O cuproalumínio – uma história brasileira breve (1922-1956)

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Reverso dos $500 comemorativos do centenário da Independência (fonte: http://amadiocoins.com/catalog/coin/2119)

Entre 1922 e 1956, o Brasil emitiu moedas “amarelas”, que alguns mais velhos diziam ser de latão. Trata-se, na verdade, o cuproalumínio, liga binária de cobre e alumínio, também chamada, com alguma imprecisão, de “bronze de alumínio” ou “bronze-alumínio”. Optamos por usar a nomenclatura cuproalumínio por esta ser mais condizente a uma liga, como o cuproníquel, p. ex., e porque a palavra bronze dá uma ideia errada, já que esta palavra designa a liga de cobre e estanho como componentes majoritários; o latão, citado mais acima, também aponta para outra liga, de cobre e zinco.

O cuproalumínio como metal de cunhagem aparece no Brasil em 1922, com as emissões de 500 e mil réis, comemorativas do centenário da Independência. Essas peças deveriam ter sido batidas em prata, como os valores prévios o foram, mas a escassez de prata no primeiro pós-guerra levou o governo brasileiro a adotar um metal novo, usado desde o ano anterior na França.

Inicialmente, a liga foi apresentada pelo químico francês Henri de Sainte-Claire Deville, em 1854 (HORNE, 2013, p. 104). Em 1913, um relatório do Senado da França traz o tema da fabricação de moedas de níquel perfuradas, efetivamente fabricadas a partir de 1913 (25 cêntimos) e 1914 (5 e 10 cêntimos, conhecidas hoje como Lindauer, pelo nome do gravador, Edmond-Émile Lindauer).

Mas o mesmo relatório, datado de 24 de junho de 1913, traz que desde 1909 estufavam-se ligas de cobre e alumínio para substituir as moedas de denominação mais baixa, principalmente as de bronze (5 e 10 cêntimos).

A escassez de prata, como dito acima, levou o governo francês a emitir “fichas” de cuproalumínio no valor facial de 50 cêntimos, 1 e 2 francos, as chamadas peças Dommard. Chamamo-las de “fichas” porque, embora tenham sido moeda de facto, tratou-se de uma emissão “dissimulada”; a autoridade emissora não era oficialmente o Banco de França, mas as “Câmaras de Comércio da França”; essas peças foram batidas até 1927 e tal comportamento de emissão foi reproduzido nas possessões e colônias francesas; em 1931, a cunhagem de cuproalumínio foi “oficialmente” emcampada pelo Estado, que emitiu as peças Morlon no mesmo valor, que resistiriam até a invasão alemã (1940).

No Brasil, a liga aparece em 1922, nas pelas de $500 e 1$ que celebravam o centenário da Independência. As peças deveriam ser de prata (BRASIL, 1920), porém o valor do metal impossibilitou a emissão desses valores faciais (MALDONADO, 2014, p. 827). O Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922, estatuiu que a liga a ser usada seria de cobre e alumínio (BRASIL, 1922a); um decreto de 19 de agosto do mesmo ano estabelecia as características das peças. A liga estabelecida é 910 milésimos de cobre e 90 milésimos de alumínio.

Para a nova série introduzida em 1924, as moedas de $500 e 1$, com novos anversos e reversos, mantém as características físicas estabelecidas para as peças da Independência do mesmo valor.

Art. 1º As moedas nacionaes de prata do valor de 2$ e as de cobre e aluminio dos valores de 1$ e 500 réis, que se cunharem de ora em deante conservarão o peso, liga, tolerancia e modulo já determinados em leis, e obedecerão aos caracteristicos seguintes:

[…]

As moedas de cobre e aluminio dos mencionados valores terão no anverso a figura de Céres, ornada por 21 estrellas, symbolizando os Estados e na frente da figura o Cruzeiro do Sul; no reverso os ramos de café e algodão, com o valor no centro, por cima a estrella da União, encimada pela palavra – Brasil, e por baixo a éra do cunho. (BRASIL, 1924)

Essas moedas serão batidas de 1924 a 1931. Aparentemente, é a primeira aparição do Cruzeiro do Sul fora de ornamentação heráldica, como ocorreu até então.

