Catálogo Holtman

É com imensa honra que pomos à disposição mais uma opção de catálogo para os colecionadores. O Catálogo Holtman, do egrégio confrade e amigo Valdir Luiz Holtman, dedica-se às emissões brasileiras de 1868 até o momento. Trata-se, sem dúvida alguma, uma contribuição de peso e fôlego à numismática brasileira.

Deo volente, logo mais, para fazer par com ele, um pequeno tratado sobre a numária brasileira pós-1942, que está em fase de elaboração pelo autor deste blogue, será lançado. Infelizmente ainda sem data, mas adiantamos que vários dos temas presentes nessa obra futura estão tratados no nosso blogue.

Aqui vocês podem baixar o grande Catálogo Holtman, cuja numeração adotaremos também neste blogue.

A história das moedas de 1 centavo

O título pode parecer meio besta, mas tem alguma relevância.

Como já falamos aqui neste blogue, a divisão centesimal, chamada entre nós de centavo, fez seu début no Brasil em 1942, com a introdução do cruzeiro. Até então, a moeda era o mil-réis, dividido em mil réis. A menor moeda de mil-réis era o tostão, ou $100; a de $050 teve sua última emissão em 1931 (a emissão de 1935 teve apenas cem exemplares, certamente com intuitos numismáticos) e a de $020, em 1927 (também com um “choro” em 1935, também com cem exemplares).

Logo, a menor moeda do primeiro cruzeiro era a de 10 centavos, equivalente a $100 e que até os anos 1950 conservou o nome popular de tostão. O cruzeiro nasceu sem moeda de 1 centavo, quantia que existia apenas para conta.

A primeira moeda de 1 centavo vai aparecer apenas com o cruzeiro novo, em 1967. A “pequena notável”, além de representar a menor unidade formal da moeda, marcou, com as peças de 2 e 5 centavos, a introdução do aço inoxidável na numária brasileira.

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A primeira moeda de 1 centavo emitida no Brasil

A reforma da série em 1979 trouxe uma nova moeda de centavo, mas “para inglês ver”. Se em maio de 1967 um dólar americano valia cerca de NCr$ 2,70, a moeda norte-americana fechou dezembro de 1979 a Cr$ 42,30. O chamado “centavinho”, que ostentava um râmulo de soja foi emitido entre 1979 e 1983, com 100 mil peças anuais, exceto 1980, que contou apenas 60 mil. Trata-se de peça que, por seu valor mínimo, praticamente não circulou. Basta apenas pensar que a moeda seguinte na série era a de 1 cruzeiro.

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O “centavinho” de 1979

A introdução do cruzado, em fevereiro de 1986, trouxe nova série de moeda com a introdução de uma peça de 1 centavo, de 15 mm de diâmetro. Para se ter uma ideia, a primeira cotação do dólar em cruzados foi de Cz$ 13,84, o que conferia à moedinha o valor pouco acima de 1 milésimo de dólar.

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Em 1989, o cruzado novo entrou em paridade com o dólar. E trouxe também, na nova série de peças metálicas, sua moedinha de 1 centavo, com o boiadeiro; o câmbio do dólar chegou a NCz$ 11,30 ao final de 1989, o que mostra a depreciação da peça de 1 centavo. É sintomática a queda na cunhagem: 270,4 milhões de peças em 1989 (IR 1.829,5 pontos) e 1 milhão em 1990 (IR 6,6 pontos).

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O Brasil não veria outra moeda de 1 centavo até 1994, quando da entrada em circulação do real. A primeira versão, de aço inox, foi batida entre 1994 e 1997, e, em termos absolutos, foi a peça mais emitida da história da numária nacional, com 1,99 bilhão de peças. Individualmente, a peça de 1994, com 877,1 milhões, tem IR de 5.473 pontos, sendo, inicialmente a segunda moeda mais emitida da história da numária brasileira, perdendo apenas para a peça de 10 cruzeiros de 1991, com 947,9 milhões de exemplares, com IR de 6.198,8 pontos.

1 centavo 1994

A moeda de 1 centavo da segunda série do real, emitida entre 1998 e 2004, tem 1,2 bilhão de exemplares e marca também, com outras peças da série, a introdução do aço eletrorrevestido na numária.

