O cruzeiro real que nunca foi

O cruzeiro real foi a unidade monetária do Brasil entre 1º/8/1993 e 30/6/1994. Em seus nove meses de existência, foram lançadas quatro peças metálicas: em 20 de setembro de 1993, as de 5 e 10 cruzeiros reais (Comunicado BC nº 3.508, de 17/9/1993), e, em 10 de dezembro do mesmo ano, as de 50 e 100 cruzeiros reais (Comunicado BC nº 3.624, de 8/12/1993). Foram moedas efêmeras, pois perderam poder liberatório em 15/9/1994, já na vigência do real (Circular BC nº 2.471, de 24 de agosto de 1994).

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Da dir. para a esq.: anverso das peças de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (fonte: Mercado Livre).

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Da esq. para a dir.: reverso das peças de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (fonte: Mercado Livre).

As quatro moedas são nossas conhecidas. Emitidas com eras 1993 e 1994, não há quem não as tenha em suas coleções. A peça de 5 traz em seu anverso um par de araras; a de 10, um tamanduá; a de 50, uma onça-pintada e sua cria; e a de 100, o lobo-guará. O cruzeiro real deu continuidade “natural” à série que vinha já do cruzeiro (1990-1993), com as peças de 100 (peixe-boi), 500 (tartaruga marinha) e 1.000 cruzeiros (acará), seja nas dimensões ou na temática.

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Da esq. para a dir.: moedas de 1.000, 500 e 100 cruzeiros que provavelmente seriam a base das peças de 1 cruzeiro real, 50 e 10 centavos (fonte: sergiobatista-moedas)

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Moedas de 10 e 50 cruzeiros, possíveis bases (a serem reduzidas?) das moedas de 1 e 5 centavos de cruzeiro real.

Porém, há um detalhe que passa despercebido a muita gente. Trata-se da Resolução BC nº 2.010, de 28/7/1993, que é justamente a que informa sobre a vigência iminente do cruzeiro real. Ali há a previsão de uma família um pouco diferente daquela que conhecemos.

Art. 19. As moedas divisionárias a que se refere o artigo precedente serão cunhadas em aço inoxidável, com temática centrada em aspectos típicos do Brasil, observando as características gerais adiante descritas:

A – 1 centavo do cruzeiro real: – diâmetro: 16 mm; – tema do anverso: Seringueiro;

B – 5 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 17 mm; – tema do anverso: Baiana;

C – 10 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 18 mm; – tema do anverso: Peixe-Boi;

D – 50 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 19 mm; Resolução n° 2010, de 28 de julho de 1993 – tema do anverso: Tartaruga-Marinha;

E – 1 cruzeiro real: – diâmetro: 20 mm; – tema do anverso: Acará.

Ninguém viu essas moedas. Na verdade, elas seriam adaptação da numária até então vigente.

As moedas de 1 e 5 centavos apresentadas têm os mesmos temas das moedas de 10 e 50 cruzeiros emitidas entre 1990 e 1992, mas os tamanhos são diferentes: enquanto a moeda de 10 cruzeiros tinha 22,5 mm de diâmetro, a nova peça equivalente, de 1 centavo, teria apenas 16mm; a de 50 cruzeiros media 23,5 mm; a equivalente de 5 centavos teria 17 mm. No que se pensava no Banco Central e na Casa da Moeda? Em versões reduzidas, como ocorreu com as moedas de 5, 10 e 50 pence no Reino Unido?

As medidas dessas duas peças novas fariam conjunto perfeito com as adaptações das moedas de 100, 500 e 1.000 cruzeiros (10, 50 centavos e 1 cruzeiro real, respectivamente), com 17 mm, 18 mm e 19 mm, nessa sequência.

Como a iconografia é mantida pelo decreto, imagina-se, pelo menos para as moedas de 10, 50 centavos e 1 cruzeiro real a adaptação das peças de cruzeiro.

É curioso ainda notar o art. 20 da mesma resolução:

Art. 20. O Banco Central do Brasil colocará em circulação, até 31.12.93, moedas dos valores de CR$ 5,00 (cinco cruzeiros reais) e CR$ 10,00 (dez cruzeiros reais), adaptando ao novo padrão monetário as características gerais das moedas de Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) e Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros), aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional, em sessão de 29.06.93, e adiante descritas:

A – 5 cruzeiros reais: – diâmetro: 21 mm; – tema do anverso: Arara;

B – 10 cruzeiros reais: – diâmetro: 22 mm; – tema do anverso: Tamanduá-Bandeira.

Ou seja, as peças de 5 e 10 cruzeiros reais seriam lançadas como 5 mil e 10 mil cruzeiros. E se foram aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional, provavelmente há arte-final dessas peças, ou na Casa da Moeda ou no Banco Central.

O fato de não termos visto essas moedas divisionárias do cruzeiro real deve-se à inflação e seu valor já muito baixo. Corrigido pelo IGP-M, o valor atual (janeiro/2017) de um cruzeiro real seria de R$ 0,10, o que tornaria as moedas divisionárias inúteis. Para uma comparação, a primeira cotação do dólar em cruzeiro real, em 2/8/1993, foi de CR$ 72,06.

