Medalhística: os 140 anos da Colônia Murici

SÃO JOSÉ DOS PINHAIS/PR – Descendentes de poloneses em São José dos Pinhais, cidade vizinha à capital paranaense, Curitiba, apresentaram, no último dia 2 de março, à imprensa especializada o design da medalha que será produzida em comemoração aos 140 anos da fundação da Colônia Murici, em 2018. Importante espaço agroeconômico do município, a Colônia é reconhecida nacionalmente por ainda manter vivas muitas das tradições de seus fundadores poloneses.

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Desenho inicial do anverso mostrando uma carroça, representando a chegada dos poloneses, os pinheiros-do-paraná ou araucária (Araucaria angustifolia, árvore-símbolo do Estado), uma águia branca (ligada à simbologia da Polônia) e a constelação do Cruzeiro do Sul.

Cada medalha trará um desenho alusivo à imigração e contará com o patrocínio de empresas que terão seu logotipo no reverso das peças. Ao todo, serão produzidos pelo menos dez modelos diferentes, sendo um reverso para cada patrocinador.

Várias empresas já aderiram ao projeto, mas o grupo aguarda ainda a adesão de mais colaboradores.

As medalhas têm previsão de lançamento para 2018, durante as comemorações do aniversário da Colônia e estarão à venda em site especializado. O lucro obtido com a venda será destinado a estudos históricos e étnicos na região.

O projeto indica ainda que as medalhas serão fabricadas com a técnica de fundição e feitas de zamac (liga de zinco, manganês, alumínio e cobre), com 40 mm de diâmetro e massa aproximada de 25 g. Serão feitos 53 exemplares de cada uma das dez medalhas: 50 revestidos de níquel e três de prata esterlina (.925).

Esse tipo de emissão por entes não ligados diretamente ao âmbito tradicional, como Banco Central e Casa da Moeda, dá impulso à medalhística nacional. Iniciativas como esta da Colônia Murici são sempre muito bem-vindas.

Maiores informações pelo e-mail coloniamurici2018@gmail.com.

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Um substituto para o cruzeiro em 1964: o brasão

No caos econômico que dominou boa parte dos anos 1960, houve iniciativas de reforma monetária. Trazemos hoje o texto de um projeto de lei que, se aprovado, teria deixado nosso meio circulante bem diferente do que ele foi de fato. Atenção para as peças que seriam produzidas.

O projeto foi apresentado pelo deputado Laerte Ramos Vieira (UDN/SC), em 15 de setembro de 1964, e queria substituir o desvalorizado cruzeiro pelo brasão, que equivaleria a mil cruzeiros, mais ou menos como aconteceu efetivamente com a introdução do cruzeiro novo, em 1965. A diferença é que este projeto estabelecia moedas de outro e prata, suas efígies e cédulas cuja ideia pode ter servido de inspiração para a série que efetivamente entrou em circulação em 1970.

A título de curiosidade, o ex-deputado Laerte Vieira ainda é vivo. Uma nota biográfica sobre o pai do brasão vem a calhar. O resumo foi extraído do site da Secretaria da Fazenda de Santa Catarina.

18Nascido em Lages/SC, em 29/03/1925, filho de Álvaro Vieira e Altina Ramos Vieira. Bacharel em Ciências Contábeis e Atuariais pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade do Rio Grande do Sul (1949). Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de Santa Catarina (1956). Vereador de Lages/SC, legislatura de 1955 a 1959. Deputado na Assembléia Legislativa de Santa Catarina em duas legislaturas (1955-1959 e 1959-1963. Deputado na Câmara Federal em três legislaturas (1963-1967, 1971-1975 e 1975-1979. Vice-Presidente do Diretório Regional da UDN. Líder da UDN e do Governo na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina. Secretário do Interior e Justiça, secretário da Fazenda no período de 30/06/1960 a 30/01/1961, e da Segurança Pública (1960-1962). Candidato da UDN a Vice-Governador do Estado (1965). Vice-líder da UDN na Câmara dos Deputados. Membro da Ação Democrática Parlamentar (1963-1965). Membro do Instituto dos Advogados do Distrito Federal (1971). Advogado junto aos Tribunais Superiores de Brasília (1968-1973 e 1979). Membro efetivo da Comissão de Constituição e Justiça (1963-1967 e 1971-1975) e de Economia (1978-1979). Vice-líder do MDB na Câmara dos Deputados (1971). Membro da Comissão Executiva Nacional do MDB (1971). Líder do PMDB na Câmara dos Deputados (1975-1976 e 1977). Consultor-geral do Estado de Santa Catarina (1980-1983). Procurador-geral da Fazenda junto ao Tribunal de Contas (1983-1984). Membro da Comissão Afonso Arinos de Estudos Constitucionais (1986). Visita à Síria a convite do Governo daquele País. Delegado na XXIX Assembleia Geral das Nações Unidas. Grande Oficial da Ordem do MÉRITO DO CONGRESSO NACIONAL. Cavaleiro da Ordem do MÉRITO NAVAL. Medalha do Sesquicentenário do Senado Federal. Casado com Juça Therezinha Ribeiro Vieira e teve os filhos: Geraldo, Gabriel, Laerte, Guilherme, Maria Regina e Maria Cristina.