1 centavo

Quadro sinóptico

Peças de um centavo emitidas no Brasil

1967 – cruzeiro novo, aço
1979 – cruzeiro, aço
1986 – cruzado, aço
1989 – cruzado novo, aço
1994 – real, aço
1998 – real, aço eletrorrevestido de cobre

Um redesenho do nosso IR

Há alguns dias, propusemos um índice de referência para dar uma ideia quantitativa da escassez ou da abundância de determinada peça de circulação comum.

A ideia inicial era simplesmente tomar a emissão anual (EA) de uma peça e dividi-la pela quantidade de habitantes (público possível; PP) estimada no país naquele ano, o que nos dá a quantidade de moedas per capita, multiplicado por mil, para não encher o índice de decimais.

A fórmula é:

IR = (EA/PP)*1000

Exemplo:

A moeda de 500 cruzeiros de 1992 teve emissão de 250 milhões de peças, segundo o catálogo Bentes. O PP, ou seja, a população do país naquele ano, está estimado em 155.379.000, logo, temos uma proporção de 1,61 peça/habitante, o que daria um IR de 1.610 pontos.

Quais seriam os desenvolvimentos, então? Resolvemos reduzir o índice a valores fixos, estipulando 0 para as moedas muito comuns e 1000 para as raras. Para isso, pesquisamos qual teria sido a moeda mais emitida no Brasil e o resultado foi a moeda de 10 cruzeiros de 1991, com 947,9 milhões de exemplares. Tendo em vista que a moeda foi emitida no auge do período inflacionário e que a tendência da população brasileira (e a demanda por moeda metálica) tende a estabilizar-se em 2036 (dado do IBGE), tomou-se essa peça como o número máximo possível.

Fazendo nosso IR inicial, teremos 6,198 peças/habitante, com um PP estimado em 152.916.900, o que dá um IR de 6.198,8. Como é a peça mais emitida, invertendo a escala, 6,2 peças/habitante será nosso 0.

Para o novo IR, fazemos:

IR = [(6,2-y)*1000]/6,2 , onde:

y = quantidade per capita da peça, como obtido no índice anterior

Vamos exemplificar com a peça de 500 cruzeiros de 1992, com emissão de 105 milhões para um PP de 157.802.200, o que dá 0,665 peça/habitante; logo:

IR = [(6,2-0,665)*1000]/6,2 = 740,5 pontos

Para entender o índice, recorremos a esta pequena escala; basta exemplificar com a metade superior:

índice

Esse índice que propomos não quer substituir as classificações existentes, mas sim ajudar o colecionador, principalmente o iniciante, a entender a lógica que torna uma moeda de circulação comum rara e/ou escassa.

Quantidade de moedas emitidas pelo BC: os números são confiáveis?

Mais uma vez a perspicácia do nosso leitor Rubens Bulad, que já nos havia alertado acerca de mudanças do gênero, trouxe oscilações curiosas na quantidade de moedas emitidas nos últimos anos. Até mesmo peças de 2009 tiveram seus valores alterados. Expomos aqui conforme levantamento do sr. Bulad.

10 centavos (2009): constava 205.748.000 e agora está em 470.016.000; aumento de 128%.

10 centavos (2012): de 454.464.000 para 444.288.000; redução de 2,24%.

10 centavos (2013): de 600.000.000 para 610.176.000; aumento de 1,7%.

25 centavos (2009): de 200.985.000 para 320 milhões; aumento de 159,2%.

1 real (2009): de 245.247.000 para 510.080.000; aumento de 208%.

1 real (2012): de 150.016.000 para 145.589.000; redução de 2,95%.

1 real (2013): de 400 milhões para 404.736.000; aumento de 1,2%.

A partir de 1º de setembro, este blogue manterá um registro mensal de monitoramento das quantidades de moedas emitidas divulgadas pelo BC. A que se devem tais oscilações? Auditoria? Vamos fazer uma investigação e tentar descobrir.

Mais uma vez os nossos agradecimentos ao sr. Bulad, que gentilmente compartilhou essas informações na nossa página do Facebook.Parte superior do formulário

 

2014, um ano não tão raro assim

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2014. Um ano raro? Não mais, pelo menos para a moeda de 10 centavos.