Referências

BACEN – BANCO CENTRAL DO BRASIL. Circular nº 2.471, de 24 de agosto de 1994. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/43168/Circ_2471_v1_O.pdf>. Acesso em 23 fev. 2017.

______. Resolução nº 2.010, de 28 de julho de 1993. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/43582/Res_2010_v1_O.pdf>. Acesso em 23 fev. 2017.

O peso e o tamanho da cruz

Em 16 de janeiro de 1989, o velho cruzado saiu de cena, sendo substituído pelo cruzado novo na razão de 1:1.000, ou mais um “corte de três zeros”. A reforma foi um dos itens dentro do chamado Plano Verão, implantado pelo então ministro da Fazenda do governo Sarney, Maílson da Nóbrega.

A Resolução do Conselho Monetário Nacional nº 1.565, de 16/1/1989, além de oficializar a reconversão monetária, dispõe sobre o novo meio circulante a entrar em circulação a partir de 30/4/1989. Originalmente, havia a previsão de quatro peças: 1, 5, 10 e 50 centavos, “com temática centrada em tipos e aspectos do Brasil” (CNM, 1989). Moedas, aliás, esteticamente muito interessantes.

Da esq. para a dir.: reverso e anverso da peça de 1 centavo; anversos das peças de 5, 10 e 50 centavos.

Com a posse de Fernando Collor de Mello como presidente da República, em 15 de março de 1990, assumiu o Ministério da Fazenda Zélia Cardoso de Mello, que, no dia seguinte, pôs em vigência o Plano Brasil Novo, popularmente conhecido como Plano Collor. Além das várias medidas macroeconômicas para contenção da inflação, uma de ordem cosmética: pela Resolução CNM nº 1.689, de 18 de março de 1990 (retroativa a 16/3, data estabelecida pela Medida Provisória nº 168, de 15/3/1990), a moeda voltava a chamar-se cruzeiro. Não houve reconversão. Simplesmente 1 cruzado novo passou a ser 1 cruzeiro, a terceira vida da moeda.

A mudança, não obstante ser cosmética, acarretou em mudanças nas cédulas. As notas de 100, 200 e 500 cruzados novos traziam a expressão cruzados novos, que foi alterada para “cruzeiros”. A de 50 cruzados novos nem chegou a ser retocada, embora o art. 4º da Resolução CMN nº 1.689 o previsse inicialmente, ficando apenas com o carimbo retangular previsto pelo mesmo dispositivo legal (CNM, 1990). Um dos imperativos, provavelmente é o fato de, em 13/3/1990, o dólar ter chegado à cota de NCz$ 38,197, além de a mesma resolução, em seus arts. 6º 7º e 8º, prever já o lançamento da moeda de 50 cruzeiros para depois o final de 1990, o que acabou ocorrendo em dezembro (BACEN, 1990).

Como já dito, as quatro moedas divisionárias do cruzado novo foram previstas pela Resolução CNM nº 1.565, mas ficou faltando a peça auxiliar de 1 cruzado novo. Emitiu-se, em 8 de novembro de 1989, uma moeda desse valor que comemorava o centenário da República, mas não uma peça comum.

Porém, com o novo governo, o novo plano e a nova unidade monetária, apareceu a peça equivalente, a de 1 cruzeiro, na Resolução CNM nº 1.689.

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Peça de 1 cruzeiro emitida em 1990.

Se os projetos gráficos das peças de cruzado novo foram apresentadas ao CNM no fim de novembro de 1988 (CNM, 1989), porque não havia a ideia de uma moeda auxiliar? No fim desse mês, um dólar americano valia Cz$ 585 (que seriam, logo mais NCz$ 0,585); quando do corte de zeros, em 16/1/1989, o dólar valia exatamente NCz$ 1 (ou Cz$ 1.000), valor que o governo conseguiu manter congelado até meados de abril; quando da simples passagem de cruzado novo para cruzeiro, o dólar valia Cr$ 38.

Em resumo, a vida do cruzado novo foi curta, um ano e dois meses. Porém, lembremo-nos que o Plano Collor foi algo meio abrupto, incluindo mesmo o confisco de aplicações bancárias.

Nossos catálogos trazem uma moeda muito rara; os colecionadores batizaram-na de “Cruz de Cristo”. Trata-se de uma moeda de 1 cruzado novo, com era 1990, aparentemente pensada para circulação comum; o Catálogo Bentes 2014 indica a existência comprovada de 15 exemplares (MALDONADO, 2014). Há quem diga que, com a troca de padrão monetário, as moedas já batidas teriam sido enviadas à Acesita para refundição.

A polêmica “Cruz de Cristo”.

O reverso da “Cruz de Cristo” é praticamente igual ao das peças divisionárias, ao contrário do da moeda de 1 cruzeiro que acabou saindo no lugar. No anverso, um mapa do Brasil atravessado por uma cruz estilizada que lembra muito a da Ordem de Cristo, daí o nome que lhe atribuíram.

Porém, um detalhe no Catálogo Bentes chama muito a atenção. Na Portaria CMN nº 1.689, a peça de 1 cruzeiro é descrita como tendo 20,5 mm de diâmetro; a massa, no site do Bacen, é de 3,61 g. É de se imaginar que a “Cruz de Cristo” tivesse as mesmas dimensões; o Bentes 2014, porém, indica-nos essa moeda como tendo 19,5 mm de diâmetro e massa de 2,83 g, o que coincide, no próprio catálogo e na listagem on-line do Bacen, com a moeda de 50 centavos de cruzado novo.