Projeto de lei nº 2.317/64

Institui o Brasão como unidade monetária
brasileira, e dá outras providências.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º – A unidade do sistema monetário brasileiro passa a ser o Brasão.

§ 1º – A centésima parte do Brasão denoninar-se-á Centavo.

§ 2º – As importâncias em dinheiro, qualquer que seja o seu valor, escrever-se-ão precedidas do símbolo Br$.

§ 3º – O Brasão corresponderá a mil cruzeiros (Cr$ 1.000,00)

Art. 2º – O meio circulante brasileiro será constituído por moedas metálicas e cédulas de papel-moeda.

Art. 3º – As moedas metálicas serão de três categorias:

a) Moedas de ouro que corresponderão a 100 e 50 brasões e terão as seguintes características:

Valor Diâmetro Efígie Peso
Br$ 100,00 32 mm Ruy Barbosa 16 grs.
Br$ 50,00 26 mm Tiradendes 8 grs.

b) Moedas de prata que corresponderão a 20 e 10 brasões e terão as seguintes características:

Valor Diâmetro Efígie Peso
Br$ 20,00 30 mm Barão do Rio Branco 12 grs.
Br$ 10,00 24 mm Duque de Caxias 6 grs.

c) Moedas de outros metais que corresponderão a 1, 2, 5, 10, 20 e 50 centavos e terão as seguintes características:

Valor Diâmetro Efígie
Br$ 0,50 27 mm Euclides da Cunha
Br$ 0,20 25 mm Oswaldo Cruz
Br$ 0,10 23 mm José Bonifácio
Br$ 0,05 21 mm Santos Dumont
Br$ 0,02 19 mm José de Anchieta
Br$ 0,01 17 mm Cruz e Souza

Art. 4º – As cédulas de papel-moeda corresponderão a 1, 2, 5, 10, 20, 50 e 100 brasões e terão as seguintes características:

Valor Formato Efígie
Br$ 1,00 60×140 mm Getúlio Vargas
Br$ 2,00 Mal. Deodoro da Fonseca
Br$ 5,00 Princesa Isabel

Br$ 10,00 65×150 mm D. Pedro II
Br$ 20,00 D. Pedro I
Br$ 50,00 D. João VI

Br$ 100,00 75×165 mm Pedro Álvares Cabral

Art. 5º – Incumbe exclusivamente à Casa da Moeda a cunhagem de moedas metálicas e a feitura das cédulas de papel-moeda que terão, além das características citaadas nos artigos anteriores, o peso, título, liga, tolerância da composição, inscrição no reverso, contorno, estampas, filigranas, padronagens, gravuras, motivos no reverso e cor estabelecidas por decreto do Poder Executivo.

Parágrafo único – Nenhuma moeda ou cédula poderá ser encomendada ou adquirida no estrangeiro, ressalvando apenas as partes de encomendas em via de execução.

Art. 6º – O Poder Executivo, através do Ministério da Fazenda, fixará as condições e os prazos dentros dos quais serão trocadas as moedas e cédulas atualmente em circulação e bem assim os prazos e descontos crescentes que sofrerão no período subsequente até perda total de seus valores.

Art. 7º – As moedas dos antigos cunhos serão gradualmente desamoedadas.

Art. 8º – É limitado em Br$ 1.500.000.000,00 (um bilhão e quinhentos milhões de brasões) o meio circulante, dependendo de autorização legislativa a emissão de moedas acima do teto fixado neste artigo.

