Moedas da FAO

Em 1968, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations) deu início a um projeto para emissão de moedas com o tema da produção de alimentos. Naquele ano, mais de 20 países participaram emitindo peças temáticas.

O Brasil emitiu peças no seio desse programa em três ocasiões: 1975, 1985 e 1995, sempre coincidindo com o aniversário decenal da FAO, fundada em 1945.

A primeira emissão brasileira constava de três moedas: 1, 2 e 5 centavos, emitidas entre 1975 e 1978. Todas as peças traziam o anverso comum da série, da efígie da República. No reverso, a de 1 centavo trazia a cana-de-açúcar; a de 2, a soja; e a de 5, a cabeça de um boi; as moedas apresentavam ainda a inscrição “alimentos para o mundo”.

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Emissão FAO brasileira (1975-1978).

A segunda emissão deu-se em 1985, nos valores de 1 e 5 cruzeiros, cujos anversos foram redesenhados para a ocasião, mas trazendo os mesmos “homenageados”, o cana e o café, respectivamente. Também constava a inscrição “alimentos para o mundo”.

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Emissão FAO 1985: à esq., peça de 1 cruzeiro; à dir., a de 5.

A terceira emissão foi em 1995, com as moedas de 10 e 25 centavos da primeira família do real; a celebração deu-se com a mudança no anverso das peças. A moeda de 10 centavos mostra duas mãos formando uma concha com um punhado de terra, do qual brota uma planta; abaixo: “FAO  1945/1995” e “Alimentos para o mundo”, além da inscrição “Brasil”. Na de 25 centavos, um lavrador debruçado tratando de uma planta folhosa, com as mesmas inscrições.

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Emissão FAO 1995. À esq., 25 centavos; à dir., 10.

Depois dessa data, o Brasil não emitiu mais peças no âmbito do programa, que foi extinto pela FAO em 2008.

Neste link, em inglês, uma resenha sobre o FAO Coins International Catalog, do colecionador italiano Atilio Armiento.

Logo, as emissões FAO brasileiras somam 12 peças: 1, 2 e 5 centavo (1975, 1976, 1977 e 1978), 1 e 5 cruzeiros (1985) e 10 e 25 centavos (1995).

Clipping: ‘Nova cédula de 200 pesos do Bicentenário da Independência da Argentina’

Do Diario La Provincia, 26 de abril de 2016.

A estátua da Liberdade – da artista tucumana Lola Mora – com uma bandeira argentina presa à falda do vestido é a imagem vencedora do concurso lançado pelo Legislativo da Província de Tucumã para ilustrar a futura cédula de 200 ARS, proposta que faz parte das atividades oficiais organizadas por motivo do Bicentenário da Independência.

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Protótipo da cédula de 200 ARS

A imagem principal mostra a revoada de pombos brancos e, ao fundo, a Casa Histórica com parte da ata da Declaração da Independência, de 1816. No anverso, dois símbolos tucumanos: um menir – ícone da cultura tafi – e uma árvore de queñua [Polylepis rugulosa], espécie característica da serraria local.

O trabalho escolhido pelo júri foi feito pelos irmãos Luis Acardi Lobo – um advogado de 34 anos – e María Susa Acardi Lobo – estudante do último ano de Desenho Gráfico da UNSTA [Universidade do Norte Santo Tomás de Aquino], de 27 anos –, que receberam um prêmio de 50 mil ARS em dinheiro.

Agora, o modelo da cédula será enviado, por meio de um projeto de resolução, ao Congresso da Nação para que os representantes tucumanos promovam a aprovação e a impressão pelo Banco Central.

“O concurso superou nossas expectativas, já que recebemos 134 propostas que se destacaram pela criatividade e originalidade”, afirmou o legislador Marcelo Ditinis, um dos promotores do projeto, com o radical Ariel García.

N. do T.: parece que a cédula de 200 ARS mostrando a baleia-franca-austral vai ficar de lado.

Flotilha numismática

Hoje escolhemos algumas moedas que trazem embarcações. Há gente que coleciona moedas por temas, e o tema pode ser-lhe interessante.

