Quanto vale a minha moeda – 3

Muita gente continua vindo a este blogue para saber o valor de suas moedas. Sem entrar em quantificações específicas, vamos dar algumas dicas nesse sentido. Já avisamos que não fazemos avaliações; logo, não peçam avaliações nos comentários.

Moedas brasileiras do século XX dificilmente têm algum valor monetário relevante, o que, claro, não impede colecioná-las. Lembre-se de que o século XX foi pródigo em inflação, e que as moedas, principalmente após os anos 1920, passaram a cumprir a função que hoje têm: a de dinheiro miúdo para troco.

Para termos uma ideia da desvalorização da moeda, vamos tomar como base o valor de 1$ (um mil-réis). Em janeiro 1901, o valor era representado por uma moeda de prata 11 dinheiros (916,6 milésimos), de 30 mm e 12,75 g, e valia 10 pence (0,04 libra esterlina). Em 1906, a peça passou a ser de prata 900 milésimos, com 26 mm de diâmetro e 10 g; naquele ano, comprava 1 shilling e 3 pence (0,063 libra); em 1922, a peça passa a ser de cuproalumínio (910 Cu-90 Al), com 26,7 mm e 8 g, o que já começa a caracterizar o mil-réis mais como moeda fiduciária. O câmbio médio de 1922 foi de 7½ pence (0,031 libra). Em 1936, a moeda passa a ter 24,5 mm e 7 g, infelizmente não temos a informação de câmbio, mas a desvalorização é visível. Em 1942, 1$ passa a ser 1 cruzeiro, moeda de cuproalumínio com 23 mm de diâmetro e 7 g, padrão que se manterá até 1956, quando é brevemente substituído por uma moedinha de 19 mm e 4 g, para ser, a partir de 1957, uma peça de alumínio de 23 mm e 2,7 g, que sobreviverá até 1961. Isso mostra bem a desvalorização monetária entre 1901 e 1961; com a reforma de 1967, o valor de 1 cruzeiro passa a ser 1 milésimo de cruzeiro novo, e usado apenas como moeda de conta. Assim o mil-réis foi da prata à inexistência.

O fato de uma moeda ser “antiga” não garante nada. Há peças com mais de cem anos que foram emitidas aos milhões; ou seja, há possivelmente um caminhão delas por aí. O fato de você nunca a ter visto (impressão pessoal) não a valoriza; nem o fato de ela estar no meio das coisas do seu avô. As pessoas mais velhas tinham o costume de juntar as moedas conforme elas iam perdendo valor. E outra: millennials acham que algo feito nos anos 1980, por ser anterior a seu nascimento, é necessariamente valioso. Basta lembrar que entre 1979 e 1997, por conta das altas taxas de inflação, só foram batidas moedas de aço, o metal de cunhagem mais abundante no Brasil. As peças metálicas feitas até 1994 tinham poder de compra reduzidíssimo, bastando lembrar que a moeda mais alta do último padrão antes do real, a peça de 100 cruzeiros reais, foi convertida para real na astronômica cifra de R$ 0,0275, ou seja, 2 centavos e 75 décimos-milésimos, ou 2¾ centavos de real.

Outro fator é observar as moedas batidas após 1939: temos moedas de cuproalumínio, cuproníquel, alumínio, níquel e aço, muito aço. São materiais baratos. É claro que estão fora dessa conta as peças comemorativas, como os 20 e 300 cruzeiros do Sesquicentenário da Independência, de 1972, de prata e outro, respectivamente, e os 10 cruzeiros dos dez anos do Banco Central (1975) e os 200 cruzados novos do Centenário da República (1989), ambas de prata. Essas não foram moedas feitas para circulação comum.

Moedas do século XX podem atingir valores interessantes se tiverem reverso invertido, ou seja, na posição contrária ao inicialmente previsto, ou reverso horizontal; ou ainda algum defeito de cunhagem. Há algumas exceções, como a presença de siglas nas primeiras moedas de cruzeiro (1944-6), mas é preciso consultar um catálogo para avaliá-las. Ou ainda se forem algum ensaio ou prova, ou seja, protótipos de moedas que não foram feitos para circulação.

Tampouco uma moeda, simplesmente por ser de prata, atingirá valores astronômicos. Há centenas de anúncios no Mercado Livre em que gente sem o conhecimento ou a consultoria adequada pede verdadeiras fortunas por peças relativamente comuns. Você pagaria, digamos, R$ 100 mil em um Fusca 85? Ou R$ 500 em um PF?