É notório que, inicialmente, as moedas brasileiras da era 2014 demoraram muito a aparecer. Habitualmente, as moedas de um ano costumam aparecer em circulação em meados do mesmo ano; as de 2014, com raras exceções, começaram a aparecer mais consideravelmente no primeiro trimestres de 2015.

Em um artigo nosso sobre a atualização das estatísticas do Banco Central, o leitor Rubens Bulad notou um fato muito curioso. A página atualizada já trazia as emissões de 2015 e as parciais para 2016 de duas peças (5 e 10 centavos); o que nos passou despercebido, mas não ao sagaz sr. Bulad, que nos alertou pelo Facebook, foi a alteração na quantidade de moedas cunhadas em 2014. Entre a versão atual da página e a anterior, recuperada pelo sr. Bulad, temos:

5 centavos. O número manteve-se em 166.400.000.
10 centavos. Passou de 21.312.000 para 126.528.000, aumentou 5,93 vezes.
25 centavos. Passou de 13.568.000 para 39.552.000, aumentou 2,19 vezes.
50 centavos. Passou de 6.048.000 para 56.112.000, aumentou 9,28 vezes.
1 real comum. Manteve-se em 11.904.000.

O sr. Bulad informou-nos ainda que a atualização da página do BC é de 31/7/2016.

Das estatísticas observadas, parece que apenas a moeda de 1 real comum continua com o status de “difícil”. Pelo índice de referência para peças comuns que estamos idealizando (mais detalhes aqui), a moeda de 1 real comum de 2014 aparece com 58,7 pontos; a de 5 centavos, mais emitida na data, tem índice de 820,6 pontos. Inicialmente, consideramos moedas de aquisição “complicada” as que apresentam índice inferior a 200 pontos, valor ainda conceitual.

Para os valores alterados:

10 centavos. Antes: 105 pontos; depois: 624 pontos.
25 centavos. Antes: 66,9 pontos; depois: 195 pontos.
50 centavos. Antes: 29,8 pontos; depois: 276,7 pontos.

A única peça dessas três que ainda ofereceria alguma escassez seria a de 25 centavos, mas já no limiar da escala.

Ficou curioso sobre o funcionamento do índice de referência? Trata-se de uma ideia experimental que está sendo desenvolvida por este blogue. Veja os detalhes aqui.

Clipping/Venezuela: ‘BCV anuncia emissão de cédulas de 500 e mil bolívares’

Do site Notilogía, 21/6/2016

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O Banco Central da Venezuela (BCV) prepara-se para pôr em circulação as novas cédulas de maior denominação, adaptando-se à situação atual dos venezuelanos, conforme informou de maneira extraoficial o canal NTN24. Sem dúvida, os economistas ratificaram que as cédulas não atenderão as expectativas, já que as emissões não sanarão as necessidades do país.

De maneira extraoficial, deu-se a conhecer que no decorrer das semanas o Banco Central da Venezuela anunciará a emissão das novas cédulas, de 500 e mil bolívares, com a ideia de redirecionar e distribuir os recursos.

Por outro lado, o deputado da Assembleia Nacional José Guerra assegurou que a cédula de maior denominação deveria ser de 2 mil bolívares, já que a crise econômica destruiu o poder aquisitivo dos venezuelanos.

Economistas reiteraram que a emissão da cédula de mil bolívares não basta para atender as necessidades do país, por conta da inflação alta e desvalorização constantes.

Clipping: ‘E se vier o peso federal? Vantagens e desvantagens da troca da moeda na Argentina’

O país mudou de moeda em várias oportunidades, deixando quantidades significativas de zeros pelo caminho: um total de 13

Por Nicolás Litvinoff

Original.

Terça-feira, 5 de fevereiro de 2013, 3h09

Há pouco mais de uma semana, o ex-vice-presidente, Julio Cobos, afirmou em uma entrevista de rádio que o governo estaria preparando a emissão de uma nova moeda, o peso federal, que substituiria o atual (e vilipendiado) peso conversível (que de conversível já não tem mais nada).

O que exatamente disse Julio Cobos?

Tudo começou com as declarações à Rádio El mundo, em 25 de janeiro último: “Até me chegou um comentário de que estão estudando a mudança da moeda, o peso federal ou algo parecido”.