A “Cruz de Cristo” teria o mesmo tamanho da moeda de 50 centavos? Acredito ser muito improvável. Já que o Catálogo Amato não nos traz as dimensões e o Krause não registra a peça em questão, onde poderíamos conseguir alguma informação?

Já que a moeda foi batida, é possível que seu projeto tenha sido apreciado pelo CNM entre 1989 e o começo de 1990; é pena essas atas não estarem disponíveis na internet.

Eis uma polêmica muito similar ao caso da Bromélia.

Referências

BACEN – Banco Central. Comunicado nº 2.249, de 11/12/1990. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/normativo.asp?numero=2249&tipo=Comunicado&data=11/12/1990>. Acesso em 21 fev. 2017.

CNM – Conselho Monetário Nacional. Resolução nº 1.565, de 16 de janeiro de 1989. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/42039/Res_1565_v2_L.pdf>. Acesso em: 21 fev. 2017.

______. Resolução nº 1.689, de 18 de março de 1990. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/44905/Res_1689_v1_O.pdf>. Acesso em 27 fev. 2017.

MALDONADO, R. Moedas Brasileiras – Catálogo Oficial. 2. ed. revista e atualizada. Itália: MBA Editores, 2014. p. 970.

Discos de tipo III. Galvanização

Até 1997, o Brasil só havia feito moedas em discos de tipo I, ou seja, de metal sólido. Em 1998, além da moeda bimetálica inédita, ganhamos peças batidas em discos do chamado disco tipo III. Usamos as classificações dos discos como se encontra em Afonso et al. (2008). Os discos de tipo II são os chamados clads ou sanduíches, em que se veem camadas de metal sobrepostas, como as moedas de 10, 25 e 50 centavos de dólar americano e as antigas peças de 1, 2, 5 e 10 peniques do marco alemão, além de algumas argentinas do final dos anos 1950 e começo dos 1960.

O dito disco tipo III são discos eletrorrevestidos. O revestimento dá-se da seguinte maneira: os discos são cortados das chapas normalmente, mas em vez de diretamente serem mandados para a Casa da Moeda, são depositados em uma solução que contém o metal a ser depositado sobre os discos em forma de sal, que funcionará como ânodo; a deposição é induzida por corrente elétrica, processo em que os discos funcionam como cátions, promovendo a adesão do metal diluído em sal à superfície do metal a ser revestido. Esse processo é chamado de galvanização, e a espessura do revestimento é determinada a partir de cálculos matemáticos.

No caso das moedas brasileiras, temos discos de aço baixo-carbono eletrorrevestidos de cobre (as moedas de 1 e 5 centavos) e de bronze fosforoso (10 e 25 centavos). Lembrando apenas que o processo não é feito pela Casa da Moeda, mas por metalúrgicas privadas que fornecem os discos, que chegam à CMB já revestidos, prontos para serem cunhados e transformados em moedas de curso legal.

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Moeda de 10 centavos de real atualmente em circulação. Seu revestimento de bronze fosforoso é fruto de galvanização

Os segredos da Bromélia

Por Emerson Pippi (SNP)

Um dos mistérios mais empolgantes e discutidos da numismática brasileira volta à tona com inéditas revelações da artista plástica Glória Dias, que participou da equipe de design do famoso Real Balsemão. A peça, que intrigou muitos especialistas e colocou em cheque a reputação de um ilustre gravador brasileiro, realmente foi feita na Casa da Moeda do Brasil (CMB) e é um teste de material do que viria a ser uma das moedas da segunda família do Real, lançada em 1998.

Quem afirma é a coautora dos projetos da nova família do real, Glória Dias, atualmente Assessora Técnica do Gabinete da Presidência da CMB. A designer, medalhista e moedeira é também criadora dos desenhos de recentes moedas comemorativas brasileiras, como as dos 40 e 50 anos do Bacen e a do Centenário de Belo Horizonte.

Nesta entrevista, Glória confirma que é uma peça feita na CMB e dá um sensacional e detalhado relato sobre a moeda. “Não imaginávamos o sucesso que essa peça-teste faria, pois era para ter sido devolvida à CMB, para descaracterização. Foi feita para testar ajustes e melhorias para aumento de ductibilidade”, diz.

Entenda a polêmica

Em 2011, o gaúcho Pedro Balsemão anunciou ter encontrado uma raridade até então desconhecida do meio numismático; uma moeda de 1 real bimetálica datada de 1997, completamente diferente das circulantes. No reverso, está a figura de uma bromélia, sobreposta pela inscrição 1 real. No anverso, conhecida imagem da efígie da República, idêntica à que esteve presente em moedas de Cruzeiro entre 1967 e 1978.

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Real Balsemão ou bromélia

Apresentada em congresso da SNB, a moeda dividiu as opiniões de especialistas. A tese de que realmente era um ensaio desconhecido fabricado pela CMB foi defendida de maneira ferrenha por Balsemão. Por outro lado, uma vertente importante de numismatas via com incredulidade a recente descoberta. Havia até mesmo quem suspeitasse de que a moeda fora feita pelo próprio gaúcho, ilustre escultor de cunhos, medalheiro e fabricante de réplicas perfeitas de moedas raras. A Casa da Moeda nunca admitiu oficialmente que aquela peça havia saído das suas fábricas.