Parágrafo único – A desobediência a este artigo importará em crime de responsabilidade do Presidente da República e do seu Ministro da Fazenda, nos termos do item VII do artigo 89, e parágrafo único do artigo 93 da Constituição Federal.

Art. 9º – É vedada, sob qualquer pretexto, a cunhagem de moeda comemorativa.

Art. 10 – A partir de 90 (noventa) dias da data da publicação desta lei, todos os atos e fatos relativos a dinheiro serão referidos e escriturados na nova moeda.

Art. 11 – É nulo de pleno direito qualquer cláusula contratual ou estipulação outra de pagamento em ouro, ou em determinada espécie de moeda metálica, por qualquer meio tendente a recusar ou restringir, nos seus efeitos, o curso forçado do brasão papel.

Parágrafo único – Não se incluem nas proibições deste artigo as obrigações contraídas no exterior, em moeda estrangeira, para serem executadas no Brasil.

Art. 12 – O Poder Executivo baixará, no prazo de 90 (noventa) dias da data de publicação, as normas regulamentares que se tornarem necessárias à prefeita execução desta lei.

Art. 13 – Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

(o dossiê do projeto pode ser consultado aqui)

Provas e ensaios. Por que tão poucas fotos

O colecionador tem acesso a vários bons catálogos de moedas brasileiras, como o Bentes, o Amato, o Krause e tantos outros. Do que se sente falta nessas monumentais publicações são fotografias dos ensaios, principalmente daquelas moedas que não vieram a circular. Sabe-se que algumas são raríssimas, chegando a ter valor de mercado estimado em R$ 20 mil, mas era importante que os colecionadores ou instituições que as detêm tornassem públicas imagens para os outros colecionadores. Destaque fazemos para os ensaios dos anos 60, em que várias peças projetadas não se tornaram peças de circulação, como as de 5 cruzeiros (1962, 1964 e 1965), 100 cruzeiros (1964) e 200 cruzeiros (1964).

Alguns projetos apresentados ao público pelo Jornal do Brasil, em 1964.

Polêmica – anomalias e variantes

Os meios numismáticos veem-se em nova polêmica. A mais recente, a chamada moeda de “globo triplo”, vem de confusão entre variante e anomalia.

Conceituemo-los:

Variante é uma alteração considerável na peça: mudança de desenhos (como as alterações nos anversos das moedas de 5, 10, 25 e 50 centavos) e troca de cunhos (como a famosa moeda de 50 centavos com o reverso da de 5, de 2012). Ou até mesmo a questão do posicionamento da inscrição na orla da peça de 50 centavos em relação ao anverso.

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Famosa peça de 50 centavos com o reverso da de 5 centavos, de 2012 (est. 40 mil exemplares)

As três variantes do anverso da peça de 10 centavos defendidas por nós

Anomalias são variações durante o processo de fabricação: batida dupla, bonés e até mesmo os reversos horizontais e invertidos.

À esq., moeda de 10 centavos como o famoso “globo triplo”; à dir., um “patinho feio” com boné

Um artigo elucidativo foi escrito por Celso Suzuki, “Anomalias e variantes”, e publicado no boletim nº 51 da AFSC, em 2004, deixa a questão muito clara.

Estojo vicentino

O estojo vicentino é fonte de muitas discussões. Trazemos hoje artigo de Emerson Pippi, associado da Associação Numismática Paranaense, que gentilmente nos autorizou a reprodução do texto.


O reconhecimento dos estojos vicentinos

O estojo vicentino é uma peça numismática cercada de dúvidas e suposições. Colecionadores e comerciantes não são unânimes quando questionados a respeito desse porta-joias do Estado Novo. Oitenta e quatro anos após seu lançamento, reunimos documentos e depoimentos que buscam provar sua autenticidade, oficialidade e quantidade.

Em virtude das comemorações ao quarto centenário da colonização do Brasil, a Casa da Moeda cunhou, em 1932, o conjunto de seis moedas, que viria a ser a famosa Série Vicentina, sendo estas as primeiras lançadas na era Vargas. Algumas séries foram acomodadas em belo estojo de madeira, com a imagem da Casa da Moeda estampada em sua tampa.

Periodicamente essa peça aparece em anúncios ou fóruns numismáticos. As perguntas, que invariavelmente acompanham essas citações, são respondidas com especulações. Não há certeza absoluta nas informações sobre a peça.

Uma publicação no Diário Oficial da União, no dia 13 de outubro de 1932, página 9, prova que o estojo é oficial da Casa da Moeda do Brasil.

