O cruzeiro real que nunca foi

O cruzeiro real foi a unidade monetária do Brasil entre 1º/8/1993 e 30/6/1994. Em seus nove meses de existência, foram lançadas quatro peças metálicas: em 20 de setembro de 1993, as de 5 e 10 cruzeiros reais (Comunicado BC nº 3.508, de 17/9/1993), e, em 10 de dezembro do mesmo ano, as de 50 e 100 cruzeiros reais (Comunicado BC nº 3.624, de 8/12/1993). Foram moedas efêmeras, pois perderam poder liberatório em 15/9/1994, já na vigência do real (Circular BC nº 2.471, de 24 de agosto de 1994).

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Da dir. para a esq.: anverso das peças de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (fonte: Mercado Livre).

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Da esq. para a dir.: reverso das peças de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (fonte: Mercado Livre).

As quatro moedas são nossas conhecidas. Emitidas com eras 1993 e 1994, não há quem não as tenha em suas coleções. A peça de 5 traz em seu anverso um par de araras; a de 10, um tamanduá; a de 50, uma onça-pintada e sua cria; e a de 100, o lobo-guará. O cruzeiro real deu continuidade “natural” à série que vinha já do cruzeiro (1990-1993), com as peças de 100 (peixe-boi), 500 (tartaruga marinha) e 1.000 cruzeiros (acará), seja nas dimensões ou na temática.

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Da esq. para a dir.: moedas de 1.000, 500 e 100 cruzeiros que provavelmente seriam a base das peças de 1 cruzeiro real, 50 e 10 centavos (fonte: sergiobatista-moedas)

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Moedas de 10 e 50 cruzeiros, possíveis bases (a serem reduzidas?) das moedas de 1 e 5 centavos de cruzeiro real.

Porém, há um detalhe que passa despercebido a muita gente. Trata-se da Resolução BC nº 2.010, de 28/7/1993, que é justamente a que informa sobre a vigência iminente do cruzeiro real. Ali há a previsão de uma família um pouco diferente daquela que conhecemos.

Art. 19. As moedas divisionárias a que se refere o artigo precedente serão cunhadas em aço inoxidável, com temática centrada em aspectos típicos do Brasil, observando as características gerais adiante descritas:

A – 1 centavo do cruzeiro real: – diâmetro: 16 mm; – tema do anverso: Seringueiro;

B – 5 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 17 mm; – tema do anverso: Baiana;

C – 10 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 18 mm; – tema do anverso: Peixe-Boi;

D – 50 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 19 mm; Resolução n° 2010, de 28 de julho de 1993 – tema do anverso: Tartaruga-Marinha;

E – 1 cruzeiro real: – diâmetro: 20 mm; – tema do anverso: Acará.

Ninguém viu essas moedas. Na verdade, elas seriam adaptação da numária até então vigente.

As moedas de 1 e 5 centavos apresentadas têm os mesmos temas das moedas de 10 e 50 cruzeiros emitidas entre 1990 e 1992, mas os tamanhos são diferentes: enquanto a moeda de 10 cruzeiros tinha 22,5 mm de diâmetro, a nova peça equivalente, de 1 centavo, teria apenas 16mm; a de 50 cruzeiros media 23,5 mm; a equivalente de 5 centavos teria 17 mm. No que se pensava no Banco Central e na Casa da Moeda? Em versões reduzidas, como ocorreu com as moedas de 5, 10 e 50 pence no Reino Unido?

As medidas dessas duas peças novas fariam conjunto perfeito com as adaptações das moedas de 100, 500 e 1.000 cruzeiros (10, 50 centavos e 1 cruzeiro real, respectivamente), com 17 mm, 18 mm e 19 mm, nessa sequência.

Como a iconografia é mantida pelo decreto, imagina-se, pelo menos para as moedas de 10, 50 centavos e 1 cruzeiro real a adaptação das peças de cruzeiro.

