado neste blogue.

O uso do termo centavo ou cêntimo esteve em pauta até, digamos, a antevéspera do lançamento da nova moeda.

Ao que parece inicialmente, a palavra é de forja hispano-americana. Formou-se da raiz latina cent- (de centum) mais o sufixo partitivo avo, usado para formação de numerais fracionários, teoricamente extraído de ochavo (oitavo). A Revolução Americana, que tanto inspirou os movimentos de Independência da América Espanhola, pode ter emprestado a ideia de cent e mesmo influenciado a ideia de centime, já que o franco decimal, criação da Revolução Francesa, foi introduzido apenas em 1795; até então, a França seguia a divisão tradicional vigente, de origem franca: 1 libra = 20 sous; 1 sou = 12 deniers (1:20:240), sistema que a Grã-Bretanha seguiu até 1971, chamado £sd (librae, solidi, denarii).

Os primeiros usos da palavra centavo vêm de 1851, quando o peso chileno decimalizado e dividido em décimoscentavos.

Em 1854, a Confederação Argentina emitiu peças com essa denominação, mas o peso argentino só foi totalmente decimalizado em 1881.

A denominação aparece no peso mexicano em 1861, com a decimalização da moeda.

A Espanha, quando estabeleceu o real como unidade principal, em 1850, instituiu sua divisão em cêntimos, palavra que é decalque do francês centime. O céntimo continuou como a centésima parte da pesseta até a introdução do euro, embora a última moeda com esta denominação, 50 cêntimos, tenha sido emitida pela última vez em 1980. Também é chamado de céntimo na Espanha a centésima parte do euro.

O Paraguai, com a criação do guarani, em 1943, optou por nomear a fração céntimo. na Bolívia, o boliviano de 1863-1963 também se dividia em céntimos; porém o peso (1963-1987) e o segundo boliviano (desde 1987) têm o centavo como submúltiplo. O Peru, com seu nuevo sol, desde 1991, usa céntimos; o inti (1985-1991) também se dividia em céntimos, porém o velho sol  (1863-1985) usou o centavo como fração.

O Uruguai, fugindo à lógica, quando estabeleceu o seu sistema monetário, em 1862, usou a forma centésimo para a sua fração, denominação que sobrevive no atual peso uruguaio.

Com a criação do escudo português, em substituição ao real, este também foi dividido em centavos.

Nos países germânicos, com exceção dos Países baixos, que usa cent, a tradição impôs a palavra penning, daí o pfennig do marco alemão e o penny inglês. Os países nórdicos optaram por uma adaptação de aureus, a moeda de ouro romana. Na Noruega e na Dinamarca, o centésimo das suas respectivas coroas é øre; na Suécia, öre. Nas ilhas Féroe, dependência da Dinamarca, o centésimo é chamado oyra; em quanto que na Islândia a centésima parte da coroa é o eyrir (plural: aurar).

O rublo russo, a primeira moeda a adotar o sistema decimal no mundo, em 1704, foi dividido em cem copeques (russo kopeika, plural: kopeiki), palavra derivada de kopie, lança, por conta de as primeiras moedas trazerem a imagem de São Jorge, como até hoje trazem as moedas de 1, 5, 10 e 50 copeques.

No antigo xelim austríaco, o centésimo era designado groschen, derivado da moeda italiana denominada por denaro grosso. É a mesma origem de kuruş, a centésima parte da lira turca, e de grosz, a centésima parte do zlóti polonês.

Na finada Tchecoslováquia, haléř (em tcheco) e halier (em eslovaco) eram as formas do centésimo da coroa daquele país. A palavra vem de heller, usado como centésimo da coroa austro-húngara. Tem sua origem em uma moeda batida em Hall am Kocher (hoje Schwäbisch Hall, no Estado alemão de Baden-Württemberg), chamada Hëller pfennig.

O húngaro fillér, usado como centésimo da coroa austro-húngara, do pengő (1927-196) e do florim, significa, em tese, quatro, e tem sua origem na moeda de quatro kreutzer. Na Romênia e na Moldávia, as duas moedas, chamadas de leu, subdividem-se em cem bani, que tem sua origem no latim tardio bannus, do germânico ban, que significa aproximadamente caminho (compare-se com o alemão Bahn, usado em palavras como Autobahn, autoestrada).

A Grécia, quando da criação do seu dracma, chamou a centésima parte de lepton (plural: lepta), que significa “pequeno”. A Bulgária divide seu lev em cem stotinki (singular: stotinka), cuja raiz é sto, cem; é a denominação mais próxima das ocidentais, pois significa, ao pé da letra, centésimo. O centésimo do lek albanês é o qindar (plural: qindarka), em que qind é a palavra para cem. O tolar esloveno também tinha um centésimo relacionado a cem, o stotin (plural: stotinov), também um decalque de centime. O centésimo do kuna croata é o lipa, que é o nome local da árvore que chamamo de tília.

O termo servo-croata para, seja para o centésimo dos vários dinares iugoslavos ou do atual dinar sérvio, é palavra de origem persa, pārah, trazida aos Bálcãs pelo domínio otomano. Significa originalmente peça (seria essa a origem do paisa indiano, hoje o centésimo da rúpia?).

No Brasil, com a criação do cruzeiro centesimal, acabou-se finalmente optando por centavo, fosse por influência dos países vizinhos ou pelo caso português. Mas houve a ideia de chamar a fração de cêntimo, o que nos é indicado por um ensaio de 1941, que consta no catálogo Bentes, sob o código E101.01, mas não consta do famoso catálogo Krause.

Ao que parece a escolha da denominação do centésimo oscilou. Como testemunha, temos um ensaio de 50 cêntimos lembra muito a peça de 50 centavos que acabou sendo usada para circulação, mas há diferenças nítidas na tipologia dos caracteres empregada, sendo, digamos, mais art-déco que sua homóloga aprovada para circulação. Fora a presença do termo cêntimos.

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