O expediente do Ministério da Fazenda, em requerimento despachado pelo Diretor Geral do Tesouro Nacional ao Diretor da Casa da Moeda, diz:

Comunicando que o Sr. Ministro resolveu permitir que sejam vendidas diretamente pela Casa da Moeda as pequenas caixas de madeira contendo uma série completa das moedas divisionárias comemorativas do 4º centenário do inicio da Colonização do Brasil, devendo a mesma repartição incluir o produto da venda das moedas no total dos suprimentos que forem feitos à Tesouraria geral do Tesouro Nacional.

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Essa publicação descreve pequena caixa de madeira, ou seja, não são caixas comuns usadas para transporte das moedas. Também menciona que contém uma série completa das moedas, não deixando dúvidas que acomodam uma unidade de cada tipo de moeda da série.

No início pensamos que os estojos foram oferecidos para autoridades da época, mas o Diário Oficial informa que foram colocados à venda, talvez sendo uma sobra daqueles distribuídos inicialmente. Logicamente não é possível saber se foram realmente disponibilizados ao público ou reservados para colecionadores e amigos, mas é clara a designação que o dinheiro resultante da comercialização integraria o caixa do Tesouro Nacional.

Esse documento corrobora a tese que o Estojo Vicentino é oficial da CMB, e de conhecimento inclusive do Ministro da Fazenda, o ilustre Sr. Osvaldo Aranha.

O texto foi também reproduzido em jornais da época, como o Diário de Pernambuco:

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Há duas versões das caixas que são reconhecidas como originais. Isso aconteceu porque dois fornecedores diferentes confeccionaram os estojos para a CMB. Os dois tipos são bem parecidos, em formato arredondado.

Um dos modelos tem 13,8 cm de diâmetro e 2,3 cm de altura. Feito em madeira avermelhada de jacarandá, a tampa possui um sistema de fechamento em rosca com ¼ de volta. No centro da tampa, há uma belíssima gravação redonda com 5 cm de diâmetro, com a inscrição “Casa da Moeda Brasil” e uma imagem da fachada principal do antigo prédio dessa instituição no Rio de Janeiro.

Dento do estojo, há seis nichos para o encaixe das moedas da série. O tamanho dos entalhes é perfeito e ainda há uma pequena cavidade para facilitar a retirada de cada moeda. A disposição delas é circular, com a de 400 réis colocada no centro. Curiosamente, parece que falta uma peça para fechar o círculo. Temos a impressão que foi deixado espaço para mais uma moeda, ou talvez uma medalha.

A segunda versão é similar, mas foi feita em madeira mais escura, com acabamento melhorado nas bordas e ao redor dos nichos. Nesse modelo as moedas estão dispostas em círculo fechado, mantendo a de 400 réis no centro. Aqui não há cavidade para auxiliar o manuseio das moedas.

Depoimentos foram colhidos a respeito do estojo, e isso reforça a importância de sua autenticação. Figuras importantes da numismática brasileira tem opiniões conflitantes.

O numismata Antônio Tomaz, sócio-fundador da Sociedade Numismática Paranaense, levanta dúvida em relação à produção ter sido feita a mando da Casa da Moeda: “Após a série vicentina, só houve lançamento de moeda em estojo no ano de 1972, e mesmo assim não era de madeira”, diz. Segundo Tomaz, há possibilidade da caixa ter sido feito paralelamente, sendo uma falsa da época, no intuito de acomodar as recém-lançadas moedas comemorativas.

Assim como estão fazendo hoje vários álbuns para as moedas olímpicas. Esses álbuns também ficarão antigos daqui a 80 anos e poderão ser avaliados como originais.

Ex-presidente da SNP, Denis Renaux discorda. Ele afirma que o estojo é oficial da CMB e ainda discorre sobre a técnica de gravação no jacarandá.

A imagem da tampa não é entalhada. Eles esquentavam a madeira e faziam a cunhagem. Era um método impressionante para a época.

Após a confirmação da oficialidade, temos outra importante questão: Quantos estojos foram feitos? Sabemos que a quantidade é somente um dos fatores que compõem o valor de uma moeda ou conjunto. O estado de conservação, a lei de oferta e procura e a história por trás do objeto também formam a avaliação. Ainda assim, a quantidade é elemento primordial para sabermos o grau de raridade e escassez de uma peça numismática. Sem essa informação voltaremos ao nível das especulações.