Em primeiro lugar, o meio penny pré-decimal britânico, que circulou no Reino Unido até 1968. O reverso traz o galeão “Golden Hind”, que foi comandado pelo capitão sir Francis Drake e ficou conhecido pela viagem de circum-navegação do globo, entre 1577 e 1580. Chamava-se originalmente “Pelican”, mas seu capitão mudou seu nome no meio da célebre viagem. A gravação é obra de Thomas Paget, em 1937. Aparentemente drapejam no galeão uma bandeira escocesa (à esq.) e uma irlandesa enquanto nação constituinte do Reino Unido (à dir.); ao centro, a flâmula naval inglesa.

g2066fO anverso da moeda de 5 pesos (1961-8) traz a fragata ARA Presidente Sarmiento. O famoso navio de fabricação britânica serviu à Armada Argentina de 1898 até 1961. Desde 1964 é um navio-museu e está ancorado em Puerto Madero, Buenos Aires. É habitualmente confundido com outro navio-escola argentino, o ARA Libertad, que está na marinha desde 1963.

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A nossa moedinha de 1 centavo (1998-2004) traz no anverso, além da efígie do navegador português Pedro Álvares Cabral, uma nau, de velas quadradas, costumeiramente confundida com uma caravela, que tem velas triangulares.

1 centavo

As moedas portuguesas de 2$50 (1963-85), 5 (1963-86) e 10 escudos (1971-4) mostram no anverso uma caravela. A moeda de 50 escudos (1986-2000) traz no anverso uma nau estilizada.

À esq., anverso comum das moedas de 2$50, 5 e 10 escudos; à esq., o anverso da peça de 50 escudos

A moeda de 5 patacas, de Macau, traz, no reverso, diante das chamadas ruínas de São Paulo, um tradicional junco chinês.

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Reverso da moeda de 5 patacas

As moedas cipriotas são pródigas em embarcações. Associando sua tradição grega e o fato de ser uma ilha, Chipre cunhou trirremes em várias peças.

No alto, à esquerda, o anverso comum das peças cipriotas de 10, 20 e 50 cêntimos de euro; à direita, no alto, 5 mils de alumínio (1982); abaixo, 5 mils de bronze (1963-80); em baixo, 100 mils (1955 e 1957)

Quantas moedas desde 1942?

Desde 1942, tivemos várias moedas e muitas peças foram emitidas. Quantas exatamente? Contemos.

Vamos nos limitar a alterações, sem contar as emissões por ano.

O primeiro cruzeiro (1942-65) soma 20 peças.

O cruzeiro novo/segundo cruzeiro (1967-86), 33. Já são 53.

O cruzado (1986-8) deu-nos 11 moedas. Temos 64.

O cruzado novo/terceiro cruzeiro (1989-93), 16. São 80 moedas.

O cruzeiro real (1993-4) presenteou-nos com 4 peças. São 84.

A primeira família do real (1994-7), 8 moedas. Somam-se 92.

A segunda família do real (desde 1998), incluindo todas as comemorativas, somam 137.

Esta lista inclui alterações de anverso ou reverso (principalmente na primeira série do primeiro cruzeiro) e mudanças de metal (na primeira série do segundo cruzeiro), mas não a questão dos monogramas (na primeira série do primeiro cruzeiro) ou as eras das peças.

Os múltiplos e submúltiplos de 2 na numária brasileira

Primeiramente, alguns conceitos básicos. Em tese, as moedas de submúltiplos são planejadas de modo a uma quantidade determinada delas ser equivalente à unidade. Por exemplo, em nosso atual sistema centesimal:

A moeda de 1 centavo equivale à fração 1/100; com cem delas forma-se 1 real;

A moeda de 5 centavos equivale à fração 5/100, ou 1/20; com 20 delas forma-se 1 real;

A moeda de 10 centavos equivale à fração 10/100, ou 1/10; com dez delas forma-se 1 real;

A moeda de 25 centavos equivale à fração 25/100, ou 1/4; com quatro delas forma-se 1 real;

A moeda de 50 centavos equivale à fração 50/100, ou 1/2; com duas delas forma-se 1 real.