“Sofri muito com desconfianças de próprios colegas numismatas. Pessoas tratavam o assunto com ironia e risadinhas disfarçadas”, diz Balsemão.

Também surgiu a vertente de numismatas que acreditavam ser a bromélia uma ficha que seria usada exclusivamente em vending machines, essas máquinas que vendem refrigerantes, doces e até flores. A teoria deles era de que, em virtude da futura substituição do padrão das moedas, a CMB criou fichas de fantasia para testes e enviou-as aos fabricantes das máquinas. Essa afirmação mudava completamente o status do achado de Balsemão: de inédito ensaio de moeda passava a ser um simples token.


Confira alguns trechos da entrevista esclarecedora de Glória Dias, que conta a história da criação do Real Balsemão.

Glória, como surgiu a ideia dessa moeda da bromélia, hoje conhecida como Real Balsemão?

Essas peças foram confeccionadas exclusivamente para testes, já com as características de material das moedas que seriam lançadas. Ela foi feita para testar ajustes e melhorias para aumento de ductibilidade. Não usamos as matrizes da moeda de 1 real que seria válida, exatamente para não corrermos o risco de criarmos uma raridade. Não imaginávamos o sucesso que essa peça-teste faria, pois era para ter sido devolvida à CMB, para descaracterização.

Como você ficou sabendo do vazamento?

Encaminhamos algumas peças para apreciação e testes, e o trabalho seguiu adiante. Houve um momento, anos após as remessas, que a moeda teste surgiu em publicações especializadas. Muitos colecionadores, ao mesmo tempo em que queriam saber tudo a seu respeito, fantasiaram histórias sobre a criação dela. Mas a verdade é que foi um teste para otimização do nosso processo fabril.

E por que foi datada em 1997?

A concepção artística e técnica de uma nova série de moedas de circulação se dá muito tempo antes de sua emissão e distribuição. São muitos os estudos e testes para garantir a melhor performance nas máquinas de industrialização. É o tipo de produto que precisa responder bem aos quesitos de altíssima e acelerada produção.

E por que não se usou nesses testes o mesmo desenho das moedas que seriam lançadas?

Uma moeda é um produto de alta segurança, e nem todos os testes ocorrem em ambiente “oficial”. Por isso, a melhor maneira é não contar com a arte válida, mas sim com uma que simule perfeitamente os volumes da gravura original. Esse foi o caso da bromélia. Não podíamos arriscar o vazamento do layout artístico da moeda. E, visto que essas peças teste vazaram misteriosamente, fica implicitamente reforçada essa orientação.

Essa moeda seria então utilizada para testes de material em geral, não somente para vending machines?

A peça da bromélia foi criada para amplos testes que serviriam para definições de especificações do produto “moeda de circulação bimetálica, taxa de 1 real”. Teste em vending machines é apenas mais uma entre tantas características para quais a moeda deve estar apta.

E por que escolheu o desenho da bromélia?

O uso de figuras históricas poderia suscitar elucubrações várias sobre tendências políticas, mesmo sendo uma peça teste. Se vazasse, o que acabou acontecendo, poderia haver questionamento do tipo: Por que um homem? Por que um militar? Por que um artista? Um músico de esquerda? Um esportista? Com tanto cientista importante, por que esse? Como era um simples teste, não valeria a pena se preocupar com essas coisas. A bromélia já nasceu politicamente correta. Afinal, quem é contra as bromélias?

E a efígie da República? Ela já havia sido usada em moedas dos anos 1970. Qual o motivo de usá-la novamente?

Essa efígie era unanimidade entre todos os artistas da época como a mais bela de todas. A obra é do gravador numismata Mestre Benedicto Ribeiro, admirado por toda equipe. O perfil que inspirou ele foi o da jovem e belíssima atriz Tonia Carrero.

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Em tempos de delação premiada, nós que fomos premiados com os relatos da artista. O depoimento de Glória, apesar de ser testemunhal e não documental, encerra a maioria das dúvidas que cercavam o Real Balsemão.

A moeda foi feita nas oficinas da CMB e trata-se de teste de material, não sendo um ensaio de layout. A moeda é original, mesmo não sendo oficial.


Veja também:

A ‘bromélia’ ou ‘real Balsemão’
Os ‘reais’ da bromélia

Moedas comemorativas do Banco Central

Criado em 31 de dezembro de 1964 pela Lei nº 4.595, o Banco Central do Brasil (BC ou Bacen) é a segunda autoridade monetária do país (a primeira é o Conselho Monetário Nacional). Com sua criação, juntou em uma só instituição as funções de regulação econômica e emissão de moeda, que antes eram atribuídas à Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), ao Banco do Brasil (BB) e ao Tesouro Nacional. Considera-se como data de início das operações o ano de 1965.