É curioso ainda notar o art. 20 da mesma resolução:

Art. 20. O Banco Central do Brasil colocará em circulação, até 31.12.93, moedas dos valores de CR$ 5,00 (cinco cruzeiros reais) e CR$ 10,00 (dez cruzeiros reais), adaptando ao novo padrão monetário as características gerais das moedas de Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) e Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros), aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional, em sessão de 29.06.93, e adiante descritas:

A – 5 cruzeiros reais: – diâmetro: 21 mm; – tema do anverso: Arara;

B – 10 cruzeiros reais: – diâmetro: 22 mm; – tema do anverso: Tamanduá-Bandeira.

Ou seja, as peças de 5 e 10 cruzeiros reais seriam lançadas como 5 mil e 10 mil cruzeiros. E se foram aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional, provavelmente há arte-final dessas peças, ou na Casa da Moeda ou no Banco Central.

O fato de não termos visto essas moedas divisionárias do cruzeiro real deve-se à inflação e seu valor já muito baixo. Corrigido pelo IGP-M, o valor atual (janeiro/2017) de um cruzeiro real seria de R$ 0,10, o que tornaria as moedas divisionárias inúteis. Para uma comparação, a primeira cotação do dólar em cruzeiro real, em 2/8/1993, foi de CR$ 72,06.

Referências

BACEN – BANCO CENTRAL DO BRASIL. Circular nº 2.471, de 24 de agosto de 1994. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/43168/Circ_2471_v1_O.pdf>. Acesso em 23 fev. 2017.

______. Resolução nº 2.010, de 28 de julho de 1993. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/43582/Res_2010_v1_O.pdf>. Acesso em 23 fev. 2017.

Quantas moedas desde 1942?

Desde 1942, tivemos várias moedas e muitas peças foram emitidas. Quantas exatamente? Contemos.

Vamos nos limitar a alterações, sem contar as emissões por ano.

O primeiro cruzeiro (1942-65) soma 20 peças.

O cruzeiro novo/segundo cruzeiro (1967-86), 33. Já são 53.

O cruzado (1986-8) deu-nos 11 moedas. Temos 64.

O cruzado novo/terceiro cruzeiro (1989-93), 16. São 80 moedas.

O cruzeiro real (1993-4) presenteou-nos com 4 peças. São 84.

A primeira família do real (1994-7), 8 moedas. Somam-se 92.

A segunda família do real (desde 1998), incluindo todas as comemorativas, somam 137.

Esta lista inclui alterações de anverso ou reverso (principalmente na primeira série do primeiro cruzeiro) e mudanças de metal (na primeira série do segundo cruzeiro), mas não a questão dos monogramas (na primeira série do primeiro cruzeiro) ou as eras das peças.

Un breu històric de les unitats monetàries brasileres

An english version of this text is available here.
Una versión de este texto en español está disponible aquí.
Una versione di questo testo in italiano si può leggere qui.

Brasil va tenir moltes monedes dins la seva història. La primera va ésser heretada de Portugal. Del 1500 fins el 1822, nostra moneda va ésser el real portugués (pl. réis). Després de la independència, dins el 1822, el vell real portugués va ser convertida en el real brasiler, però, el 1833, una llei de la Regència va establir de facto el mil-réis com a unitat monetària (mil-réis vol dir mil réis). Això va transformar el mil-réis en una moneda mil·lesimal: el real era la mil·lèsima part del nou mil-réis.

100reis

100 réis (1871)

Aquest mil-réis va sobreviure fins el 1942. En aquell any, un decret llei de la dictadura Vargas va convertir 1 mil-réis en 1 cruzeiro. L’origen de la nova denominació és la constel·lació de la Creu del Sud (Cruzeiro do Sul en portugués), utilitzada com a símbol nacional. És també el debut del centavo (cèntim o centau).

Monedes i bitllets del primer cruzeiro (1942-1966).

Aquest primer cruzeiro (hi hauran dos altres en el futur) va ser la nostra moneda fins el 1966. Llavors, la desvaloració i l’inflació van fer necessària una reforma. Mil cruzeiros van esdevenir 1 cruzeiro novo (como el noveau franc en França). El 1970, només la denominació va cambiar un altre cop, però la raó es va mantenir 1:1, com també va succeir en França.

Bitllets i monedes el segon cruzeiro (1966-1986)

El segon cruzeiro (croat) va durar fins el 1986. L’inflació va fer necessària un’altra reforma, i altre canvi es va fer: mil cruzeiros van esdevenir 1 cruzado. El nom vé de una vella moneda d’or dels temps colonials.