Note-se que os valores base são 1, 5 e 10, sendo os outros derivados: 25 = 5.5; 50 = 5.10. Todos redutíveis a uma fração de numerador 1.

No que se refere à numária brasileira, é interessante notar a presença esporádica de submúltiplos de 2. Na primeira (1942-56) e segunda (1957-61) séries, além da série das pequeninas (1956), do primeiro cruzeiro, tivemos moedas de 20 centavos e 2 cruzeiros. A terceira série (1965) teve uma moeda de 20 cruzeiros. Os 20 centavos formam a fração 1/5; a peça representante 1/5 voltaria ainda na primeira série do segundo cruzeiro (1967-79), que trouxe ainda a única moeda de 2 centavos que tivemos na nossa história, cuja fração é 1/50.

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A única moeda de 2 centavos da numária brasileira

A segunda série (1979-86) do segundo cruzeiro, embora pulasse o valor de 2 cruzeiros, trouxe-nos uma moeda de 20. A terceira série (1985-6) teve também uma moeda de 200 cruzeiros.

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20 cruzeiros (1981)

A série do cruzado (1986-8), herdeira estética dessa terceira série do segundo cruzeiro, trouxe a moeda de 20 centavos, mas não uma de 2 centavos ou uma de 2 cruzados, ficando como única representante dos múltiplos e submúltiplos de 2.

A partir de 1989, com a introdução do cruzado novo, o 2 foi definitivamente banido da numária brasileira.

Porém, com a criação do real, em 1994, entrou uma variante de submúltiplo de base 5, a peça de 25 centavos, formando a fração 1/4, novidade absoluta na numária brasileira.

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A arte final da segunda moeda de 25 centavos (1998)

O Brasil teve ainda valores submúltiplos menos ortodoxos, como os $400, equivalentes a 2/5 da unidade, introduzidos em 1901, e os $300 (3/10), introduzidos em 1936, irredutíveis a uma fração de numerador 1, o que significa que é impossível, com uma quantidade x de peças, atingir exatamente a unidade.

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300 réis (1936)

Há frações de numerador 1 comuns em outros países, como a Venezuela, que teve em períodos de sua história a peça de 12½ cêntimos, a chamada locha, que equivale a 1/8 da unidade, ou os Países Baixos, que tiveram a moeda de 2½ cent, equivalente à fração 1/40.

Na imagem maior, 15 copeques da URSS; à dir., no alto, 15 cêntimos do Paraguai; abaixo, 12 1/2 cêntimos da Venezuela

Há países que emitiram moedas cuja fração não era de denominador 1, como o Paraguai (15 cêntimos, fração 3/20) ou a URSS, com as moedas de 3 (3/100) e 15 copeques (3/20).

A base 2 nas cédulas

Nas estampas das cédulas do primeiro cruzeiro (1942-66), havia cédulas de 2 (Duque de Caxias), 20 (Marechal Deodoro) e 200 cruzeiros (Pedro I). Com a aceleração da inflação, entre o final dos anos 1950 e começo dos 1960, foi emitida a cédula de 5 mil cruzeiros, e não de 2 mil, o que quebrou com a sequenciação da base 2.

No cruzeiro novo, embora as moedas tivessem valores de base 2, as cédulas da primeira família não seguiam o mesmo padrão, inclusive na parte estética. As cédulas eram de 1, 5, 10, 50 e 100 cruzeiros, com lançamento posterior de uma cédula comemorativa de 500 cruzeiros.

A segunda família do segundo cruzeiro trazia uma cédula de 200 cruzeiros, com tons verdes e arroxeados, que circulou na primeira metade dos anos 1980.