No dia seguinte, vieram declarações mais detalhadas: “É uma das várias soluções para a inflação que chegaram ao Governo para terminar com essa espiral”. Contou que a informação lhe havia sido passada uns quinze dias antes em Buenos Aires. Disse ainda: “é uma versão mais, não lhe dei tanta importância; mas acredito que não é possível suportar mais esta situação inflacionária, e, por tal, o Governo deve tomar alguma medida. Seria algo parecido com o que ocorreu com o austral. A saída é estabelecer uma moeda que não se desvalorize, uma moeda forte”. E disse na sequência: “Entendo que buscam uma maneira de sair do enrosco, uma desvalorização programada, e voltar a valorizar a moeda”. Dois dias depois, em declaração a La Voz del Interior, disse: “o que me chegou de fontes relativamente confiáveis é que estaria entre as medidas para sair do atraso e da prisão cambiária. Estavam pensando em uma reforma da moeda, do peso. Até com nome, me disseram: ‘peso federal’”.

Ainda que Julio Cobos não faça mais parte do Governo, a maior parte da equipe que exerce o poder executivo continua a mesma. Ter sido o número dois dessa equipe seguramente garante um conhecimento que poucos mortais têm sobre o fincionamento “portas adentro” do atual governo. Como todo ex-funcionário, provavelmente o ex-vice-presidente mantém algum tipo de contato com funcionários (ou com subordinados ou assessores destes).

Tudo o dito anteriormente não garante a veracidade do rumor, mas serve para chamar a atenção para não descartá-lo imediatamente sem uma análise mais detalhada.

Breve história das mudanças de moeda na Argentina

A história das moedas argentinas

Os Estados Unidos adotaram o dólar como moeda oficial em 1792 (há 221 anos).

Os mais jovens poderiam pensar que aconteceu algo similar com o peso na Argentina. Mas quem tem já uns anos a mais sabe que o país mudou de moeda em várias oportunidades, deixando quantidades significativas de zeros no caminho: um total de 13.

Mas a essas modificações é preciso juntar uma tentativa fracassada: no final de 2001, David Expósito, economista e jornalista, chegou à presidência do Banco Nación após apresentar ao presidente Rodríguez Saá um plano para emitir uma terceira moeda: o argentino.

Essa nova moeda flutuaria em relação ao peso e ao dólar. O novo sistema monetário, com três moedas em circulação, teria sido similar àqueles que praticam países como Cuba e China.

A ideia, porém, fracassou, e Expósito deixou de ser presidente do Banco Nación apenas 48 horas depois de tê-lo assumido, logo depois de dar declarações à imprensa na que dava a entender que a nova moeda já nasceria desvalorizada.

Razões e potenciais do novo peso federal

O que diferencia uma moeda das demais mercadorias de uma economia?

Uma moeda tem certas funções e propriedades que nenhum outro bem pode ter:

Unidade de conta. É a função inicial, da qual derivam as outras, que permite representar as distintas mercadorias por um só elemento.

Meio de pagamento. É a função diferenciadora da moeda, que permite que as obrigações entre duas partes sejam canceladas de forma exata, sem que fique dívida alguma. Dado que os saldos entre operações de débito/crédito não são sempre de soma zero, a moeda permite eliminar esses saldos.

Meio de troca. Serve como intermediário para evitar os intercâmbios diretos de mercadorias por outras mercadorias.

Reserva de valor. Permite manter o poder de compra ao largo do tempo.

Dessas quatro atribuições, a última mencionada (reserva de valor) é uma das mais importantes e é, justamente, a disciplina pendente que o peso conversível tem na atualidade: a sensação de que os pesos derretem-se na mão de que os cobra é fruto do aumento de preços na ordem de 25% ao ano que estamos suportando há vários anos e que cria a necessidade de gastar as cédulas antes que percam poder aquisitivo.

Quais são as vantagens que o Governo poderia atribuir ao nascimento de uma nova moeda? Arriscando um pouco, poderíamos assinalar cinco:

1) Seria um reconhecimento implícito, por parte do Governo, de que a inflação é um problema real e que procurará combatê-lo. Essa medida poderia vir acompanhada de um controle de preços mais forte, baseado nos valores que surjam a partir da troca de pesos conversíveis por pesos federais (1 a 10 seria, talvez, uma boa medida, com a qual 100 pesos “de agora” passariam a ser 10 pesos “novos”).