Bitllet de 10 mil cruzados i moneda de 10 cruzados

L’inflació es va tornar implacable. Dins el 1989, altra reforma amb la raó de 1:1.000. Mil cruzados es van esdevenir un cruzado novo. El 1990, el nom va ser canviat de cruzado novo per a cruzeiro (el tercer cruzeiro). El 1993, altra reforma: mil cruzeiro es van esdevenir 1 cruzeiro real. Aquesta va ser la nostra moneda més efímera: va durar 11 mesos.

Bitllet comemoratiu dels cent anys de la República (200 cruzeiros) i moneda de 1 cruzado novo (que no va circular mai)

Moneda de 100 cruzeiros reais i bitllet de 5 mil cruzeiros reais, que fa homatge a un tipus regional brasiler, el gaucho

L’última reforma va tenir lloc el juny de 1994. Un pla d’estabilització, dit Plano real, ha canviat la moneda altre cop, però la raó de conversió va ser 2.750; 2.750 cruzeiros reais era el canvi per 1 real. El nom ve de la vella unitat colonial, imperial i de l’inici de la República (però el plural no és réis, com la vella, però reais, la forma moderna).

Monedes i bitllets del segon real (1994 fins l’actualitat)

Del 1994, la moneda de Brasil és la mateixa. El real és l’unitat més estable del període de l’Imperi.

Una breve storia delle unità monetarie brasiliane

Here is a english version of this text.
Aquí hay una versión en español de este texto.

Il Brasile ebbe molte monete nella sua storia. La prima fu ereditata da Portogallo. Dal 1500 fino il 1822, la nostra moneta fu il real portoghese (pl. réis). Dopo l’indipendenza, nel 1822, la moneta passó ad essere il real brasiliano, peró nel 1833, una legge della Regenza stabilì de facto il mil-réis come unità monetaria (mil-réis vuol dire mille réis). Ciò trasformó il mil-réis in una moneta millesimale: il real era la millesima parte de l’unità.

100reis

100 réis (1871)

Questo mil-réis sopravisse fino il 1942. In quest’anno un decreto legge della dittatura Vargas convertì 1 mil-réis in 1 cruzeiro. La nuova denominazione venne della costellazione della Croce del Sul (Cruzeiro do Sul in portoghese), usata come simbolo nazionale. E’ anche il debutto del centavo (la centesima parte del cruzeiro).

Banconota da 200 cruzeiros e monete del primo cruzeiro

Il primo cruzeiro (ci saranno altre due edizioni negli anni seguenti) fu la nostra moneta fino al 1966. Quindi, la svalutazione e l’inflazione forzarono una riforma. Mille cruzeiros diventarono 1 cruzeiro novo (nuovo, come il noveau franc in Francia). Nel 1970, soltanto la denominazione fu cambiata di nuovo per cruzeiro, ma la relazione si mantenne 1:1, anche come successe in Francia.

Banconota da 50 cruzeiros e moneta da 20 centavos delle prime famiglie

Questo secondo cruzeiro durò fino al 1986, L’inflazione portò una nuova riforma: mille cruzeiros diventarono 1 cruzado. Il nome viene da una vecchia moneta coloniale d’oro.

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Moneta da 10 cruzados

L’inflazione diventò incontrollabile. Nel 1989, una nuova riforma 1:1.000. Mille cruzados diventano 1 cruzado novo (il novo di nuovo). Nel 1990, il nome fu cambiato: 1 cruzado novo diventò 1 cruzeiro (il terzo cruzeiro); nel 1993, altra riforma venne fatta: mille cruzeiros diventano 1 cruzeiro real. Fu la nostra moneta più breve: durò 11 mesi.

Banconota e moneta del terzo cruzeiro

L’ultima riforma venne nel 1994. Un piano di stabilizzazione monetaria, chiamato Plano Real, cambiò la valuta di nuovo. La tassa di conversione fu 1:2.750; 2.750 cruzeiros reais diventarono 1 real. Il nome venne dalla vecchia valuta coloniale, imperial e dei primi anni della Repubblica (il plurale non è réis, come la vecchia moneta, ma reais, la forma moderna del plurale).