A última cédula de base 2 antes do real foi a comemorativa de 200 cruzados novos/cruzeiros, que celebrava o centenário da República, lançada em 1989.

Somente em 2001 o Brasil voltaria a ter uma cédula de base 2, com o lançamento da peça de 2 reais. No ano seguinte, deu-se a introdução da cédula de 20 reais.

Clipping: ‘Novas moedas suecas’

23 de setembro de 2012, de Numismática Visual.

O Banco Central da Suécia apresentou a nova série de moedas “pequenas e leves” que serão postas em circulação em outubro de 2016.

Uma nova moeda de 2 coroas será introduzida, além da atualização das peças de 1 e 5 coroas; a moeda de 10 seguirá sendo a mesma [veja aqui sobre o metal da moeda de 10 coroas].

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As moedas foram desenhadas pelo [escultor sueco] Ernst Nordin, com o tema “O sol, o vento e a água”, que simboliza o amor dos suecos pela natureza, além de ser título de uma famosa canção.

Na imagem abaixo, vê-se a diferença de tamanho entre a atual e a futura moeda de 5 coroas.

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Abaixo, os desenhos rejeitados.

As ‘circulares’

designs que podemos dizer que fizeram escola na numária brasileira. Um deles começa com as moedas de 100 e 200 réis de cuproníquel de 1871, e a 50, introduzida posteriormente. Claramente inspiradas na moeda de 20 cêntimos belga, elas perduraram de 1871 a 1889; infelizmente não se sabe que as peças imperiais. As versões republicanas foram feitas até 1900; as de 100 e 200 réis é obra de Francisco José Pinto Carneiro. Chamo esse design do anverso de “circular”.

Cem réis (1871) e 20 cêntimos (Bélgica, 1860)

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100 réis republicanos (1889-1900), com os dizeres condizentes com o novo regime

Outras inspiradas nesse conceito de um círculo dentro das peças são as moedas de 20 e 40 reis batidas de 1889 a 1912. Também se desconhece quem as teria gravado. O curioso foi que os novos desenhos para as peças de 20 e 40 réis são claramente inspiradas nas moedas de 50, 100 e 200 de cuproníquel, visto que essas duas peças tinham aspecto diferente no período imperial.

Reverso das peças de 20 e 40 réis (1889-1912)

A nova série de cuproníquel introduzida em 1918 (20, 50, 100, 200 e 400 réis), com alguma licença poética para a de 20 réis, seguem esse padrão. Tampouco se sabe quem as gravou.

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400 réis da série 1918-1935

O fato de apenas ser conhecido um gravador, para as moedas de 100 e 200 réis de 1889-1900, mostra que esse design do anverso é uma espécie de padrão genérico. Pode-se apostar que o gravador fez o anverso e apenas “revisou” o reverso.

As séries que se seguiram são obras dos discípulos de Girardet, como Arlindo Bastos, Basílio Nunes, Benedito de Araújo Ribeiro, Calmon Barreto de Sá Carvalho, Francisco José Pinto Carneiro, Hermínio José Pereira, João da Cruz Vargas, Leopoldo Alves de Campos, Orlando Moutinho Maia, Walfrido Bruno Trindade e Walter Rodrigues Toledo.

Trinca nas moedas entre 1942 e 1956

Não é incomum vermos peças da primeira família (1942-1956) do cruzeiro com um tipo de rachadura. Nosso confrade Valdir Luiz Holtman tem uma teoria que parece explicar bem o fenômeno. Tendo experiência na laminação de metais, Holtman afirma que tais rachaduras podem ser fruto da laminação da liga a frio.

A laminação a frio é feita com pressão, ou seja, quando o bloco ou fita de metal passa por rolos para ser transformado em lâminas, das quais se extraem os discos. Não podemos afirmar que o tipo de laminação tenha mudado, mas não conhecemos moedas cunhadas a partir de 1967 com tal defeito, ou pelo menos tão visível.

Fotografias: cortesia V. L. Holtman