Responsável pela emissão de moeda, o BC autocelebrou-se em quatro emissões. A primeira delas foi uma moeda de prata de 10 cruzeiros, de 1975, celebrando os dez anos da instituição.

castelo1.jpgValor facial: 10 cruzeiros
Era: 1975
Metal: prata 800
Diâmetro: 28 mm
Peso: 11,3 g
Tiragem: 20 mil exemplares (No Bentes 2014 consta 20 mil com cartela e 20 mil sem; no site do BC, apenas 20 mil)
Anverso: à esq, quase perfil do presidente Castelo Branco: à dir., horizontalmente, de baixo para cima, a inscrição BRASIL.
Reverso: Logomarca do BC e valor facial.
Bordo: inscrição “BANCO CENTRAL DO BRASIL 10 ANOS 1965-1975”.
Referências: Bentes 2014: C7.01 (sem cartela), C7.02 (com cartela) e C7.03 (reverso invertido); Banco Central: Cr70-33.

Ao que parece, essa moeda de 10 cruzeiros é a única brasileira a trazer a data no bordo, e não no anverso ou no reverso.

Os 20 anos do BC passaram em branco nas moedas, mas, em 1995, as três décadas da instituição foram celebradas em outra moeda de prata.

MC30bc.gifValor facial: 3 reais
Metal: prata 925 (esterlina)
Diâmetro: 28 mm
Peso: 11,5 g
Tiragem: 5 mil exemplares
Anverso: Logomarca dos 30 anos do BC, mais a inscrição “BRASIL”.
Reverso: Valor facial e logomarca do BC.
Bordo: serrilhado
Referências: Bentes 2014: C16.01 (proof) e C16.02 (proof, no estojo); Banco Central: sem número indicado atualmente no site, mas, segundo Bentes 2014, R-704.

Em 2005, os 40 anos da instituição foram celebrados com uma moeda de circulação pela primeira vez.

Há coincidência no tamanho do disco dos 3 reais com a emissão dos 10 cruzeiros, embora o metal seja diferente.

moeda-de-1-real-40-anos-do-banco-central-2005-805701-MLB20389348689_082015-OValor facial: 1 real
Metal: aço eletrorrevestido de bronze (anel) e aço inox (centro).
Diâmetro: 27 mm
Peso: 7 g
Tiragem: 40 milhões
Anverso: no centro, prédio da sede do BC em perspectiva; no anel, a inscrição: “BANCO CENTRAL DO BRASIL 1965 40 ANOS 2005”.
Reverso: o mesmo da moeda comum de 1 real.
Bordo: serrilhado intermitente.
Referências: Bentes 2014: 766.01, 766.02 (reverso invertido) e 766.03 (reverso horizontal); Banco Central: R-734.

Em 2015, o BC teve seu cinquentenário homenageado com outra moeda de um real.

Moeda50AnosBC.pngValor facial: 1 real
Metal: aço eletrorrevestido de bronze (anel) e aço inox (centro).
Diâmetro: 27 mm
Peso: 7 g
Tiragem: 33.282.270
Anverso: no centro, prédio da sede do BC em perspectiva, inscrição “50 ANOS”; no anel, a inscrição: “BANCO CENTRAL DO BRASIL 1965 2015”.
Reverso: o mesmo da moeda comum de 1 real.
Bordo: serrilhado intermitente.

‘Cabeções’

Costumo chamar “cabeções” as últimas cédulas do padrão terceiro cruzado novo-cruzeiro/cruzeiro real, cujo marco inicial é a peça de 50 mil cruzeiros com a efígie do historiador, escritor e folclorista Luís da Câmara Cascudo, lançada em dezembro de 1991.

A série, iniciada com a peça de 50 cruzados novos, que homenageia o poeta Carlos Drummond de Andrade, transpassa três padrões monetários e destacou-se por dar imagem a vultos da cultura, em vez das personalidades ligadas à política ou ao campo militar.

A subsérie dos cabeções têm continuidade com as cédulas de 500 mil cruzeiros (Mário de Andrade), 1.000 cruzeiros reais, 5 mil cruzeiros reais (gaúcho) e 50 mil cruzeiros reais (baiana).

A concepção artística é diferente da vigente até então. Basta compararmos as cédulas de 10 mil cruzeiros com a seguinte, de 5o mil cruzeiros, lançada em 9 de dezembro de 1991.

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Nota-se que o busto de Câmara Cascudo é bem maior. Em vez de retratar a cabeça toda, optou-se por dar destaque ao rosto, mesmo com algumas omissões, como o topo da cabeça. Além da questão da cabeça, trata-se da primeira cédula que incorpora elementos de auxílio para os deficientes visuais (as três barras sobre o 50), que estarão presentes em todas as cédulas emitidas a partir de então (exceto na de 1.000 cruzeiros reais). Note-se ainda a figura do jangadeiro, relacionada aos estudos de Cascudo, e um grande sol, de cor mais viva que os resto da cédula. Como fundo, um padrão que lembra o da renda, outro elemento da cultura popular do Rio Grande do Norte.

O registro coincidente reproduz o Forte dos Reis Magos, ponto de interesse histórico de  Natal, capital norte-rio-grandense e local de nascimento do intelectual.

E o mesmo para os valores subsequentes (exceto a de 100 mil cruzeiros).