Monete e banconote del secondo real

Dal 1994, la valuta brasiliana è la stessa. E’ il periodo più stabile dal tempo dell’Impero (1822-1889).

Una breve historia de las unidades monetarias brasileñas

There is a english version of this text.

Brasil tuvo muchas monedas en su historia. La primera fue heredada de Portugal. De 1500 hasta 1822, nuestra moneda fue el real portugués (pl. réis). Después de la independencia, en 1822, la moneda pasó a ser el real brasileño, pero en 1833 una ley de la Regencia estableció de facto el mil-réis como unidad monetaria (mil-réis quiere decir mil réis). Eso transformó el mil-réis en una moneda milesimal: el real era la milésima parte de la unidad.

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100 réis (1871)

Ese mil-reis sobrevivió hasta el 1942. En ese año, un decreto-ley de la dictadura Vargas convirtió 1 mil-réis en 1 cruzeiro. La nueva denominación vino de la constelación de la Cruz del Sur (Cruzeiro do Sul en portugués), usada como símbolo nacional. Es también el estreno del centavo.

Billete de 10 cruzeiros y monedas del primer cruzeiro

Ese primer cruzeiro (habrán aun otros dos en el futuro) fue nuestra moneda hasta 1966. Entonces, la desvalorización y la inflación hicieron necesaria una reforma. Mil cruzeiros fueran convertidos en 1 cruzeiro novo (novo: nuevo, como el noveau franc en Francia). En 1970, solo la denominación fue alterada nuevamente para cruzeiro, pero la relación se mantuvo en 1:1, como también ocurrió en Francia.

Moneda de 1 cruzeiro y billete de 10o cruzeiros de las primeras series.

Ese segundo cruzeiro duró hasta 1986. La inflación hizo necesaria una nueva reforma, y otro cambio se dio: mil cruzeiros se han convertido en 1 cruzado. El nombre viene de una vieja moneda de oro de los tiempos coloniales.

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Moneda de 10 cruzados

La inflación volvió implacable. En 1989, una nueva reforma con corte de tres ceros. Mil cruzados se convierten en 1 cruzado novo (el novo de nuevo). En 1990, el nombre fue cambiado: 1 cruzado novo se convirtió en 1 cruzeiro (el tercer cruzeiro). En 1993, otra reforma fue necesaria: mil cruzeiros pasan a ser 1 cruzeiro real. Esa fue nuestra más breve moneda: duró 11 meses.

Billete y moneda del tercer cruzeiro

La última reforma se dio en 1994. Un plan de estabilización, llamado Plano Real, cambió la moneda otra vez, pero el factor de conversión fue 2.750; 2.750 cruzeiros reais se transformaron en 1 real. El nombre vino de la vieja unidad colonial, imperial y del comienzo de la República (pero el plural no es réis, como la vieja moneda, sino reais, la forma moderna del plural).

Monedas y billetes del segundo real

Desde 1994, la moneda de Brasil es la misma. El real es la unidad más estable desde los tiempos del Imperio.

22 anos de plano Real

Hoje, 1º de julho de 2016, o plano Real e a moeda homônima completam 22 anos. E não é pouco: trata-se da unidade monetária mais longeva depois do mil-réis; também marca o fim de um período “maldito” de oito anos (1986-1994), em que tivemos apenas quatro moedas: cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real.

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Moeda de 100 cruzeiros reais, a mais alta desse padrão monetário

No que concerne ao meio circulante metálico, tivemos duas famílias de moedas. A primeira, batida entre 1994 e 1997, era de uma sensaboria ímpar, com aproveitamento de discos da família anterior (cruzeiro/cruzeiro real), trazia o valor no reverso e uma mal-ajambrada efígie da República no anverso. Tinha jeito e cheiro dinheiro provisório e pesou um pouco no descrédito inicial que o plano enfrentou. Lembro-me bem da fala de um freguês do meu pai:

— Um real, daqui seis meses, não vai dar para comprar um chiclete.