Chegamos então ao Catálogo das Moedas Brasileiras de Kurt Prober. Na página 170 da terceira edição, de 1981, o alemão menciona: “Quer me parecer que 214 era a quantidade de estojos oficiais feitos na C. da Moeda para êstes jogos”.

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A publicação e citação do estojo por Prober valida a sua autenticidade, além de confirmar a quantidade produzida. O alemão é um dos pais da numismática brasileira e jamais publicaria algo sem ter fonte e embasamento.  Conversamos com Cláudio Amato, co-autor do “Livro das Moedas do Brasil” e ele é da mesma opinião: “Se Kurt Prober tivesse alguma dúvida quanto a uma informação preferiria não escrever do que passar a informação errada”. Amato também disse que conhece o estojo, mas não tem nenhuma maior informação sobre ele e um artigo elucidatório seria de boa importância.

O próximo passo quem deve dar são os autores dos catálogos brasileiros. Pediremos que publiquem em seus livros esse belíssimo exemplar da nossa história numismática. As moedas comemorativas, circulantes ou não, tem diferença de cotação quando acomodadas em seus estojos originais. A inclusão e descrição evitaria a falsificação e solucionaria as dúvidas que cercam a caixa vicentina, além de dar-lhe o devido valor.


Bibliografia

Catálogo das Moedas Brasileiras, Kurt Prober, 3ª edição, 1981

http://www.forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=54&t=98954&start=20

http://www.moedasdobrasil.com.br/ – Eduardo Rezende

Diário Oficial da União, edição de 13/10/1392, página 9.

Diário de Pernambuco, edição de 21/10/1932.

Moeda furada brasileira

Quando se planejou a nova série brasileira para substituir a famosa MCMI, no final dos anos 1910, cogitou-se uma moeda com furo central, como as japonesas, gregas e espanholas que conhecemos. Há um ensaio de 20 réis, de 1918, com um furo.

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Ensaio de moeda furada de $020 (fonte: AMATO; IRLEI, 2012)

Embora a peça não tenha entrado em circulação, ensaios existem e podem alcançar R$ 1,5 mil (Catálogo Bentes, E87.04) ou até R$ 2,5 mil (Catálogo Amato, E154).

O furo serve para que moedas que seriam muito pequenas não fossem assim tão diminutas. A economia do metal ao centro permite que a peça seja um pouco maior. Embora não tenhamos o diâmetro dos $020 furados, temos o da moeda que, de fato, entrou em circulação: 15 mm.

É realmente uma pena que os $020 furados não tenham entrado em circulação.

Da esq. à dir., de cima para baixo: 25 cêntimos (Espanha), 1 coroa (Dinamarca), 10 cêntimos (França de Vichy), 5 ienes (Japão) e 10 lepta (Grécia).

Moedas da FAO

Em 1968, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations) deu início a um projeto para emissão de moedas com o tema da produção de alimentos. Naquele ano, mais de 20 países participaram emitindo peças temáticas.

O Brasil emitiu peças no seio desse programa em três ocasiões: 1975, 1985 e 1995, sempre coincidindo com o aniversário decenal da FAO, fundada em 1945.

A primeira emissão brasileira constava de três moedas: 1, 2 e 5 centavos, emitidas entre 1975 e 1978. Todas as peças traziam o anverso comum da série, da efígie da República. No reverso, a de 1 centavo trazia a cana-de-açúcar; a de 2, a soja; e a de 5, a cabeça de um boi; as moedas apresentavam ainda a inscrição “alimentos para o mundo”.

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Emissão FAO brasileira (1975-1978).

A segunda emissão deu-se em 1985, nos valores de 1 e 5 cruzeiros, cujos anversos foram redesenhados para a ocasião, mas trazendo os mesmos “homenageados”, o cana e o café, respectivamente. Também constava a inscrição “alimentos para o mundo”.

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Emissão FAO 1985: à esq., peça de 1 cruzeiro; à dir., a de 5.

A terceira emissão foi em 1995, com as moedas de 10 e 25 centavos da primeira família do real; a celebração deu-se com a mudança no anverso das peças. A moeda de 10 centavos mostra duas mãos formando uma concha com um punhado de terra, do qual brota uma planta; abaixo: “FAO  1945/1995” e “Alimentos para o mundo”, além da inscrição “Brasil”. Na de 25 centavos, um lavrador debruçado tratando de uma planta folhosa, com as mesmas inscrições.

