1º de julho

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Peça de 1 real emitida em 2015, com o motivo do cinquentenário do Banco Central

Com algum atraso lembramos uma data importante: 1º de julho. E ela é importante por dois motivos.

O primeiro é que, nessa data, entrou em vigor o padrão monetário real, que veio coroar um plano de estabilização econômica que tirou o Brasil do vórtice hiperinflacionário que teve início ainda nos anos 1980. Padrão que, no dia de hoje, atinge 28 anos e dois dias. Trata-se do segundo padrão mais duradouro do período pós-1942; o primeiro é o primeiro cruzeiro, vigente de 1º de novembro de 1942 a 11 de fevereiro de 1967, o que contabiliza 24 anos, três meses e 11 dias; o real chegará a essa marca em 11 de outubro de 2018.

O outro é o lançamento das moedas da segunda família, que completou 24 anos de circulação e de fabricação. Trata-se da segunda série brasileira mais longeva, à frente da série de cobre da República (1889-1912, quase 23 anos), da série “redonda” de cuproníquel (1919-35, dezesseis anos) e da primeira série do primeiro cruzeiro (1942-56, quase catorze anos).

Embora a segunda série de peças metálicas do real, em minha opinião, não é a mais bela produzida pela Casa da Moeda, é, sem dúvida um triunfo da estabilização econômica.

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Clipping – Essas moedas do Donbass são realmente dinheiro?

Por Richard Giedroyc (Numismaster), 10 de julho de 2017
Original.

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Possíveis moedas de 20 rublos (latão), 10, 5, 3 rublos e 1 rublo (alumínio)

Nem todas as moedas são criadas da mesma maneira. Algumas são de curso legal; outras são de curso legal, mas não circulantes. Outras definitivamente não são aceitas como dinheiro.

Se tais moedas são realmente dinheiro é a questão que se levanta neste momento sobre moedas emitidas recentemente identificadas como sendo do Donbass, região da Ucrânia ocupada por tropas russas. O Donbass inclui as regiões de Donetsk e Luhansk, no leste da Ucrânia. Trata-se de uma região carvoeira e com indústria pesada que faz limite com a terra natal histórica dos cossacos do rio Don.

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Mapa mostrando a Ucrânia e as regiões citadas. A mancha mais acima é o Donbass; a inferior, a Crimeia.

Os sobressaltos ocorridos no Donbass tiveram seu pico em 2014, como repercussão da queda política da Revolução Laranja ucraniana, em que um governo pró-Russia foi substituído por um nacionalista. Separatistas declararam a República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk como Estados independentes. O fato seguiu-se pela anexação forçada pela Rússia, não obstante as objeções da Ucrânia.

A Ucrânia usa como base de seu sistema monetário a grívina (hryvina), moeda emitida pelo Banco Nacional da Ucrânia. A República da Crimeia, controlada pela Rússia, anunciou o abandono da moeda ucraniana e a adoção do rublo russo em 21 de março de 2014. Cidadãos locais tiveram até 1º de julho daquele ano para usar ou trocar suas grívinas.

As regiões secessionistas de Donetsk e Luhansk (autodenominadas em conjunto Donbass) no decorrer do conflito com a Ucrânia continuaram a usar a grívina, não obstante o rublo seja também aceito com menos frequência. A Rússia vê Donetsk e Luhansk da mesma maneira que a Crimeia.

Em novembro de 2014, os aposentados locais, desamparados, não tinham dinheiro, não obstante o sistema monetário dual extraoficial. A República Popular de Luhansk adotou o rublo russo como sua moeda oficial “majoritária” em 1º de março de 2014. O câmbio oficial em Luhansk é de 2 grívinas para 1 rublo. Há noticiais de falta severa de meio circulante metálico.

A questão que nos aparece agora é o status de uma série de cinco moedas com o nome do Donbass, era 2015. As moedas são de 1, 3, 5, 10 e 20 rublos. As quatro denominações menores são de alumínio, enquanto que a de 20 rublos é de latão. As peças de alumínio mostram um trabalhador em estilo socialista quebrando correntes com um grande martelo. A moeda de 20 rublos mostra a representação idealizada de um fazendeiro e sua esposa, outra reminiscência das moedas da era comunista com o tema “trabalhadores do mundo”.

Alguns vendedores de moedas estão oferecendo essas moedas em FDC, mas o status dessas como valor legal é uma dúvida. O uso delas como dinheiro no Donbass não pôde ser confirmado na época em que este artigo estava sendo escrito [julho de 2017].