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A anverso comum das moedas da primeira família

Por sorte, nosso pessimista errou. Apesar de inflação acumulada pelo IPCA até março de 2016 ser de 438%, o que equivale dizer que R$ 1 de 1994 tem o mesmo poder de compra de R$ 5 hoje, ou que o poder de compra de R$ 0,20 em 1995 é preciso, hoje, ter R$ 1.

Mesmo com crises e vaivéns, trata-se do período economicamente mais estável desde o fim do Império.

A primeira família de moedas provou a durabilidade do aço como material de cunhagem. O Brasil começou a bater do metal em 1967 e, de 1979 a 1997, só fabricou moedas de aço. As velhinhas da primeira família ainda perambulam pelos nossos bolsos e mantêm-se em bom estado, mesmo após dois decênios de circulação.

Apesar de tudo, não se trata de opção primeira mundo afora. Conforme algumas pesquisas que vimos conduzindo, o primeiro país do mundo a introduzir moedas de aço inoxidável, em substituição às de cuproníquel, foi a Itália. O acmonital (do it. acciaio monetário italiano) foi introduzido na cunhagem em 1936, na chamada “série imperial”. No pós-guerra, o alumínio dominou a numária italiana; somente em 1954 foi emitida a peça de 50 liras de aço, e, em 1955, a de 100 liras. A Itália cunhou peças do metal até 1992.

Peça de 2 liras da série imperial (à esq.) e de 100 liras (à dir.)

Voltando ao Brasil, o aço provou sua vitalidade em moedas que circulam há mais de 20 anos. Ainda temos as moedas de 50 centavos e o núcleo da moeda de 1 real de aço inox — as outras são de aço baixo-carbono revestidas de cobre (5 centavos) e bronze (10 e 25 centavos e o anel da moeda de 1 real). Talvez fosse o tempo de pensar numa terceira série, toda em aço, mas sem a pobreza estética da primeira família. É possível fazer belas moedas de aço, e matéria-prima não nos falta.

A brief history of Brazilian currencies

Brazil had many currencies in its history. The first one was inherited from Portugal. From 1500 to 1822, our currency was the Portuguese real (pl. réis). After independence, in 1822, currency changed to Brazilian real, but in 1833, an act of Regency de facto established the mil-réis as currency unit (mil-réis means one thousand réis). This turned mil-réis into a millesimal currency: the real was the thousandth part of the currency.

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100-réis coin (1871)

This mil-réis survived until 1942. In this year, a Vargas’ dictatorship decree converted one mil-réis in one cruzeiro. The new denomination comes from the Southern Cross constellation (Cruzeiro do Sul in Portuguese), used as a national symbol. It’s the début of centavo (a hundredth of the currency; a cent).

First cruzeiro coins and banknotes

This first cruzeiro (there were two others in the future) was our currency until 1966. Then, devaluation and inflation made necessary a reformation. One thousand cruzeiros were revaluated to one cruzeiro novo (novo means new, like the noveau franc in France). In 1970, only the denomination changed again to cruzeiro, but this was at par, like in France.

Second cruzeiro. One-cruzeiro coin (1970-1979) and 100-cruzeiros bill (1970-1979)

This second cruzeiro lasted until 1986. Inflation made necessary a new reformation, then other change was made: 1,000 cruzeiros became 1 cruzado. The name comes from an old gold coin from colonial times.

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A 10-cruzados coin.

Inflation became implacable. In 1989, a new reformation 1:1,000. One thousand cruzados became 1 cruzado novo (the new again). In 1990, name changed again, but at par: 1 cruzado novo became 1 cruzeiro (the third cruzeiro). In 1993, another reformation was necessary: 1,000 cruzeiros became 1 cruzeiro real. That was our most short-lived currency: about 11 months.

Third cruzeiro: coin and bill

The last reformation came in 1994. A stabilization plan, called Plano Real, changed the currency again. The ratio was 1:2,750; 2,750 cruzeiros reais became 1 real. The name comes from the old colonial, imperial and early republican currency (the plural isn’t réis, like the old currency, but reais, the modern form of plural).

From left to right: 1-real bill (first series), 1-real coin (second series), 25-centavos (first series) e 10-centavos (second series)

From 1994, currency stays the same. It’s the most stable currency since imperial times (1822-1889).