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Emissão FAO 1995. À esq., 25 centavos; à dir., 10.

Depois dessa data, o Brasil não emitiu mais peças no âmbito do programa, que foi extinto pela FAO em 2008.

Neste link, em inglês, uma resenha sobre o FAO Coins International Catalog, do colecionador italiano Atilio Armiento.

Logo, as emissões FAO brasileiras somam 12 peças: 1, 2 e 5 centavo (1975, 1976, 1977 e 1978), 1 e 5 cruzeiros (1985) e 10 e 25 centavos (1995).

Flotilha numismática

Hoje escolhemos algumas moedas que trazem embarcações. Há gente que coleciona moedas por temas, e o tema pode ser-lhe interessante.

Em primeiro lugar, o meio penny pré-decimal britânico, que circulou no Reino Unido até 1968. O reverso traz o galeão “Golden Hind”, que foi comandado pelo capitão sir Francis Drake e ficou conhecido pela viagem de circum-navegação do globo, entre 1577 e 1580. Chamava-se originalmente “Pelican”, mas seu capitão mudou seu nome no meio da célebre viagem. A gravação é obra de Thomas Paget, em 1937. Aparentemente drapejam no galeão uma bandeira escocesa (à esq.) e uma irlandesa enquanto nação constituinte do Reino Unido (à dir.); ao centro, a flâmula naval inglesa.

g2066fO anverso da moeda de 5 pesos (1961-8) traz a fragata ARA Presidente Sarmiento. O famoso navio de fabricação britânica serviu à Armada Argentina de 1898 até 1961. Desde 1964 é um navio-museu e está ancorado em Puerto Madero, Buenos Aires. É habitualmente confundido com outro navio-escola argentino, o ARA Libertad, que está na marinha desde 1963.

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A nossa moedinha de 1 centavo (1998-2004) traz no anverso, além da efígie do navegador português Pedro Álvares Cabral, uma nau, de velas quadradas, costumeiramente confundida com uma caravela, que tem velas triangulares.

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As moedas portuguesas de 2$50 (1963-85), 5 (1963-86) e 10 escudos (1971-4) mostram no anverso uma caravela. A moeda de 50 escudos (1986-2000) traz no anverso uma nau estilizada.

À esq., anverso comum das moedas de 2$50, 5 e 10 escudos; à esq., o anverso da peça de 50 escudos

A moeda de 5 patacas, de Macau, traz, no reverso, diante das chamadas ruínas de São Paulo, um tradicional junco chinês.

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Reverso da moeda de 5 patacas

As moedas cipriotas são pródigas em embarcações. Associando sua tradição grega e o fato de ser uma ilha, Chipre cunhou trirremes em várias peças.

No alto, à esquerda, o anverso comum das peças cipriotas de 10, 20 e 50 cêntimos de euro; à direita, no alto, 5 mils de alumínio (1982); abaixo, 5 mils de bronze (1963-80); em baixo, 100 mils (1955 e 1957)

Quantas moedas desde 1942?

Desde 1942, tivemos várias moedas e muitas peças foram emitidas. Quantas exatamente? Contemos.

Vamos nos limitar a alterações, sem contar as emissões por ano.

O primeiro cruzeiro (1942-65) soma 20 peças.

O cruzeiro novo/segundo cruzeiro (1967-86), 33. Já são 53.

O cruzado (1986-8) deu-nos 11 moedas. Temos 64.

O cruzado novo/terceiro cruzeiro (1989-93), 16. São 80 moedas.

O cruzeiro real (1993-4) presenteou-nos com 4 peças. São 84.

A primeira família do real (1994-7), 8 moedas. Somam-se 92.

A segunda família do real (desde 1998), incluindo todas as comemorativas, somam 137.

Esta lista inclui alterações de anverso ou reverso (principalmente na primeira série do primeiro cruzeiro) e mudanças de metal (na primeira série do segundo cruzeiro), mas não a questão dos monogramas (na primeira série do primeiro cruzeiro) ou as eras das peças.