Há um número surpreendente de itens numismáticos emitidos recentemente que envolvem o Donbass. Em 2006, a Rússia lançou uma medalha “Pela restauração das minas de carvão do Donbass”.

Em 2008, uma ficha ou medalha de “1 região” do Donbass sugere uma denominação, mas que nunca teve valor legal.

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Ficha de “1 região”, de 2008.

Uma peça de 5 grívinas de 2013, de liga de níquel e prata, marca os 70 anos da libertação da região (então conhecida como Stalino) das mãos dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

Em 2014, a medalha ucraniana Ordem dos Cem Heróis Celestiais, FDC e acobreada, foi chamada de moeda, mas falta-lhe a denominação. Ela foi emitida em 31 de março de 2014 por um grupo pró-Luhansk “em memória das centenas de heróis que morreram nos trágicos eventos em Kiev, durante a revolução, no inverno de 2014”.

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“Moeda” da Art-Grani

Pela mesma época, Vladimir Vasyukhin, chefe da companhia Art-Grani, emitiu uma medalha em que o presidente russo, Valdimir Pútin, aparece no anverso; no reverso, há um mapa da península da Crimeia, atualmente ocupada pelas tropas russas; a Art-Grani chama a medalha de moeda. De acordo com Vasyukhin, “A reunificação da Crimeia com a Rússia foi um evento histórico que nos decidimos materializar em uma coleção de moedas-suvenir”.

A isso seguiu-se a emissão das cinco moedas de 2015. À época de cunhagem, a casa da moeda de origem não pôde ser confirmada.

Nota: as figuras não constavam do texto original e foram incluídas pelo tradutor.

A inflação e os projetos de redenominação monetária (1961-65)

A inflação vinha em alta desde 1958. Em 1957, o índice anual registrado foi de 7%, o mais baixo desde 1948; mas, no ano seguinte, ele retoma a trajetória de crescimento, fechando em 24,4%; o ano de 1959 registrou 39,4%, o mais alto desde 1930; em 1964, chegou-se a 92,1% (MUNHOZ, 1997).

Frente a esse cenário, a depreciação do meio circulante era inevitável. Se em 1951 1 dólar americano oscilava entre Cr$ 26 e Cr$ 33, em dezembro de 1955, a divisa estrangeira atingia a marca de Cr$ 67,36. Sempre em dezembro, em 1957, foram Cr$ 91,70/dólar; em 1958, Cr$ 140,40. Em 5 de novembro de 1959, a moeda americana cotava-se a Cr$ 198,50[1]. Se pensarmos que, nesse momento, a cédula mais alta era a de Cr$ 1.000, ela apenas comprava 5,04 dólares; a peça metálica de maior valor então circulante, 2 cruzeiros, valia pouco mais de um cent. Claro que é preciso atentar-se ao poder de compra das moedas: 1 dólar de 1959 equivale a US$ 8,18 em 2016, logo, esses Cr$ 1.000 equivaleriam a US$ 41,22 (jan 2017) e, logo, a R$ 130, aproximadamente[2].

Proposições de reforma

O panorama inflacionário aumentou o custo dos materiais de cunhagem, como vimos no capítulo anterior, forçando a substituição do cuproalumínio pelo alumínio.

Ainda no governo Jânio (janeiro a agosto de 1961) começaram a aparecer iniciativas parlamentares para a redenominação da moeda, inspirados aberta ou dissimuladamente na reforma feita pouco antes pela França, em virtude da política de estabilização da economia francesa, o chamado plano Pinay-Rueff, em que 100 francos passaram a ser 1 franco novo, a partir de 1º de janeiro de 1960[3]. É preciso lembrar que, no Brasil, nesse momento, não havia ainda Banco Central, e que políticas econômicas, e até mesmo emissão monetária, estavam sujeitas aos humores parlamentares.

Apresentamos aqui, sumariamente, esses projetos, em ordem cronológica.

Projeto Vasconcelos Torres: o novo cruzeiro ou cruzeiro forte

O Projeto de Lei (PL) nº 2.878/1961 é do deputado João Batista de Vasconcelos Torres (1920-82; PSD-RJ). O texto, de 20 de abril de 1961, propunha a instituição do novo cruzeiro ou cruzeiro forte; o art. 2º do PL informa que as peças metálicas seriam 1, 2, 5, 10, 20 e 50 centavos e 1 NC[4] de “metal comum” e 2 e 5 NC de prata. Cabe notar que as emissões de prata haviam cessado em 1938, com as últimas peças de 5$, que traziam Santos Dumont no anverso.