2) Poderia solucionar o problema do transporte físico. Atualmente, para quem prefere pagar com dinheiro em vez de fazê-lo com cartão, a quantidade de cédulas que tem de levar para fazer a compra mensal no supermercado já é incômodo… sem falar quando se trata do comprador de um automóvel ou de um imóvel (será preciso ir com um caminhão de mudança).

3) Poderia resolver a questão da deterioração e das más condições das atuais cédulas de 2, 5, 10 e, principalmente, 50 pesos, que de tanto trocar de mãos encontram-se muito deteriorados.

4) Permitiria deixar de uma vez por todas a convertibilidade e faria com que a desvalorização de mercado que se está levando a cabo não pareça tão “sangrenta”, já que o dólar oficial passaria a valer (levando em conta o ponto 1) 50 centavos de peso deral, enquanto o blue valeria 80 centavos. Dessa maneira, o objetivo do paralelo talvez fosse chegar a 1 peso federal (10 pesos atuais) em algum momento posterior à mudança da moeda.

5) Poderia restaurar a confiança na moeda local, tão vilipendiada após anos sofrendo inflação de dois dígitos, ainda que seja de maneira momentânea.

Conclusão

Supondo que o novo peso federal perdesse um zero com relação ao peso atual, o câmbio ficar por volta de 0,80 peso federal/dólar. Notável coincidência com a marca de câmbio inicial do Plano Austral.

Segundo os últimos dados oficiais, as reservas do Banco Central são de US$ 42, 83 bilhões. Com a marca de câmbio mencionada, teríamos um meio circulante de aproximadamente 53 bilhões de pesos federais, que ficaria inicialmente lastreado pelas reservas. Se esse respaldo com reservar manter-se no tempo, a demanda de dólares como reserva de valor poderia diminuir substancialmente.

Mas para que uma medida dessas tenha êxito, há dois fatores que deveriam estar presentes: a abertura da prisão cambiária (não pode haver confiança na nova moeda se as restrições continuam) e, na sequência, um pacote de medidas anti-inflacionárias concretas.

A mudança de moeda seria um plano de choque anti-inflacionário, que poderia servir para mudar as expectativas, atualmente negativas, do peso.

Sem dúvida, é importante destacar que se trataria de um “câmbio artificial”, que tem um efeito mais psicológico que econômico.

Esse efeito de curto prazo deveria ser aproveitado para implantar políticas de longo prazo para que tenha alguma chance de êxito e para que não caia nos velhos erros do passado recente.

O que observar em uma moeda e como

As peças de uma coleção precisam ser caracterizadas, e, para isso, são necessários um vocabulário específico e instrumentos adequados.

Comecemos com a análise física. Dois tipos de instrumentos são necessários: um óptico, para observação de detalhes, e os de medição.

Dos instrumentos ópticos, o mais comum é a lupa, ou seja, uma lente de aumento com um cabo, que pode ser plástico ou metálico. Com ela é possível ver detalhes que seriam muito difíceis de serem individuados a olho nu; não que sejam invisíveis, mas que nossa vista não consegue distingui-los de modo adequado. Há ainda instrumentos mais precisos, como os óculos de joalheiro e os microscópios. Deste último tipo, há ainda os microscópios USB, excelentes para quem mantém informações armazenadas em meio digital.

À esq., lupa; à dir., acima, o microscópio USB; abaixo, os óculos de joalheiro

Com relação aos instrumentos de medição, há os famosos paquímetros, cuja precisão pode chegar a centésimos de milímetros. Há os paquímetros comuns, que não são nada mais que duas regras justapostas com uma janela de medição para a aferição das medidas dos submúltiplos do milímetro, de aço ou de plástico, e os eletrônicos.

Paquímetros “analógico” e digital

Para pesar as moedas, faz-se necessária uma balança de precisão. Há hoje no mercado pequenas balanças eletrônicas a bom preço. Há ainda as mecânicas, que são quase elas também objeto de coleção. Usa-se a balança de precisão porque as balanças que conhecemos, as de mercado, por exemplo, tem precisão entre 1 e 5 gramas. Haja vista que o peso das moedas orbita justamente nessa faixa, fica impossível distinguir variantes pelo peso, por exemplo, a diferença de peso que há entre as moedas de 1 real emitidas entre 1998 e 2001, com 7,84 g, e as emitidas a partir de 2002, com 7 g, que apresentam diferença inferior a 1 g.