Os múltiplos e submúltiplos de 2 na numária brasileira

Primeiramente, alguns conceitos básicos. Em tese, as moedas de submúltiplos são planejadas de modo a uma quantidade determinada delas ser equivalente à unidade. Por exemplo, em nosso atual sistema centesimal:

A moeda de 1 centavo equivale à fração 1/100; com cem delas forma-se 1 real;

A moeda de 5 centavos equivale à fração 5/100, ou 1/20; com 20 delas forma-se 1 real;

A moeda de 10 centavos equivale à fração 10/100, ou 1/10; com dez delas forma-se 1 real;

A moeda de 25 centavos equivale à fração 25/100, ou 1/4; com quatro delas forma-se 1 real;

A moeda de 50 centavos equivale à fração 50/100, ou 1/2; com duas delas forma-se 1 real.

Note-se que os valores base são 1, 5 e 10, sendo os outros derivados: 25 = 5.5; 50 = 5.10. Todos redutíveis a uma fração de numerador 1.

No que se refere à numária brasileira, é interessante notar a presença esporádica de submúltiplos de 2. Na primeira (1942-56) e segunda (1957-61) séries, além da série das pequeninas (1956), do primeiro cruzeiro, tivemos moedas de 20 centavos e 2 cruzeiros. A terceira série (1965) teve uma moeda de 20 cruzeiros. Os 20 centavos formam a fração 1/5; a peça representante 1/5 voltaria ainda na primeira série do segundo cruzeiro (1967-79), que trouxe ainda a única moeda de 2 centavos que tivemos na nossa história, cuja fração é 1/50.

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A única moeda de 2 centavos da numária brasileira

A segunda série (1979-86) do segundo cruzeiro, embora pulasse o valor de 2 cruzeiros, trouxe-nos uma moeda de 20. A terceira série (1985-6) teve também uma moeda de 200 cruzeiros.

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20 cruzeiros (1981)

A série do cruzado (1986-8), herdeira estética dessa terceira série do segundo cruzeiro, trouxe a moeda de 20 centavos, mas não uma de 2 centavos ou uma de 2 cruzados, ficando como única representante dos múltiplos e submúltiplos de 2.

A partir de 1989, com a introdução do cruzado novo, o 2 foi definitivamente banido da numária brasileira.

Porém, com a criação do real, em 1994, entrou uma variante de submúltiplo de base 5, a peça de 25 centavos, formando a fração 1/4, novidade absoluta na numária brasileira.

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A arte final da segunda moeda de 25 centavos (1998)

O Brasil teve ainda valores submúltiplos menos ortodoxos, como os $400, equivalentes a 2/5 da unidade, introduzidos em 1901, e os $300 (3/10), introduzidos em 1936, irredutíveis a uma fração de numerador 1, o que significa que é impossível, com uma quantidade x de peças, atingir exatamente a unidade.

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300 réis (1936)

Há frações de numerador 1 comuns em outros países, como a Venezuela, que teve em períodos de sua história a peça de 12½ cêntimos, a chamada locha, que equivale a 1/8 da unidade, ou os Países Baixos, que tiveram a moeda de 2½ cent, equivalente à fração 1/40.

Na imagem maior, 15 copeques da URSS; à dir., no alto, 15 cêntimos do Paraguai; abaixo, 12 1/2 cêntimos da Venezuela

Há países que emitiram moedas cuja fração não era de denominador 1, como o Paraguai (15 cêntimos, fração 3/20) ou a URSS, com as moedas de 3 (3/100) e 15 copeques (3/20).

A base 2 nas cédulas

Nas estampas das cédulas do primeiro cruzeiro (1942-66), havia cédulas de 2 (Duque de Caxias), 20 (Marechal Deodoro) e 200 cruzeiros (Pedro I). Com a aceleração da inflação, entre o final dos anos 1950 e começo dos 1960, foi emitida a cédula de 5 mil cruzeiros, e não de 2 mil, o que quebrou com a sequenciação da base 2.

No cruzeiro novo, embora as moedas tivessem valores de base 2, as cédulas da primeira família não seguiam o mesmo padrão, inclusive na parte estética. As cédulas eram de 1, 5, 10, 50 e 100 cruzeiros, com lançamento posterior de uma cédula comemorativa de 500 cruzeiros.

A segunda família do segundo cruzeiro trazia uma cédula de 200 cruzeiros, com tons verdes e arroxeados, que circulou na primeira metade dos anos 1980.

A última cédula de base 2 antes do real foi a comemorativa de 200 cruzados novos/cruzeiros, que celebrava o centenário da República, lançada em 1989.

Somente em 2001 o Brasil voltaria a ter uma cédula de base 2, com o lançamento da peça de 2 reais. No ano seguinte, deu-se a introdução da cédula de 20 reais.