O projeto tem uma longa e enfadonha justificativa, versando sobre teorias econômicas e sociológicas, pondo como base das relações econômicas o capital e, como “medida natural” para esses valores, a moeda; o parlamentar pretende reverter o quadro inflacionário por meio da política monetária, e cita como exemplos recentes o Chile[5], a Rússia[6] e a França — novamente.

As moedas do novo cruzeiro são especificadas, mas não as cédulas, embora estas sejam citadas en passant; tampouco se explicita qual seria o fator de conversão do cruzeiro para o novo cruzeiro proposto, como bem aponta o parecer lúcido de Casemiro Antônio Ribeiro, então chefe do Departamento Econômico (Depec) da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), órgão do Ministério da Fazenda e predecessor do Banco Central. O parecer, em ofício datado de 4 de novembro de 1961, consta do PL e expõe que a adoção de uma nova unidade monetária teria, nos termos em que se punha, alcance psicológico, mas que o projeto era, em suma, vago.

Do exposto, infere-se que a simples intuição de uma unidade monetária nova, como medida isolada, não iria trazer maior contribuição aos objetivos colimados no projeto, quais sejam o fortalecimento interno da moeda e o saneamento do meio circulante. Para tanto indispensável se torna que juntamente com a referida medida se adotem outras de longo alcance, que propiciem às autoridades responsáveis pela política econômico-financeira meios para atingir-se a estabilização monetária. (Casemiro Antônio Ribeiro, no Ofício Depec 95/61, constante no PL 2.878/1961).

Pela tramitação confusa e pela realidade perceptível, vê-se que o tal PL não resultou em nada; o projeto foi arquivado em 21 de março de 1963.

Projeto Ramos Viera: o brasão

Em 1963, vamos ter duas proposições. A primeira é o PL nº 864/1963[7]; de autoria do deputado Laerte Ramos Vieira (1925-; UDN-SC), inspirava-se também na redenominação feita na França e indicava que o brasão equivaleria a 100 cruzeiros. O curioso é a “precisão” numismática do projeto: o art. 3º informava que as moedas seriam:

  • 200 brasões; ouro, 34 mm, 18 g, com a efígie de Tiradentes;
  • 100 brasões; ouro, 28 mm, 9 g, Rui Barbosa;
  • 50 brasões; prata, 30 mm, 12 g, Barão do Rio Branco;
  • 20 brasões; prata, 26 mm, 8 g, Duque de Caxias;
  • 10 brasões; prata, 24 mm, 6 g, José Bonifácio; e
  • Peças de 1, 2, 5, 10, 20 e 50 centavos, de outros metais não especificados, com 17 mm, 19 mm, 21 mm, 23 mm, 25 mm e 27 mm, respectivamente, trazendo, os três valores menores as Armas da República, e os três maiores o mapa do Brasil[8], os mesmo motivos que vinham ornando as moedas desde 1942.

Esse projeto busca a reintrodução do bimetalismo a uma taxa de aproximadamente Cr$ 1,1 mil por grama de ouro e Cr$ 416 por grama de prata. O parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), de 20 de setembro de 1963, exarado pelo deputado Aliomar Baleeiro (1905-78; PSD-GB) e apenso à documentação, embora afirme que de inconstitucional o projeto nada tem, frisa “sua inconveniência como política legislativa, por ser inóculo relativamente à inflação”, além de citar a inutilidade de emissão de moedas de metal precioso, que, já naquela época, “desapareceriam, expulsas pelo papel aviltado”[9]. É curioso o deputado Baleeiro citar no parecer a escassez de prata nos EUA; parece até que ele pressentiu o Coinage Act de 1965[10].

Em 22 de outubro de 1963, a CCJ vota e aprova o parecer do relator. Ao que parece, o projeto estancou-se na Comissão de Economia; o deputado Alde Sampaio (1894-1987; UDN-PE), relator escolhido, informa ser incapaz de opinar sobre um projeto cuja base é a “volta ao padrão ouro”, já que o próprio Sampaio é autor de um projeto “que institui o sistema monetário à base do papel-moeda”. Sampaio, tendo em vista sua biografia, parece-nos uma pessoa apta a opinar sobre o tema, uma vez que tem ligação com a então nascente área de pesquisa econômica no país[11]. O projeto termina por ser arquivado em 25 de maio de 1964.