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Cédula de 500 mil cruzeiros, com o escritor Mário de Andrade (1893-1945). Detalhe para o registro coincidente, a famosa muiraquitã, o amuleto de Macunaíma, protagonista do romance homônimo (1928). A peça foi lançada em 29 de janeiro de 1993.

baud_pauliceia.jpgAlém da muiraquitã, este anverso traz ainda um padrão de losangos que lembra muito a primeira capa de “Pauliceia desvairada” (1922, à esquerda), que reproduz a roupa de Pierrot, personagem da Commedia dell’Arte. Note-se ainda uma silhueta hachurada no centro da cédula, e o verso “E então minha alma servirá de abrigo”, do poema “Descobrimento”.

O reverso traz o escritor rodeado de crianças e com o Edifício Martinelli, marco do Centro Histórico da capital paulista, ao fundo.

Também o topo do chapéu do Mário não aparece, concentrados os detalhes na fisionomia do retratado.

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A cédula de 1.000 cruzeiros reais, lançada em em 1º de outubro de 1993, traz o educador Anísio Teixeira (1900-1971). É a última cédula brasileira de circulação comum a trazer o rosto de um benemérito.

A cédula do gaúcho, lançada em 29 de outubro de 1993, justamente por tratar-se de um tipo regional e não uma pessoa específica, traz o resto numa perspectiva um pouco mais ampla, mas que ainda se enquadra na tipologia “cabeção”, ao fundo, no centro, detalhe do edifício do Parque-Escola concebido pelo Educador.

Como registro coincidente, uma coruja estilizada, símbolo do conhecimento, cujas sobrancelhas têm a forma de um livro aberto.

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Cédula de 5 mil cruzeiros reais, com o gaúcho e as ruínas da igreja jesuítica de São Miguel das Missões/RS; o registro coincidente é uma cuia de chimarrão e sua bomba. Sobre a igreja, uma planta, muito possivelmente de erva-mate (Ilex paraguariensis).

E, finalmente, a baiana, personagem que já havia sido homenageada em moeda. A cédula foi lançada em 30 de março de 1994 e valeu apenas até 15 de setembro do mesmo ano.

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Cédula de 50 mil cruzeiros reais, com a baiana ladeada por penduricalhos, entre os quais se vê uma figa, um peixe e algo como um dente (ou um corno?); no registro coincidente, outra figa.

A série ficou com este “espaço” entre os valores de 5 mil e 50 mil; uma cédula de 10 mil cruzeiros reais estava prevista, mas nunca entrou em circulação.

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Ensaio/prova da cédula de 10 mil cruzeiros reais, que nunca entrou em circulação, que mostra a rendeira e detalhes da almofada, com um pedaço de renda e os bilros. O tipo já havia sido homenageado em uma moeda; como registro coincidente, um detalhe de renda.

Novo padrão ou reutilização de discos?

Infelizmente, a publicação dos contratos de compra de discos metálicos para a cunhagem de moedas resume-se à súmula, não constando, por exemplo, a quantidade de discos comprada. As datas também são restritas; no site da CMB, apenas os contratos celebrados a partir de 2005 constam dos registros.

Mas voltemos aos anos 1980. Em 1988, foi emitida uma série de três moedas que celebrava o centenário da abolição; anverso idêntico para as três peças de 100 cruzados; os anversos traziam, em cada uma das moedas, um homem, uma mulher e uma criança. Eram peças de aço inoxidável, com 31 mm de diâmetro e peso de 9,95 g. Essa série é o prenúncio de uma revolução estética da qual já tratamos em outro artigo.

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As três peças da série comemorativa do Centenário da abolição (anversos)

Em 1989, como sabemos, houve um plano econômico que cortou três zeros ao cruzado, e a nova unidade foi batizada como cruzado novo. Em 8 de novembro daquele ano, foi lançada uma moeda de 1 cruzado novo alusiva ao centenário da República, peça de padrões estéticos muito similares àquelas lançadas em 1988, cujos ecos também fizeram-se sentir na série comum. A peça comemorativa tinha 31 mm de diâmetro e 9,95 g de peso.

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1 cruzado novo (1989), com a nova efígie da República, feita para a efeméride

Em 1992, o desvalorizado cruzeiro abrigou outra emissão comemorativa de circulação comum, os 5 mil cruzeiros alusivos ao bicentenário da Inconfidência Mineira. Com 31 mm de diâmetro, 1,9 mm de espessura e e 9,95 g.

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Peça de 5 mil cruzeiros (1992)

Quais conclusões podemos tirar de três emissões com as mesmas características e períodos diferentes?

  • Pensou-se (o BC? A CMB?) em padronizar as emissões comemorativas, por isso a coincidência nas dimensões.
  • Reaproveitamento de cunhos já encomendados, visto que as moedas de 1988 somam 600 mil exemplares, e as de NCz$ 1 de Cr$ 5 mil, somam 10 milhões cada uma.
  • Novos contratos de disco, mas com reaproveitamento de maquinário regulado e virolas correspondentes.

O que os leitores acham?

Mais considerações acerca do anverso da peça de 50 centavos

Há tempos vimos estudando as alterações nas moedas de real.

O amigo Sandro Greczuk Ribas nos deixou dois comentários muito elucidativos a respeito do tema. Ele fala num terceiro anverso, e não apenas em dois, como havíamos publicado neste blogue, fora a questão do bordo. Aí vão os comentários de Greczuk.