Beija-flores

Este interessante artigo do Diniz Numismática mostra a inspiração muito similar em cédulas totalmente diferentes, no caso, uma hondurenha e uma brasileira.

Mas o nosso querido Banco Central reutilizou artes já prontas. Basta ver a cédula de 100 mil cruzeiros/100 cruzeiros reais (1991-1993) e a nossa saudosa cédula de 1 real, cuja produção começou em 1994. O beija-flor, usado no anverso da primeira e no reverso da segunda, é o mesmo. Pode contar os detalhes, apenas cuidado para não tropeçar na “renda” impressa na cédula de 100 mil cruzeiros.

Tendo em vista que a ideia original da primeira família de cédulas do real era ser provisória, a ideia não era assim tão absurda. O problema é que o provisório durou praticamente 16 anos, até as primeiras cédulas da segunda família aparecerem, em 2010; embora a dita cédula tenha sido produzida somente até 2005.

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O diâmetro das moedas no Brasil desde 1942

Não parece, mas os diâmetros das moedas podem dizer muita coisa. É detalhe tido como técnico e que passa despercebido pela maioria dos colecionadores.

No Brasil, essa dimensão das moedas é estabelecida com relação ao valor nominal, como em muitas outras partes do mundo. Em primeiro momento, vamos analisar os diâmetros das peças entre 1942 e 1997.

Em 1942, foi introduzido o cruzeiro, cuja família contava com sete moedas de bronze-alumínio. A razão entre os valores é de 2 mm.

10 centavos, 17 mm;
20 centavos, 19 mm;
50 centavos, 21 mm;
1 cruzeiro, 23 mm;
2 cruzeiros, 25 mm, e
5 cruzeiros, 27 mm.

A moeda de 5 cruzeiros foi produzida apenas com as eras 1942 e 1943. Logo, o espectro da série foi de 17 mm a 25 mm. A proporção da maior peça é de 20 vezes a menor, 50, originalmente, com a moeda de 5 cruzeiros; trataremos esse dado como 1:20. Esse dado será importante mais para frente, dos valores que podem ser acondicionados sem grandes problemas dentro de uma série.

A série de alumínio de 1956 manteve as mesmas medidas, se bem que existiu a que chamo de série “efêmera”, com as moedas de 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros em módulos menor, mas com o mesmo bronze-alumínio da série anterior. Para essa “efêmera”, temos:

50 centavos, 17 mm;
1 cruzeiro, 19 mm, e
2 cruzeiros, 21 mm.

Como o tamanho equivalia às moedas de 10, 20 e 50 centavos, optou-se por manter os tamanhos originais e trocar também o metal para alumínio, o que se deu em 1957. Pode ter havido a ideia de aproveitar discos remanescentes na casa da moeda.

A série do cruzeiro novo/cruzeiro (1967-1979) apresenta os seguintes diâmetros:

De aço inoxidável:
1 centavo, 17 mm;
2 centavos, 19 mm, e
5 centavos, 21 mm;

De cuproníquel:
10 centavos, 23 mm, e
20 centavos, 25 mm;

De níquel:
50 centavos, 27 mm, e
1 cruzeiro, 29 mm.

Essa moeda de um cruzeiro é a de maior dimensão emitida para circulação comum no período de 1942 até o momento (2016), se desconsiderarmos as emissões comemorativas pelo centenário da Abolição (1988), com três moedas de 100 cruzados de 31 mm, o cruzado novo do centenário da República e o (1989) e os 5.000 cruzeiros do bicentenário da Inconfidência (1992), as cinco peças tinham 31 mm e 9,95 g.

Esse espectro de 17 a 29 mm da série 1967-1979 consegue abarcar uma relação de 1:100. A amplitude, como se faz notar, é de 12 mm entre a menor e a maior moeda.

O que se nota, desde a introdução do primeiro cruzeiro (1942) é a existência de múltiplo e submúltiplo de 2 (2 e 20 centavos e 2 cruzeiros); se tivéssemos apenas múltiplos e submúltiplos de 5, haveria espaço ainda para mais dois valores acima de 1 cruzeiro nesta série 1967-1979, o que nos daria duas moedas, de 5 e 10 cruzeiros, sem o aumento do diâmetro do último valor, que continuaria com 29 mm.