Projeto Peixoto da Silveira: o cruzeiro novo

Não se engane o leitor: ainda não se trata da reforma que efetivamente ocorrerá em 1967. O PL nº 909/1963[12], de 21 de agosto, da lavra do deputado José Peixoto da Silveira (1913-87; PSD-GO), basicamente propõe a instituição de um padrão monetário chamado cruzeiro novo nos mesmos moldes do novo franco, em que 1 cruzeiro novo equivaleria a 100 cruzeiros “antigos”. Na documentação do referido projeto há a tradução da Ordenança nº 58-1341, de 27 de dezembro de 1958, e do Decreto nº 59-1313, de 18 de novembro de 1959, que instituem o novo franco no país europeu, além de um longo relatório sobre o franco, também traduzido.

Porém, ao contrário do plano Pinay-Reuff, o projeto do deputado Peixoto da Silveira preocupava-se apenas com a “estética”, ou seja, com a quantidade de unidades, sem ter por base um plano de estabilização econômica, o que era mais necessário naquela ocasião. Tanto que, na justificativa do PL, o próprio parlamentar admite: “Este projeto visa, em última análise, cortar dois zeros em nossa nomenclatura monetária. Nada mais” (grifo nosso).

Projeto Noronha Filho: o cruzado

Em setembro de 1964, ou seja, já após a “Revolução”, o deputado Oscar Noronha Filho (1916-2015; PTB-GB), que assumira lugar na Câmara após a cassação de Leonel Brizola pelo AI-1, propunha uma moeda chamada cruzado, também na base 1:100 com o cruzeiro; e isso com mais de vinte anos de antecedência do cruzado implantado em 1986 pela equipe capitaneada pelo ministro Dilson Funaro. O PL nº 2.321/1964[13] prevê moedas de 1, 2, 5, 10, 20 e 50 cêntimos, que teriam 17, 19, 21, 23, 25 e 27 milímetros, respectivamente — curiosamente os mesmos valores e dimensões do brasão do projeto Vieira e a mesma equivalência em tamanho às moedas do Decreto-Lei nº 4.791, de 1942, que implantou o cruzeiro. O art. 7º do PL indica que as moedas — e também as cédulas — terão as mesmas características estéticas das peças do primeiro cruzeiro, mas valendo cem vezes mais. Imagine-se a confusão que teria sido caso o projeto tivesse vingado: a moeda de 1 cêntimo de cruzado, equivalente a 1 cruzeiro, teria as mesmas dimensões da moeda de 10 centavos de cruzeiro emitida entre 1942 e 1956 e a mesma liga da emitida entre 1942 e 1943. Seria também uma possível reintrodução do níquel rosa (vide capítulo I), já que a referência é ao Decreto-Lei de 1942, e não ao de 1943, que alterou a liga.

O parecer da CCJ, do deputado Osni de Medeiros Régis (1917-91; PSD/SC), datado de 29 de setembro de 1964, aprova o projeto quanto à constitucionalidade, mas com ressalva em relação ao mérito. Basta citar que se trata de mais um projeto “cosmético”, que altera o padrão monetário sem, contudo, estabelecer uma estratégia para atacar os motivos da onda inflacionária, inversamente ao que fez o governo francês, que primeiro estabilizou a economia para depois alterar o padrão monetário. No mesmo dia, a CCJ aprova o parecer do relator.

O projeto terminou arquivado, em 10 de março de 1967.

Último ato

Em 1965, o governo, entre outras medidas, cria o Banco Central e programa a introdução do cruzeiro novo, equivalente a mil cruzeiros antigos, que se tornaria efetiva em 1967.

 


 

Referências

BRASIL. Projeto de Lei nº 864/1963. 1963a. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=9B800D338DEA7D0464A26C4BD5E0767C.node1?codteor=1198249&filename=Avulso+-PL+864/1963&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

______. Projeto de Lei nº 909/1963. 1963b. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=6A11EE597B556C8F27EDC8551746F621.proposicoesWeb2?codteor=1198292&filename=Avulso+-PL+909/1963&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

______. Projeto de Lei nº 2.321/1964. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1196222&filename=Dossie+-PL+2321/1964&gt;. Acesso em: 28 mar. 2018.