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Minibalança de precisão

Com esses itens em mãos, o que observar?

Diâmetro. O tamanho da moeda de ponta a ponta. Mede-se com o paquímetro e se expressa em milímetros.

Espessura. A altura do disco. Expressa-se também em milímetros.

Peso. Em gramas, mede-se com a balança de precisão.

No exame visual, podemos ver as características do bordo, se é liso, serrilhado, com serrilha intermitente, com inscrição, ornamentado, etc.

Grande parte das moedas atuais é redonda, ou seja, é uma circunferência, mas há países que emitem moedas em outros formatos. O Reino Unido, por exemplo, tem a famosa threepence bit, emitida entre 1938 e 1970, que é um polígono regular de doze lados, ou seja, um dodecágono, uma moeda de forma dodecagonal. O mesmo país ainda tem as atuais moedas de 20 e 50 pence, que são heptagonais, ou seja, formam um polígono de sete lados, um heptágono. Também a Argentina emitiu peças dodecagonais nos anos 1960.

À dir., peça dodecagonal de três pence; à esq., moeda de 50 pence heptagonal

A cor do metal pode fornecer-nos pistas sobre a composição das moedas. Vamos às principais cores e metais.

Prateado. Há de se ter cuidado: nem tudo que é prateado é prata. Aliás, moedas de prata após a década de 1960 não são de circulação comum. Na paleta do prateado, temos, claro, a prata, que, para circulação comum, costuma ser mais fosca, além da sua pátina peculiar, que, em estados de conservação excelentes, fica azulada, o que os colecionadores chamam de pata de elefante.

Em sentido horário, $100 de cuproníquel, 100 cruzeiros de aço inox, 20 cruzeiros de alumínio e um xelim sul-africano de prata

Para substituir a prata, criou-se uma liga binária, o cuproníquel, que estreou na numária com moedas belgas, na década de 1860. O cuproníquel padrão é composto por 75% de cobre e 25% de níquel, ou melhor, 750 milésimos de Cu e 250 milésimos de Ni — é assim que se indica a composição das ligas, em milésimos (‰) —; embora o cobre seja avermelhado, o aspecto de uma peça de cuproníquel é prateada. O Brasil, por exemplo, usou continuamente o cuproníquel de 1870 a 1942, novamente entre 1967 e 1978 e na moeda de 50 centavos e no disco interno da moeda de 1 real emitidas entre 1998 e 2001. Com a circulação, o cuproníquel adquire um aspecto escurecido.

O alumínio também apresenta aspecto prateado. Nas moedas brasileiras emitidas entres 1956 e 1965, ele apresenta aspecto fosco. O metal distingue-se dos outros pela sua leveza. Por exemplo, o aço inox 430, usado para moedas, tem o peso específico de 7,7 g/cm3, enquanto o alumínio puro apresenta 2,6 g/cm3.

O aço inoxidável, liga de ferro, carbono e cromo, também apresenta aspecto prateado, mas muito brilhoso. No Brasil, as moedas desse metal começaram a ser emitidas em 1967, com um breve hiato entre 1998 e 2001. Nossa atual moeda de 50 centavos é de aço inox.

Dourado. O tom dourado, além do ouro, claro, aparece em moedas de latão (liga de cobre e zinco em proporções variáveis) e bronze-alumínio (liga ternária de cobre, alumínio e zinco). Este último foi muito usado no Brasil entre 1922 e 1956. A alpaca, liga ternaria de Cu, Zn e Ni, pode apresentar coloração fracamente dourada, como aparece no anel da moeda de 1 real entre 1998 e 2001. Há ainda o ouro nórdico (saiba mais sobre essa liga aqui), usado nas moedas de euro, e o bronze fosfórico, usado nas moedas de 10 e 25 centavos de real brasileiro.

No primeiro quadrante, à esq., 1 real, com anel de alpaca dourada, e logo abaixo, peça de três pence de latão, à dir., 2$ de bronze-alumínio; abaixo à esq., peça de ouro do antigo Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia), à dir., 10 coroas suecas de ouro nórdico

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10 centavos de real com eletrorrevestimento de bronze fosfórico

Vermelho. É o tom do cobre e do bronze quando em peças FDC (flor de cunho). Moedas de cobre puro não são batidas no Brasil desde 1833. Foram substituídas pelo bronze em 1868; o bronze é uma liga binária de cobre e estanho, com predominância do primeiro. Nossas moedas atuais de 1 e 5 centavos são eletrorrevestidas de cobre, embora tenham a alma (o miolo) de aço baixo-carbono. Com a circulação, a gordura das mãos faz com que o cobre crie um óxido de cor acastanhada.