Então, antes de pôr algo a venda, procure informar-se. Não é porque se pede R$ 20 em uma moeda de 10 cruzeiros de 1984 ela efetivamente valha isso.

Outro dado muito importante é a conservação das peças; dependendo da moeda, ela só terá algum valor monetário se estiver em FC (flor de cunho), que é mais ou menos do jeito que ela sai da Casa da Moeda, ou seja, intocada.

Há várias questões envolvidas, mas dificilmente uma moeda brasileira emitida no século XX para circulação atingirá valores com mais de três dígitos.

Abaixo, uma lista resumida de moedas extremamente comuns:

  • 100, 200 e 400 réis da série MCMI (cuproníquel)
  • 20, 50, 100, 200 e 400 réis (1918-1935) de cuproníquel. Os valores de 20 e 50, se com data superior a 1927-9, são de interesse do mercado.
  • 500 e mil réis (cuproalumínio) do Centenário da Independência (1923)
  • 500 e mil réis (1924-1930 – cuproalumínio)
  • 100, 200, 400 e 2 mil réis da série Vicentina (1932). As peças de 500 e mil réis têm alta procura.
  • Peças emitidas de mil-reis entre 1936 e 1942.
  • 10, 20, 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1942-56 – níquel rosa e cuproalumínio)
  • 5 cruzeiros (1942-3 – cuproalumínio)
  • 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1956 – cuproalumínio)
  • 10 e 20 centavos (1956-61 – alumínio)
  • 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1957-61 – alumínio)
  • 10 e 20 cruzeiros (1965 – alumínio)
  • 50 cruzeiros (1965 – cuproníquel)
  • 1, 2 e 5 centavos (1967-78 – aço)
  • 10 e 20 centavos (1967-78 – cuproníquel e aço)
  • 50 centavos (1967-78 – níquel, cuproníquel e aço)
  • 1 cruzeiro (1970-8 – níquel e cuproníquel)

A partir daqui, são todas de aço:

  • 1 cruzeiro (1979-85)
  • 5 cruzeiros (1980-5)
  • 10, 20 e 50 cruzeiros (1980-6)
  • 100, 200 e 500 cruzeiros (1985-6)
  • 1, 5, 10, 20, 50 centavos e 1 e 5 cruzados (1986-8)
  • 10 cruzados (1987-8)
  • 1, 5, 10 e 50 centavos (1989-90) – Obs.: as moedas e 1 e 5 centavos de 1990 são difíceis de conseguir, consequentemente podem valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 1 cruzeiro (1990)
  • 5, 10 e 50 cruzeiros (1990-2)
  • 100, 500 e 1.000 cruzeiros (1992-3)
  • 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (1993-4)

Primeira família do real:

  • 1 centavo (1994-7)
  • 5 centavos (1994-7)
  • 10 centavos (1994-7) – em 1995 foi emitida uma moeda comemorativa dos 50 anos da FAO, que pode valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 25 centavos (1994-5) – em 1995 foi emitida uma moeda comemorativa dos 50 anos da FAO, que pode valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 50 centavos (1994-5)
  • 1 real (1994)

Há ainda fatos mais recentes, como a moeda de 1 real dos 50 anos da Declaração Universal do Direitos Humanos, que tem, por conta de especulação, alcançado valores próximos de R$ 100, o que é um fato estranho, pois sua tiragem foi de 600 mil exemplares. Do centavinho (1979-83) foram batidas 100 mil peças de cada ano, e dificilmente a série completa de cinco peças sai por mais de R$ 40.

Portanto, antes de anunciar valores absurdos, veja o que você tem em mãos. E consulte os catálogos.

Anúncios

4 comentários sobre “Quanto vale a minha moeda – 3

  1. Ola!
    encontrei na casa do meu avo, uma boa coleção (media de 250 moedas…desde Reis a comemorativias…mais antiga datada em 1853 no valor de 1000 Reis..tem tb centavos antigos, moedas de outros países.. planilhei todas com valor e data… gostaria de saber se poderia te enviar para vc dar uma avaliada.
    Obrigada

    • Bom dia, Joanna. Como foi dito ao final do primeiro parágrafo do texto, nos não fazemos avaliações; somos apenas um blogue de informação numismática.

  2. Muito interessante a matéria do sr. Sergio Mendes do dia 03 de abril desse ano. Resumo sucinto, bem feito e esclarecedor a aqueles que se enganam consultando as mídias oferecendo produtos a preços fora da realidade. Perde o interesse o colecionador iniciante, que na busca por consultar numismáticos na internet depara-se com preços surreais.
    Parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s