______. Projeto de Lei nº 2.878/1961. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=88022C97192B2A06494436A63470EA5A.proposicoesWeb1?codteor=1203329&filename=Avulso+-PL+2878/1961&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

CHÉLINI, M.-P. Le plan de stabilisation Pinay-Rueff, 1958. Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine, Paris, nº 48/4, Belin, 2001, p. 102-123. Disponível em: <https://www.cairn.info/revue-d-histoire-moderne-et-contemporaine-2001-4-page-102.htm&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

CURRENCY REFORM 1961. Presidential Library, s. d. Disponível em: <https://www.prlib.ru/en/history/618911&gt;. Acesso em: 28 mar. 2018.

EUA – Estados Unidos da América. Public Law 89-81 (Coinage Act of 1965). 23 jul, 1965. Disponível em: <https://fraser.stlouisfed.org/scribd/?title_id=1123&filepath=/files/docs/historical/congressional/coinage-act-1965.pdf&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

MUNHOZ, D. G. Inflação brasileira – Os ensinamentos desde a crise dos anos 30. Economia Contemporânea, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, jan.-jun. 1997. p. 59-87. Disponível em: <http://www.ie.ufrj.br/images/ pesquisa/publicacoes/rec/REC%201/REC_1.1_03_Inflacao_brasileira_os_ensinamentos_desde_a_crise_dos_anos_30.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2018.

 

Notas

 

[1] “Mercado de taxa livre”. Correio da Manhã, 6 nov. 1959. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&pesq=cota%C3%A7%C3%A3o%20do%20d%C3%B3lar&gt;. Acesso em: 09 jan. 2017.

[2] O cálculo foi efetuado com auxílio da ferramenta para tal fim do Dollar Times (http://www.dollartimes.com/inflation/dollars.php); o valor do dólar foi considerado R$ 3,16 (cotação de 9/1/2017).

[3] CHÉLINI, 2003.

[4] É o símbolo que o PL propõe para o tal novo cruzeiro no parágrafo único do art. 1º; assim mesmo, sem r ou $.

[5] O governo de Jorge Alessandri (1958-64) substituiu, em 1º de janeiro de 1960, o desvalorizado peso chileno pelo escudo, na razão de 1:1.000; a mudança foi embasada em medidas econômicas.

[6] A então URSS cortou um zero de sua moeda em 1º de janeiro de 1961, ou seja, 1 rublo “novo” equivalia a 10 “antigos”. Além de mexer com os preços, a questão da quantidade de ouro por rublo, embora praticamente fictícia, também mudou (CURRENCY…, s/d).

[7] BRASIL, 1963a.

[8] Adaptado de BRASIL, 1963a.

[9] Baleeiro faz referência à Lei de Gresham, que se resume em uma oração: “A má moeda tende a expulsar a boa moeda do mercado”; o conceito foi cunhado por Henry Dunning Macleod (1821-1902), economista britânico, em memória de sir Thomas Gresham (1519-1579), mercador e financista inglês.

[10] A referida lei praticamente acabou com a cunhagem de prata americana, convertendo o dime (10 centavos) e o quarter (25 centavos) para peças de clad de cuproníquel com núcleo de cobre e reduzindo o teor de prata do half dollar de 90% para 40% milésimos (EUA, 1965), mas que também deixaria de ter prata com a Coinage Law de 1970.

[11] Vide biografia de Alde Sampaio no site do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/alde-feijo-sampaio&gt;. Acesso em: 28 mar. 2018.

[12] BRASIL, 1963b.

[13] BRASIL, 1964.

A borda ondulada das moedas de 50 centavos

As moedas de 50 centavos não deixam de surpreender. Depois das questões de mudança no anverso e das variedades na inscrição da orla, mais um fator curioso se apresenta, a que chamaremos de borda corrugada.

A borda corrugada é uma anomalia apresentada principalmente na era 2009, embora se apresente em moedas de todas as eras, com menor intensidade. Trata-se de levantamentos irregulares na borda, dando um efeito de ondulado, podendo ir de leve (10% da borda) a severo (50% ou mais).

Pelo que se pode observar, o efeito é causado pelo fato de a orla da moeda não ser regular, ou seja, não ser lisa ou serrilhada, o que distribuiria a força de prensagem uniformemente por todo o instrumental de cunhagem, inclusive a virola, parte que cunha a orla. Não sendo a superfície da virola regular, por conta das letras, a força de prensagem espalha-se pelo conjunto; em alguns casos, a força faz com que o metal do disco “transborde” e crie as irregularidades na borda das peças. Como o processo de orlagem é anterior à cunhagem (CORSO, 2007), o metal excedente fica, por assim dizer, mal prensado, dando origem ao efeito. E as partes mais altas coincidem justamente com as letras da inscrição da orla.