À esq., o farthing (um quarto de penny) de bronze; à esq., dois exemplares de 5 centavos de real com eletrorrevestimento de cobre já oxidado pela circulação

Rosado. O tom rosado geralmente aponta para um tipo específico de cuproníquel com 880‰ Cu e 120‰ Ni; a proporção confere ao metal a coloração rosada. Essa liga foi usada no Brasil entre 1942 e 1944 e é conhecida nos meios numismáticos como níquel rosa.

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Anverso de moeda de cruzeiro de níquel rosa

Uma proposta de índice de referência de raridade para peças comuns

É fato que os índices de raridade usados pelos catálogos deixam a desejar no que se refere a como tal moeda foi classificada como rara, escassa ou comum. Por conta dessa necessidade, começo a pensar em um sistema numérico, um índice de referência (IR) para termos uma noção de quão rara é uma peça. Claro que o sistema que começo a pensar é deficiente em vários pontos, mas pode ser uma luz para desenvolvimentos futuros.

A correlação básica é entre a população cliente quando da emissão da peça, ou seja, seu mercado de circulação, e a quantidade de peças emitidas. Vamos ao primeiro cálculo com exemplo.

A moeda de 50 cruzeiros de 1985 teve 180 milhões de exemplares batidos para uma população estimada, à época, de 136.836.400 pessoas, segundo estimativas do Banco Mundial. Dividindo o número de peças pelo número de habitantes, teremos 1,32 peça/habitante.

Fazendo a mesma operação com os $500 de 1930, temos 146 mil peças para uma população estimada em 35 milhões de pessoas, o que nos dá um índice de 0,004 peça/habitante. Como esses decimais são muito incômodos no trato, resolvemos adotar o critério de 1 peça/habitante = 1.000 pontos. Assim, os 50 cruzeiros de 1985 têm um IR de 1.320 pontos, enquanto os $500 de 1930, 4 pontos.

O sistema aqui proposto tem vários problemas. Apenas para ilustrar, o primeiro deles seria a falta de séries anuais de população, já que os censos são feitos a cada dez anos, e há mesmo alguns intervalos de 20 anos. Como temos o índice de crescimento entre os censos, pode-se criar uma tabela de estimativas fracionando o percentual pelos anos do intervalo afinal, buscamos um índice de referência, não uma estatística precisa.

O bom desse tipo de indexação é uma noção razoável da proporção do número das peças. A moeda de 50 cruzeiros de 1985 é indicada como C.2 no Catálogo Bentes, ou seja, muito comum. Sabemos, então, que os 1.320 pontos no nosso IR equivalem a uma moeda muito comum, a peça de $500 de 1930 têm 4 pontos, indicada no Bentes como C.1 (comum), parece não responder exatamente à qualificação de comum.

O mesmo vale para a peça de $500 de 1932, comemorativa do 4º centenário da colonização, o famoso coletinho. Não é possível que uma peça com 34.214 exemplares para uma população então de 35,75 milhões (estimada) possa ser considerada simplesmente como C.1 (comum). O índice que propomos atribui-lhe 0,9 ponto, o que indica que ela é 4,4 vezes mais rara que os $500 de 1930.

Temos algumas moedas problemáticas na nossa numária, como a série MCMI. Ela foi emitida entre 1901 e 1917 sem alteração de data. Teríamos que fazer uma média da população no período; as quantidades registradas pelos censos de 1900 e 1920 são 17.438.434 e 30.635.605 habitantes, respectivamente. Considerando a média de 24.037.019,5 habitantes no período, para a moeda de $400, com 26,5 milhões de peças emitidas, teríamos um índice de 1,10 peça/habitante. Como as emissões anuais são indistinguíveis, ficamos com um IR de 1.100 pontos.

Essa pontuação seria, inicialmente, uma espécie de índice de referência básico (IR-B); penso ainda em adicionar outras variáveis, como o fato de a moeda não ser mais circulante, o tempo que ela não circula mais, por exemplo, para maior precisão do valor.