Boa noite, agradeço muitíssimo pela divulgação destes estudos, mas convém lembrar que sempre é bom citar as fontes. Estou reunindo um material mais específico que envolve tabelas, fotos e desenhos que servirão pra melhorar o entendimento que, com razão, fica muito cansativo quando somente por escrito. É de ficar meio “biruta” mesmo, pois são dois reversos, três anversos e pelo menos dois tipos de legendas, mas pelo menos eu estou conseguindo combinar toda essa informação em uma única tabela. Por isso a necessidade de divulgar pelo menos a tabela para que os outros colecionadores nos ajudem a identificar as combinações mais RARAS ou ESCASSAS. Por gentileza me envie um e-mail de contato que, assim que eu terminar as pesquisas, te envio o material pra análise e você filtra as informações pra facilitar a divulgação. Abraços.

Boa noite, parabéns pela pesquisa.
Desde 2008 eu também venho estudando estas mudanças nos cunhos de anverso e reverso das moedas do meio circulante e gostaria de deixar aqui algumas observações. Na verdade já faço isto desde o início do real e, ao longo destes anos, consegui juntar uma boa quantidade de erros e variantes nesses cunhos. Por conta dessas observações, acabei desenvolvendo um método próprio para identificar algumas variantes e principalmente os erros de cunhagem encontrados com frequência nas moedas do Real.

Ao adquirir recentemente algumas moedas de 50 centavos de 2012 com o erro de reverso de 5 centavos, percebi um detalhe que anteriormente não havia levado em consideração nos cunhos de datas anteriores e posteriores a este erro. O que se tornou foco de mais estudos e me fez encontrar as suas postagens sobre o assunto.

Pois bem, vamos ir direto ao assunto em questão: você menciona dois anversos diferentes para este cunho e sabemos que existem as duas ocorrências em algumas datas, ou seja, existem pelo menos duas variantes para cada era em que ocorreram as mudanças nestes anversos. Porém, não encontrei nada a respeito de uma terceira variante de cunho deste anverso.

Sim, exatamente o que estou apontando para a descoberta de uma terceira variante, que nada mais é do que um segundo tipo do seu anverso B ora mencionado, que possui todas as características principais, incluindo a redução das proporções, porém um item nada menos importante se difere entre os dois tipos: a rosa dos ventos.

No primeiro anverso de 1998/2008, bem no centro do mapa do Brasil, encontramos nitidamente um diagrama estilizado da rosa dos ventos, mas é necessário olhar atentamente para os detalhes das linhas que formam este diagrama (são as mesmas que formam o quadrilátero central e se dividem perpendicularmente formando as flechas dos pontos cardeais, ou seja, o quadrilátero e as flechas possuem linhas em comum).

No segundo anverso de 2008-2015, observando o mesmo diagrama estilizado da rosa dos ventos, NÃO encontramos linhas em comum entre o quadrilátero central e as bases das quatro flechas dos pontos cardeais (com o auxílio de uma lupa é possível verificar que as linhas são bem divididas, ou seja seja, existe claramente uma definição de espaços entre as linhas que formam o quadrilátero central e as linhas que formam paralelamente as bases das flechas).

Explicando que até aqui nada ocorre de novidades, somente a minha perspectiva de observação é que muda, mas digo que a observação não para por aqui.

Partindo da contagem das faixas que sobressaem abaixo do busto, observamos que a quantidade de faixas encontradas é que define o tipo de anverso. No entanto, acabei descobrindo que, além da quantidade de faixas, também existe uma correlação entre as faixas e o desenho da rosa dos ventos.
Numa rápida análise, acabei percebendo que os dois tipos de diagramas da rosa dos ventos aparecem alternadamente nos cunhos do segundo anverso desde 2008-2015, formando uma subdivisão deste segundo tipo de anverso, ou então neste caso seria um terceiro anverso oriundo do segundo tipo. Ao combinar o segundo anverso com os dois tipos diferentes de diagrama da rosa dos ventos, acredito que possam existir (ainda estou pesquisando) pelo menos duas variantes de cunho em cada ano de 2010-2011-2012, as eras que em que percebi que existe probabilidade de alternância para os dois diagramas.

Resumindo a minha classificação, além do metal de 1998-2001 e 2002-2015, além dos dois tipos de reversos conhecidos de 1998-2003 e 2005-2015, ainda podemos encontrar combinações com o primeiro anverso (1) de 2002-2008, seguido do segundo anverso (2) de 2008-2009, e logo em 2010 se inicia uma alternância entre os dois tipos do segundo anverso (2a e 2b), e que volta novamente para o primeiro tipo (2a) de anverso em 2013/2015. Para facilitar a classificação, dividi o segundo tipo pelas linhas que formam o desenho da rosa dos ventos, e, sendo assim, eu chamei de FLECHAS LIGADAS e FLECHAS SOLTAS (em homenagem a mesma descrição encontrada no padrão de moedas de prata de 1912 onde as estrelas são separadas por traços ou não).