A razão de 2 mm continuou na série subsequente (1979-1986):

1 cruzeiro, 20 mm;
5 cruzeiros, 22 mm;
10 cruzeiros, 24 mm;
20 cruzeiros, 26 mm, e
50 cruzeiros, 28 mm.

O múltiplo 2 foi extinto, mas percebam a presença da moeda de 20 cruzeiros. Temos a proporção 1:50. O valor par dos milímetros pode ser sido escolhido para que não houvesse confusão entre as moedas da primeira e da segunda família.

O cruzado (1986) manteve a razão de 2 mm, exceto para a peça de 5 centavos.

1 centavo, 15 mm;
5 centavos, 16 mm;
10 centavos, 17 mm;
20 centavos, 19 mm;
50 centavos, 21 mm;
1 cruzado, 23 mm, e
5 cruzados, 25 mm.

A peça de 10 cruzados, introduzida em 1987, manteve a proporção, com 27 mm. Temos originalmente uma proporção de 1:500, do maior para o menor valor; com a nova peça, vai para 1:1.000.

Observem que apenas há um submúltiplo de 2, 20 centavos.

A série do cruzado novo/cruzeiro (1989-1992) introduziu a razão de 1 mm, que permitiu adicionar moedas conforme a inflação foi comendo o poder de compra do dinheiro:

1 centavo, 16,5 mm;
5 centavos, 17,5 mm;
10 centavos, 18,5 mm;
50 centavos, 19,5 mm;
1 cruzeiro, 20,5 mm;
5 cruzeiros, 21,5 mm;
10 cruzeiros, 22,5 mm, e
50 cruzeiros, 23,5 mm.

A diferença de 7 mm entre a maior e a menor moeda, com amplitude de 1:5.000, permitiu a presença de oito valores na série. Percebam o sumiço de múltiplos e submúltiplos de 2.

Como a inflação seguia forte em 1992, foi lançada uma nova série, com moedas diminutas, mas, que, progressivamente, foram aumentando:

100 cruzeiros, 18 mm;
500 cruzeiros, 19 mm;
1.000 cruzeiros, 20 mm.

Embora o padrão monetário tenha sido trocado em agosto de 1993, a série teve continuidade:

5 cruzeiros reais (equivalente a 5.000 cruzeiros antigos), 21 mm;
10 cruzeiros reais (10.000 cruzeiros), 22 mm;
50 cruzeiros reais (50.000 cruzeiros), 23 mm, e
100 cruzeiros reais (100.000 cruzeiros), 24 mm.

O sumiço total dos múltiplos e submúltiplos de 2 e a razão de 1 mm entre um valor e outro permitiram o acondicionamento de sete valores, com razão de 1:1.000 entre a menor e a maior moeda.

Para as moedas do real, feitas na sequência, em 1994, e pensadas como série provisória, aproveitaram-se discos existentes na CMB, o que acabou por causar confusão entre a população, já que o discos de

1.000 cruzeiros foram utilizados para as moedas de 1 centavo;
5 cruzeiros reais, 5 centavos;
10 cruzeiros reais, 10 centavos;
50 cruzeiros reais, 50 centavos, e
100 cruzeiros reais, 1 real.

Tendo em vista que o fator de conversão do cruzeiro real para o real era de 2.750 (CR$ 2.750 para R$ 1) e a dupla circulação até setembro de 1994, a equivalência de material (aço inox), diâmetro e espessura trouxe muita confusão.

A moeda de 50 cruzeiros reais, que tinha o mesmo aspecto da moeda de 50 centavos, valia apenas R$ 0,018 (dezoito milésimos de real, quase 2 centavos). Não era raro, até 1996-7, achar moedas de cruzeiro real circulando at par com os centavos de real.

A única moeda diferenciada desse período é a de 25 centavos, novidade seja em termos de dimensão (23,5 mm, o que a colocava entre as moedas de 1 real e a de 50 centavos) ou de valor (nunca havíamos tido, até então, uma moeda que representasse a fração de um quarto da unidade, uma fração não decimal).