Inicialmente, pensamos que uma moeda com índice inferior a 200 seria uma peça com algum tipo de dificuldade em ser obtida.

Os colegas e confrades fiquem livres com opiniões para aperfeiçoar esse mecanismo.

Clipping: ‘A terceira moeda argentina não convence’

Enquanto o novo presidente da Argentina, Adolfo Rodríguez Saá, consolida-se no poder, os investidores expressaram seu ceticismo com relação à proposta de introduzir uma moeda paralela para ajudar a Argentina a sair da limitação monetária que atrela o valor do peso ao do dólar.

Por Matt Moffett e Michelle Wallin readatores de The Wall Street Journal

26 de dezembro de 2001

A ideia que Rodríguez Saá e seus assessores explicaram consiste em atribuir liquidez à economia sem quebrar com a convertibilidade, o que conduziria a uma traumática desvalorização do peso. O sistema de convertibilidade proíbe a impressão de moeda se não houver reservas em dólar para lastreá-la. Isso limita a capacidade do governo em promover qualquer tipo de injeção monetária que permitisse à Argentina sair da recessão em que se encontra há quatro anos.

O plano incluiria a emissão do que seria tecnicamente um bônus negociável, em vez de uma moeda. Mas tal conceito parece ser inspirado no que já fizeram várias províncias argentinas, que pagam seus funcionários púbicos e prestadores de serviço com bônus que são usados como moeda de curso legal. Mais de US$ 1 bilhão desses bônus já estão em circulação; o principal exemplo é o chamado patacón, emitido pela província de Buenos Aires. Carlos Ruckauf, governador bonaerense, disse que o volume do novo instrumento do presidente da República superaria o dos bônus provinciais em circulação emitidos pelas províncias sem dinheiro. A ausência de uma autoridade federal obrigou cada província a emitir sua própria moeda, disse Ruckauf.

Mas os críticos dizem que essa imensa quantidade de bônus na Argentina corre o risco de sair do controle. Na província de Córdoba, há já quatro tipos de moedas ou bônus em circulação. Alguns investidores estrangeiros dizem estar consternados pela nova proposta de moeda e por outras ideias econômicas de Rodríguez Saá. Ignacio E. Sosa, da One World Investments LP, diz que o plano enfraquece o valor do peso e, eventualmente, tornaria ainda mais dolorosa uma desvalorização. A combinação de imprimir distintas moedas, caso a convertibilidade seja mantida, é simplesmente uma receita para o desastre, diz. Tudo o que fizeram foi postergar o dia do juízo final.

Essas são as más notícias para os detentores de bônus, já que significa que o Estado terá menos dinheiro para pagar seus credores.

Os investidores expressaram suas preocupações na segunda-feira, no dia seguinte à posse de Rodríguez Saá, quando alguns bônus baixaram à cota de US$ 0,25.

José de Mendiguren, presidente da principal organização empresarial do país, conhecida como União Industrial Argentina, disse que o anúncio de Rodríguez Saá marcou o fim da rígida lei de convertibilidade de 1991.

Disse ainda que, enquanto a UIA reconheceu que a “terceira moeda” poderia ajudar a estimular a demanda, essa não era o substitutivo de um sistema monetário permanente e mais flexível. É uma medida provisória para movimentar a economia, disse.

Hernán Fardi, economista da consultoria Maxinver, diz que os economistas argentinos cogitaram a ideia de uma terceira moeda para sair da convertibilidade. Mas sua grande preocupação é se o clima político instável permitirá ao governo emplacar alguma medida econômica que tenha sucesso.

Pamela Druckerman contribuiu neste artigo.

N. do T.: chegou-se mesmo a nomear a natimorta moeda como argentino. Rodríguez Saá foi presidente da Argentina exatamente por uma semana, entre 23 e 30 de dezembro de 2001, no vácuo de poder produzido pela renúncia de Fernando de la Rúa e seu vice. As declarações dadas pelo então presidente do Banco da Nação Argentina, David Expósito, sobre a irresponsabilidade da medida, custou-lhe o cargo, que ocupou por 48 horas.

Artigo original.

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O argentino morreu no ventre, mas aí está um chamado patacón, bônus emitido pela província de Buenos Aires para cumprir com suas obrigações financeiras.