A explicação do fenômeno parece comprovar-se pela inexistência da borda corrugada nas outras peças da série.

A maior frequência em 2009 pode ser atribuída à alteração do tamanho das letras da inscrição, que em artigo prévio foi categorizada como bordo tipo C; o ano em questão foi o primeiro desse tipo de bordo, que será produzido ainda em 2010, mas com menos peças. O motivo de seu sumiço é, muito possivelmente, a intensificação desse enrugamento na borda da peça.

Três peças de 2009 com a anomalia descrita

O que nossos leitores acham?

* * *

Referências

CORSO, J. L. Como são cunhadas nossas moedas atuais?. Boletim SNB, São Paulo, n. 60, 2007, p. 50-55.

Bolívar soberano: mais um engodo

Desde o último dia 1º, a Venezuela tem um novo padrão monetário, o bolívar soberano, que equivale a 1.000 bolívares fortes. Trata-se de mais uma medida desesperada do governo de Nicolás Maduro frente à inflação galopante que atinge o país caribenho. O índice fechou 2017 em 2.616%, segundo a Comissão de Finanças da Assembleia Nacional Venezuela.a

O roteiro já nos é conhecido. Entre 1986 e 1994, o Brasil passou por quatro redenominações: de cruzeiro para cruzado (1986), de cruzado para cruzado novo/cruzeiro (1989), de cruzeiro para cruzeiro real (1993) e de cruzeiro real para real (1994). Somente esta última foi acompanhada de medidas macroeconômicas eficazes para frear a inflação em médio prazo.

O padrão venezuelano já fora vítima de uma redenominação em 1º de janeiro de 2008, quando mil bolívares passaram a ser um bolívar forte, o que encerrou a carreira do padrão monetário mais antigo da América do Sul, que fora criado em 1879, durante o segundo governo de Antonio Guzmán Blanco.

Como medida cosmética, o bolívar soberano já nasce caduco. Na cotação de hoje (3/5/2018), um dólar americano está em 637,05 bolívares soberanos, ou 637.053,28 bolívares fortes. Em questão de dois ou três meses, o câmbio ultrapassará a faixa das mil unidades. Talvez o mais indicado fosse cortar seis zeros, fazendo com que 1 milhão de bolívares fortes fosse igual a 1 bolívar soberano, o que deixaria a cotação em 0,637 bolívar soberano.

A partir de junho circulará o novo espectro monetário, com moedas metálicas de 50 cêntimos e 1 bolívar. As cédulas serão de 2, 5, 10, 20, 50 e 100, 200 e 500. Nota-se que a cédula mais alta, se lançada hoje, valeria menos de 1 dólar.

Além do mais, as cédulas do novo bolívar são excessivamente parecidas com as do padrão que está saindo de circulação, o que poderá trazer confusão à população.

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Cédula de 500 bolívares soberanos. Note-se que a palavra ‘soberano’ não aparece escrita. Fonte: BCV
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Cédula de 500 bolívares do padrão ‘forte’. Note-se a semelhança da disposição dos objetos. Fonte: BCV

Considerações estéticas acerca da segunda série de moedas do real

A segunda série de moedas do real é excessivamente poluída: muita informação em um espaço pequeno. Aparentemente, sua concepção geral foi recuperada da série de tipos regionais (1989-92), principalmente o reverso.

É curioso, pois, em nossa opinião, a série de tipos regionais é simplesmente a mais interessante feita pela Casa da Moeda até hoje; mesmo depois de quase 30 anos de seu lançamento, ela parece atual. Na verdade, é um desenho retilíneo que conseguiu fazer-se atemporal.

Por outro lado, o reverso das nossas atuais moedas, embora baseado na família citada, peca por dois motivos: os algarismos serifados inclinados e as barras inclinadas que lhes fazem fundo. Um exame visual mostra sobre o que estamos aqui tratando.

À esq., a peça de 10 cruzeiros da série de tipos regionais (1989-92); à direita, a atual moeda de 10 centavos antes da ligeira remodelação do reverso feita em 2004

Nos anversos, a poluição é extrema. Enquanto que na série de tipos regionais havia uma figura humana pequena cercada de objetos estilizados do cotidiano do tipo simbolizado, a atual série tem uma figura histórica mais uma alegoria representando sua contribuição para a sociedade brasileira. Uma ideia ótima. Para cédulas, onde o espaço é bem maior.