TIPO DE CUNHO => ERA

CUPRONÍQUEL com REVERSO (R1) => 1998-2003
ANVERSO (R1/A1) => 1998-2001

AÇO INOXIDÁVEL com REVERSO (R1) => 1998-2003
ANVERSO (R1/A1) => 2002-2003

AÇO INOXIDÁVEL com REVERSO (R2) => 2005-2015
ANVERSO (AI50-R2/A1) => 2005-2008
ANVERSO (AI50-R2/A2a) => 2008-2009
ANVERSO (AI50-R2/A2b) => 2010-2012 (nestas eras podem existir os 2 tipos)

AÇO INOXIDÁVEL com REVERSO (R2) => 5 CENTAVOS 2004-2015
ANVERSO (AI5(0)-R2/A2b) => 2012

AÇO INOXIDÁVEL com REVERSO (R2) => 2005-2015
ANVERSO (AI50-R2/A2a) => 2013-2015

OBS.: Agradeço pelo espaço se o colega permitir que seja divulgado e os demais “curiosos” nos ajudem a encontrar as variantes conhecidas que se encaixem neste padrão. Se considerar na soma os possíveis tipos de LEGENDAS (pelo menos dois tipos de letras – itálico e normal), este é sem dúvidas o cunho que mais possui variantes. É MUITA “BAGUNÇA” PRA ESTUDAR.

NOTA: Encontrei hoje um disco de 2011 praticamente (quase) sem legenda no rebordo, são quase 180 graus sem letras perceptíveis e 180 graus somente aparecem as sombras das letras. Não dá pra considerar como “sem letras no rebordo”, mas é um erro que vou guardar pra estudos também.

Três anversos para a moeda de 10 centavos

Parece que a lista de alterações nas moedas da segunda família do real não tem fim. Já relatamos neste blogue as mudanças no reverso de todas as peças e os redesenhos nos anversos das moedas de cinco, 25 e 50 centavos. Agora, a moeda de dez entra para tão afamado rol.

Em conversas e estudos com o confrade Valdir Holtman, que tem se tornado colaborador assíduo de nosso blogue, chegamos à evidência de que existem pelo menos três tipos de anverso para a moeda de 10 centavos de real da segunda família.

O anverso da peça mostra, na parte direita, o retrato três-quartos de dom Pedro I. Ao fundo, nosso primeiro imperador em pose baseada na tela de Pedro Américo (“Independência ou Morte”, 1888); fazendo fundo à cena, o ornamento que costumo chamar de “sol” e que também está presente nas moedas de 1, 5 e 50 centavos. Esse sol nada mais é que o campo central da moeda não ocupado por figura alguma e que recebeu um tratamento ornamental, que se traduz em um aspecto “arenoso”.

A alteração está no “sol”. Nas moedas de 2008 e anteriores, o aspecto arenoso é muito marcado; a partir de 2008, esse mesmo “sol” é muito mais atenuado. Nas fotos, a diferença é nítida.

À dir., detalhe do anverso da peça de 10 centavos de 2001; à esq., da de 2010 (fotos: cortesia de Valdir Luiz Holtman)

As fotos foram tomadas de peças em estado FDC, o que desfaz a tese do desgaste natural das peças.

E essa alteração se processou no meio da era, ou seja, para 2008, há os dois anversos. Como vimos fazendo em nossas pesquisas anteriores, chamaremos anverso A aquele que foi de 1998 a 2008 e B aquele que vem sendo usado desde 2008.

O fato dos dois anversos, um para 1998-2008 e outro para 2008-2015, nos parece fato consumado. O novo problema encontra-se nas moedas de 1998-2003; elas parecem apresentar um sol mais liso, similar ao do reverso B. Teríamos então três anversos? A’, do primeiro período, B e C? Infelizmente não possuo moedas desse período em quantidade suficiente para proceder à análise. O que os colegas e confrades tem a dizer?

Comparação dos anversos dos anos de 2010 (à dir.) e 2001 (à esquerda).

Fora alguns outros detalhes, como os botões do casaco de dom Pedro I.

A moeda de 1 real dos Direitos Humanos

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É difícil dedicar-se à pesquisa numismática pela internet. Grande parte das consultas e das comunidades dedicadas ao tema nas redes sociais é dominada por vendedores; existe um financismo excessivo no meio, o que não deixa de ser irônico para quem dedica a vida a colecionar e estudar a numária.

Nosso enfoque neste blogue não é o mercado numismático, mas a pesquisa de peças. Porém, é impossível fazer vista grossa a uma questão recente.

Os valores inflacionados de peças comum têm chamado a atenção. No centro da polêmica mais recente, o famoso real de 1998 que celebra os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ou, para sermos mais breves, o real Direitos Humanos (DH).

Com emissão de 600 mil exemplares, mas encontrá-la a preços decentes tem sido uma via-crúcis para o colecionador. Valor de catálogo em 2014 era de R$ 10 em condição FDC, porém, a peça não é achada por menos de R$ 50, chegando até mesmo a estratosféricos R$ 200. Consideremos que o catálogo, por defasagem ou cálculo errôneo, esteja desatualizado. Mesmo assim, as cifras vão acima de muitas moedas coloniais consideradas raras, com tiragem bem menor.

Não há por que desses valores. A moeda é categorizada pelo Bentes como C.1 (comum), ou seja, o segundo menor grau de raridade segundo aquele catálogo; o mais baixo é CC (muito comum). O que pretende com esses valores? Não faço a menor ideia. Mas recomendo aos colecionadores que segurem sua sanha de adquiri-la agora; é só esperar a bolha estourar.