Em 1932 foi emitida a chamada série Vicentina, que comemorou os 400 anos do início da colonização do Brasil. As peças de cuproalumínio têm as mesmas características físicas das anteriores, segundo o art. 3º do Decreto nº 21.358, de 4 de maio de 1932. É curioso notar que essas duas peças da série Vicentina são consideradas difíceis de encontrar por sua baixa tiragem: 34.214 exemplares para a $500 e 56.214 para a de $1 (MALDONADO, 2014); seu valor financeiro alto faz com que empresas chinesas entupam o mercado numismático com “réplicas”.

Art. 3º A liga monetária das moedas de cobre-alumínio e de niquel, seu valor, peso e módulo e bem assim as tolerâncias permitidas serão os mesmos das atuais moedas dessa espécie. (BRASIL, 1932).

A liga, inicialmente denominada apenas cobre e alumínio, passa a ser um substantivo composto ligado por hífen: cobre-alumínio.

Em 1935, aparece a chamada 1ª emissão da 1ª série dos Brasileiros ilustres. O decreto que faz referência a elas fala sobre a alteração da liga no caput, mas não diz quais seriam.

O Chefe do Govêrno Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil usando das atribuições que lhe confere o art. 1º do decreto n. 19.398, de 11 de novembro de 1930, e atendendo ao que lhe representou o ministro da Fazenda sôbre as técnicas de alterar a tolerância da atual moeda de 2$000 e a composição das de 1$000 e $500, (BRASIL, 1934).

As alterações seguintes virão com o Decreto nº 565, de 31 de dezembro de 1935, que cria a chamada 2ª emissão da 1º série de Brasileiros Ilustres. São reduzidos os módulos das peças de $500 e 1$ e cria-se uma nova, a de 2$. O artigo 2º do decreto uma tabela em que a liga é estipulada: 900 Cu, 80 Al e 20 Zn (BRASIL, 1935). É possível que a composição da 1ª emissão da série seja essa também.

Nessa mesma liga seriam batidas as moedas de $500, 1$ e 2$ da 2ª série de Brasileiros Ilustres (1939), as de 1, 2 e 5 cruzeiros (1942-1943) e todas as moedas de cruzeiro entre 1943 e 1956.

Seguiu-se um período de reinado absoluto do alumínio (1957-1965), que possivelmente nos deu as peças mais feias da numária brasileira. A partir de 1961-2 começa um período extremamente confuso da nossa política econômica e, consequentemente, da nossa numária, em que o diz-que-me-diz tomou conta do noticiário. Entre as várias moedas que nunca viram a luz havia projetos de novas peças de cuproalumínio, inclusive para o valor de 5 cruzeiros, o valor “maldito” do padrão cruzeiro — depois, em outro texto, explicaremos esse “maldito”.

Com a criação do cruzeiro novo, em 1966, e a introdução de uma nova família de moedas de aço, cuproníquel e níquel em 1968, o cuproalumínio sumiu da numária brasileira, ao que parece, para nunca mais voltar.

* * *

BRASIL. Decreto nº 4.182, de 13 de novembro de 1920.

BRASIL. Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922. 1922a.

BRASIL. Decreto nº 15.620, de 19 de agosto de 1922. 1922b.

BRASIL. Decreto nº 16.409, de 12 de março de 1924.

BRASIL. Decreto nº 21.358, de 4 de maio de 1932.

BRASIL. Decreto nº 24.527, de 16 de maio de 1934.

BRASIL. Decreto nº 565, de 31 de dezembro de 1935.

HORNE, P. M. de. Dictionnaire de chimie: une approche étymologique et historique. De Boeck: [s/l.], 2013.

MALDONADO, R. Moedas Brasileiras – Catálogo Oficial (1500-2014). Ischia: MBA Editores, 2014.

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2 comentários sobre “O cuproalumínio – uma história brasileira breve (1922-1956)

  1. Dia desses conversando com um senhor, disse me ele ter moedas de prata que ninguém da valor. Me mostrou algumas… pasmei e até achei hilário, eram moedas de 50 centavos da segunda família do Real, as primeiras.Agora falando de material para se vingar moedas penso que todas deveriam ser de “AÇO”

  2. Entendo a frustração, Geraldo. Quando comecei a “juntar” moedas, no final dos anos 80, até o meu pai achava que os “patacões” (moedas de 400 réis de 1901 a 1938) eram de prata, quando eram, como as primeiras moedas de 50 centavos (1998-2001), de cuproníquel.
    Quanto ao material, acho que o Brasil deveria voltar ao aço inox numa terceira família: são mais duráveis, conservam um aspecto limpo e é, sim, possível fazer belas peças nele.

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