A confusão nos anversos faz com que as imagens passem despercebidas pelos usuários do meio circulante. Basta perguntar às pessoas: elas sabem o que há nas cédulas, qual animal há em cada verso, mas dificilmente se atentam ao que está presente na “coroa” das moedas.

Uma terceira série de moedas do real, inevitável dentro dos próximos cinco ou dez anos, precisa trazer mensagens mais claras, o que importa em um design mais “limpo”, menos poluído. Que o reverso das peças da série de tipos regionais esteja ainda presente na memória dos projetistas da Casa da Moeda, mas sem tanto barroquismo.

Quanto vale a minha moeda – 3

Muita gente continua vindo a este blogue para saber o valor de suas moedas. Sem entrar em quantificações específicas, vamos dar algumas dicas nesse sentido. Já avisamos que não fazemos avaliações; logo, não peçam avaliações nos comentários.

Moedas brasileiras do século XX dificilmente têm algum valor monetário relevante, o que, claro, não impede colecioná-las. Lembre-se de que o século XX foi pródigo em inflação, e que as moedas, principalmente após os anos 1920, passaram a cumprir a função que hoje têm: a de dinheiro miúdo para troco.

Para termos uma ideia da desvalorização da moeda, vamos tomar como base o valor de 1$ (um mil-réis). Em janeiro 1901, o valor era representado por uma moeda de prata 11 dinheiros (916,6 milésimos), de 30 mm e 12,75 g, e valia 10 pence (0,04 libra esterlina). Em 1906, a peça passou a ser de prata 900 milésimos, com 26 mm de diâmetro e 10 g; naquele ano, comprava 1 shilling e 3 pence (0,063 libra); em 1922, a peça passa a ser de cuproalumínio (910 Cu-90 Al), com 26,7 mm e 8 g, o que já começa a caracterizar o mil-réis mais como moeda fiduciária. O câmbio médio de 1922 foi de 7½ pence (0,031 libra). Em 1936, a moeda passa a ter 24,5 mm e 7 g, infelizmente não temos a informação de câmbio, mas a desvalorização é visível. Em 1942, 1$ passa a ser 1 cruzeiro, moeda de cuproalumínio com 23 mm de diâmetro e 7 g, padrão que se manterá até 1956, quando é brevemente substituído por uma moedinha de 19 mm e 4 g, para ser, a partir de 1957, uma peça de alumínio de 23 mm e 2,7 g, que sobreviverá até 1961. Isso mostra bem a desvalorização monetária entre 1901 e 1961; com a reforma de 1967, o valor de 1 cruzeiro passa a ser 1 milésimo de cruzeiro novo, e usado apenas como moeda de conta. Assim o mil-réis foi da prata à inexistência.

O fato de uma moeda ser “antiga” não garante nada. Há peças com mais de cem anos que foram emitidas aos milhões; ou seja, há possivelmente um caminhão delas por aí. O fato de você nunca a ter visto (impressão pessoal) não a valoriza; nem o fato de ela estar no meio das coisas do seu avô. As pessoas mais velhas tinham o costume de juntar as moedas conforme elas iam perdendo valor. E outra: millennials acham que algo feito nos anos 1980, por ser anterior a seu nascimento, é necessariamente valioso. Basta lembrar que entre 1979 e 1997, por conta das altas taxas de inflação, só foram batidas moedas de aço, o metal de cunhagem mais abundante no Brasil. As peças metálicas feitas até 1994 tinham poder de compra reduzidíssimo, bastando lembrar que a moeda mais alta do último padrão antes do real, a peça de 100 cruzeiros reais, foi convertida para real na astronômica cifra de R$ 0,0275, ou seja, 2 centavos e 75 décimos-milésimos, ou 2¾ centavos de real.

Outro fator é observar as moedas batidas após 1939: temos moedas de cuproalumínio, cuproníquel, alumínio, níquel e aço, muito aço. São materiais baratos. É claro que estão fora dessa conta as peças comemorativas, como os 20 e 300 cruzeiros do Sesquicentenário da Independência, de 1972, de prata e outro, respectivamente, e os 10 cruzeiros dos dez anos do Banco Central (1975) e os 200 cruzados novos do Centenário da República (1989), ambas de prata. Essas não foram moedas feitas para circulação comum.