O problema terminou com introdução da segunda família do real, em 1998. As moedas, de metais diferentes, traziam novamente à cunhagem diferenciações entre diâmetro relacionadas ao metal. Para maior clareza:

1 centavo, 17 mm, e
5 centavos, 22 mm.

Ambas as moedas são de aço eletrorrevestido de cobre; a razão entre elas é de 5 mm. As de 10 e 25 centavos, de aço eletrorrevestido de bronze, têm, respectivamente, 20 mm e 25 mm; de novo a diferença de 5 mm. Elas não respeitam a proporção mantida até a série anterior de tamanho/valor facial, já que têm metais diferenciados, recuperando mais ou menos a ideia contida nas emissões do primeiro real desde o Segundo Reinado.

E, finalmente as moedas de 50 centavos e 1 real, que têm, respectivamente, 23 mm e 27 mm, com razão de 4 mm. Em ordem de diâmetro, teríamos:

1 centavo, 17 mm;
10 centavos, 20 mm;
5 centavos, 22 mm;
50 centavos, 23 mm;
25 centavos, 25 mm, e
1 real, 27 mm.

Em que a razão de 5 mm é interna a cada subsérie, mas não respeitada entre as moedas de 50 centavos e 1 real, que são peças isoladas dentro da série, seja pelo metal ou pela constituição.

Uma possível moeda de 2 reais não precisaria respeitar a proporção, podendo mesmo ser menor que a de 1 real (temos o valor de 26 mm vago), mas tem de ser obrigatoriamente de composição diversa. Fazê-la bimetálica, com a inversão dos metais com relação a de 1 real, é uma possibilidade.

Data em baixo-relevo nas moedas brasileiras

Um observador atento pode reparar que, desde a nova série de cruzeiros de 1992 (100, 500 e 1.000 cruzeiros), tornou-se padrão para as moedas brasileiras a era em baixo-relevo. Pode conferir sua coleção e seus montes de duplicatas: a partir dessa série, todas as peças para circulação comum têm a data de emissão em baixo-relevo, ou seja, é uma depressão em relação à superfície que a circunda.

100 Cruzeiros 1992 Reverso

100 cruzeiros (1992). Note que não apenas a data está em baixo-relevo, também o estão o país emissor e a denominação (foto: Minhacolecaodemoedas)

Por que isso? Modismo? Acredito que não. Arriscaria dizer — arriscaria, pois não tenho evidências documentais dos motivos — que a introdução da data em baixo-relevo seja para protegê-la de desgaste. Temos de convir que o desgaste necessário para o desaparecimento da data teria de ser muito maior, a ponto de erodir toda a superfície em volta, enquanto que datas em alto-relevo são elas mesmas pontos mais passíveis de desgaste.

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Moeda de 10 cruzeiros (1991) – esta série foi a última emitida com a era em alto-relevo (no exergo do anverso)

Não sei qual foi o fato que motivou a tomada da decisão pelos técnicos da Casa da Moeda e do Banco Central, mas essa que levantamos parece ser a mais coerente.

O fato é que desde essa família de cruzeiros, que se espichou esteticamente para a dos cruzeiros reais, e todas as moedas subsequentes, incluindo as primeira e segunda famílias do real, têm essa característica.

10-Centavos

10 centavos (1998), com a era em baixo-relevo

Claro que não se trata de novidade absoluta no mundo. O chamado cartwheel penny (roda de carroça) trouxe esse detalhe para todas as suas inscrições já em 1797.

Cartwheel-two-penny-1.jpg

O cartwheel penny, de 1797

Tampouco no Brasil. Tivemos uma moeda de $100, emitida entre 1936 e 1938, que também trazia a era em baixo-relevo. Trata-se do único caso anterior a 1992.

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100 réis (1936) com era em baixo-relevo, dentro de ornamento na parte inferior do quarto superior direito. Note-se que a data, neste caso, foi incluída dentro do plano estético da moeda

Outro detalhe importante nas moedas de 1992 para cá é o uso da era no reverso da peça, com exceção da moeda de 25 centavos da primeira família do real, mas também em baixo-relevo. Todas as outras trazem a era no reverso.

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25 centavos (1994), com a era no anverso, em baixo-relevo