O peso e o tamanho da cruz

Em 16 de janeiro de 1989, o velho cruzado saiu de cena, sendo substituído pelo cruzado novo na razão de 1:1.000, ou mais um “corte de três zeros”. A reforma foi um dos itens dentro do chamado Plano Verão, implantado pelo então ministro da Fazenda do governo Sarney, Maílson da Nóbrega.

A Resolução do Conselho Monetário Nacional nº 1.565, de 16/1/1989, além de oficializar a reconversão monetária, dispõe sobre o novo meio circulante a entrar em circulação a partir de 30/4/1989. Originalmente, havia a previsão de quatro peças: 1, 5, 10 e 50 centavos, “com temática centrada em tipos e aspectos do Brasil” (CNM, 1989). Moedas, aliás, esteticamente muito interessantes.

Da esq. para a dir.: reverso e anverso da peça de 1 centavo; anversos das peças de 5, 10 e 50 centavos.

Com a posse de Fernando Collor de Mello como presidente da República, em 15 de março de 1990, assumiu o Ministério da Fazenda Zélia Cardoso de Mello, que, no dia seguinte, pôs em vigência o Plano Brasil Novo, popularmente conhecido como Plano Collor. Além das várias medidas macroeconômicas para contenção da inflação, uma de ordem cosmética: pela Resolução CNM nº 1.689, de 18 de março de 1990 (retroativa a 16/3, data estabelecida pela Medida Provisória nº 168, de 15/3/1990), a moeda voltava a chamar-se cruzeiro. Não houve reconversão. Simplesmente 1 cruzado novo passou a ser 1 cruzeiro, a terceira vida da moeda.

A mudança, não obstante ser cosmética, acarretou em mudanças nas cédulas. As notas de 100, 200 e 500 cruzados novos traziam a expressão cruzados novos, que foi alterada para “cruzeiros”. A de 50 cruzados novos nem chegou a ser retocada, embora o art. 4º da Resolução CMN nº 1.689 o previsse inicialmente, ficando apenas com o carimbo retangular previsto pelo mesmo dispositivo legal (CNM, 1990). Um dos imperativos, provavelmente é o fato de, em 13/3/1990, o dólar ter chegado à cota de NCz$ 38,197, além de a mesma resolução, em seus arts. 6º 7º e 8º, prever já o lançamento da moeda de 50 cruzeiros para depois o final de 1990, o que acabou ocorrendo em dezembro (BACEN, 1990).

Como já dito, as quatro moedas divisionárias do cruzado novo foram previstas pela Resolução CNM nº 1.565, mas ficou faltando a peça auxiliar de 1 cruzado novo. Emitiu-se, em 8 de novembro de 1989, uma moeda desse valor que comemorava o centenário da República, mas não uma peça comum.

Porém, com o novo governo, o novo plano e a nova unidade monetária, apareceu a peça equivalente, a de 1 cruzeiro, na Resolução CNM nº 1.689.

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Peça de 1 cruzeiro emitida em 1990.

Se os projetos gráficos das peças de cruzado novo foram apresentadas ao CNM no fim de novembro de 1988 (CNM, 1989), porque não havia a ideia de uma moeda auxiliar? No fim desse mês, um dólar americano valia Cz$ 585 (que seriam, logo mais NCz$ 0,585); quando do corte de zeros, em 16/1/1989, o dólar valia exatamente NCz$ 1 (ou Cz$ 1.000), valor que o governo conseguiu manter congelado até meados de abril; quando da simples passagem de cruzado novo para cruzeiro, o dólar valia Cr$ 38.

Em resumo, a vida do cruzado novo foi curta, um ano e dois meses. Porém, lembremo-nos que o Plano Collor foi algo meio abrupto, incluindo mesmo o confisco de aplicações bancárias.

Nossos catálogos trazem uma moeda muito rara; os colecionadores batizaram-na de “Cruz de Cristo”. Trata-se de uma moeda de 1 cruzado novo, com era 1990, aparentemente pensada para circulação comum; o Catálogo Bentes 2014 indica a existência comprovada de 15 exemplares (MALDONADO, 2014). Há quem diga que, com a troca de padrão monetário, as moedas já batidas teriam sido enviadas à Acesita para refundição.

A polêmica “Cruz de Cristo”.

O reverso da “Cruz de Cristo” é praticamente igual ao das peças divisionárias, ao contrário do da moeda de 1 cruzeiro que acabou saindo no lugar. No anverso, um mapa do Brasil atravessado por uma cruz estilizada que lembra muito a da Ordem de Cristo, daí o nome que lhe atribuíram.

Porém, um detalhe no Catálogo Bentes chama muito a atenção. Na Portaria CMN nº 1.689, a peça de 1 cruzeiro é descrita como tendo 20,5 mm de diâmetro; a massa, no site do Bacen, é de 3,61 g. É de se imaginar que a “Cruz de Cristo” tivesse as mesmas dimensões; o Bentes 2014, porém, indica-nos essa moeda como tendo 19,5 mm de diâmetro e massa de 2,83 g, o que coincide, no próprio catálogo e na listagem on-line do Bacen, com a moeda de 50 centavos de cruzado novo.

A “Cruz de Cristo” teria o mesmo tamanho da moeda de 50 centavos? Acredito ser muito improvável. Já que o Catálogo Amato não nos traz as dimensões e o Krause não registra a peça em questão, onde poderíamos conseguir alguma informação?

Já que a moeda foi batida, é possível que seu projeto tenha sido apreciado pelo CNM entre 1989 e o começo de 1990; é pena essas atas não estarem disponíveis na internet.

Eis uma polêmica muito similar ao caso da Bromélia.

Referências

BACEN – Banco Central. Comunicado nº 2.249, de 11/12/1990. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/normativo.asp?numero=2249&tipo=Comunicado&data=11/12/1990>. Acesso em 21 fev. 2017.

CNM – Conselho Monetário Nacional. Resolução nº 1.565, de 16 de janeiro de 1989. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/42039/Res_1565_v2_L.pdf>. Acesso em: 21 fev. 2017.

______. Resolução nº 1.689, de 18 de março de 1990. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/44905/Res_1689_v1_O.pdf>. Acesso em 27 fev. 2017.

MALDONADO, R. Moedas Brasileiras – Catálogo Oficial. 2. ed. revista e atualizada. Itália: MBA Editores, 2014. p. 970.