Moedas do século XX podem atingir valores interessantes se tiverem reverso invertido, ou seja, na posição contrária ao inicialmente previsto, ou reverso horizontal; ou ainda algum defeito de cunhagem. Há algumas exceções, como a presença de siglas nas primeiras moedas de cruzeiro (1944-6), mas é preciso consultar um catálogo para avaliá-las. Ou ainda se forem algum ensaio ou prova, ou seja, protótipos de moedas que não foram feitos para circulação.

Tampouco uma moeda, simplesmente por ser de prata, atingirá valores astronômicos. Há centenas de anúncios no Mercado Livre em que gente sem o conhecimento ou a consultoria adequada pede verdadeiras fortunas por peças relativamente comuns. Você pagaria, digamos, R$ 100 mil em um Fusca 85? Ou R$ 500 em um PF?

Então, antes de pôr algo a venda, procure informar-se. Não é porque se pede R$ 20 em uma moeda de 10 cruzeiros de 1984 ela efetivamente valha isso.

Outro dado muito importante é a conservação das peças; dependendo da moeda, ela só terá algum valor monetário se estiver em FC (flor de cunho), que é mais ou menos do jeito que ela sai da Casa da Moeda, ou seja, intocada.

Há várias questões envolvidas, mas dificilmente uma moeda brasileira emitida no século XX para circulação atingirá valores com mais de três dígitos.

Abaixo, uma lista resumida de moedas extremamente comuns:

  • 100, 200 e 400 réis da série MCMI (cuproníquel)
  • 20, 50, 100, 200 e 400 réis (1918-1935) de cuproníquel. Os valores de 20 e 50, se com data superior a 1927-9, são de interesse do mercado.
  • 500 e mil réis (cuproalumínio) do Centenário da Independência (1923)
  • 500 e mil réis (1924-1930 – cuproalumínio)
  • 100, 200, 400 e 2 mil réis da série Vicentina (1932). As peças de 500 e mil réis têm alta procura.
  • Peças emitidas de mil-reis entre 1936 e 1942.
  • 10, 20, 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1942-56 – níquel rosa e cuproalumínio)
  • 5 cruzeiros (1942-3 – cuproalumínio)
  • 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1956 – cuproalumínio)
  • 10 e 20 centavos (1956-61 – alumínio)
  • 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1957-61 – alumínio)
  • 10 e 20 cruzeiros (1965 – alumínio)
  • 50 cruzeiros (1965 – cuproníquel)
  • 1, 2 e 5 centavos (1967-78 – aço)
  • 10 e 20 centavos (1967-78 – cuproníquel e aço)
  • 50 centavos (1967-78 – níquel, cuproníquel e aço)
  • 1 cruzeiro (1970-8 – níquel e cuproníquel)

A partir daqui, são todas de aço:

  • 1 cruzeiro (1979-85)
  • 5 cruzeiros (1980-5)
  • 10, 20 e 50 cruzeiros (1980-6)
  • 100, 200 e 500 cruzeiros (1985-6)
  • 1, 5, 10, 20, 50 centavos e 1 e 5 cruzados (1986-8)
  • 10 cruzados (1987-8)
  • 1, 5, 10 e 50 centavos (1989-90) – Obs.: as moedas e 1 e 5 centavos de 1990 são difíceis de conseguir, consequentemente podem valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 1 cruzeiro (1990)
  • 5, 10 e 50 cruzeiros (1990-2)
  • 100, 500 e 1.000 cruzeiros (1992-3)
  • 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (1993-4)

Primeira família do real:

  • 1 centavo (1994-7)
  • 5 centavos (1994-7)
  • 10 centavos (1994-7) – em 1995 foi emitida uma moeda comemorativa dos 50 anos da FAO, que pode valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 25 centavos (1994-5) – em 1995 foi emitida uma moeda comemorativa dos 50 anos da FAO, que pode valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 50 centavos (1994-5)
  • 1 real (1994)

Há ainda fatos mais recentes, como a moeda de 1 real dos 50 anos da Declaração Universal do Direitos Humanos, que tem, por conta de especulação, alcançado valores próximos de R$ 100, o que é um fato estranho, pois sua tiragem foi de 600 mil exemplares. Do centavinho (1979-83) foram batidas 100 mil peças de cada ano, e dificilmente a série completa de cinco peças sai por mais de R$ 40.

Portanto, antes de anunciar valores absurdos, veja o que você tem em mãos. E consulte os catálogos.