O poder liberatório das moedas metálicas

Poder liberatório, segundo o Glossário do Banco Central (BC) é a “capacidade da cédula, ou moeda, de liberar débitos, de efetuar pagamentos”.

Se observamos os vários textos legais que punham as moedas em circulação, encontraremos um limite de uso de moedas metálicas, como disposto, p. ex., no art. 5º do Decreto nº 21.358, de 4 de maio de 1932, que dispõe sobre as moedas da chamada Série Vicentina:

Art. 5º O poder liberatório das moedas que trata o art. 1º será, salvo mútuo consentimento das partes, respectivamente 40$0, 20$0 e 4$0, para as de prata, cobre-alumínio e [cupro]níquel, respectivamente.

Ou seja, as moedas, em um pagamento feito apenas com elas, tinham um limite de aceitação, que, a critério do recebedor, poderia ser ampliado. Ninguém era obrigado a aceitar moedas acima do limite estipulado.

Nas normativas a respeito do real há referência ao poder liberatório das peças metálicas, do que se deduz ser possível pagar qualquer quantia com moedas metálicas.

Errado. Embora não conste limitação expressa do poder liberatório das moedas, a Lei nº 8.697, de 27 de junho de 1993 — conversão em lei da Medida Provisória nº 336, de 28 de julho de 1993 —, que criou o cruzeiro real, fixa, em seu art. 9º:

Art. 9º Ninguém será obrigado a receber, em qualquer pagamento, moeda metálica em montante superior a cem vezes o respectivo valor da face.

Embora a MP nº 542, de 30 de junho de 1994 —  a MP do Real, reeditada várias vezes[1] e finalmente convertida na Lei nº 9.069, de 29 de junho de 1995 — tenha criado uma nova moeda e não trate do poder liberatório das peças metálicas, como não consta revogação expressa da Lei nº 8.697, as partes do texto que não foram alteradas pela MP do Real são aplicáveis continuam em vigor:

Art. 23. A partir de 01.08.93:

[…]

V – Ninguém será obrigado a receber, em qualquer pagamento, moeda metálica em montante superior a cem vezes o respectivo valor de face;

[…]

Logo, o poder liberatório das nossas moedas metálicas segue esse inciso. Ninguém é obrigado a aceitar montante superior a cem vezes o valor de face das peças; vejam que não é uma proibição, logo, fica a critério do recebedor aceitar ou não.

O poder liberatório das moedas metálicas

* * *

[1] MPs nº 566, de 29 de julho de 2994, nº 596, de 26 de agosto de 1994, nº 635, de 27 de setembro de 1994, nº 681, de 27 de outubro de 1994, nº 731, de 25 de novembro de 1994, nº 785, de 23 de dezembro de 1994, nº 851, de 20 de janeiro de 1995, nº 911, de 21 de fevereiro de 1995, nº 953, de 23 de março de 1995, nº 978, de 20 de abril de 1995, nº 1.004, de 19 de maio de 1995, e nº 1.027, de 20 de junho de 1995.

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Vigência das cédulas de maior valor

Embora o assunto principal deste blogue sejam as moedas, é interessante ver o comportamento do nosso meio circulante de papel.

Tendo em conta os ciclos inflacionários pós-1942, fizemos uma contagem aproximada de quanto tempo determinada cédula foi a maior em circulação enquanto outra não a suplantou.

No período pós-1942, a mais longeva é a cédula de 100 reais, que continua contando tempo aos seus 23 anos em circulação como valor mais alto. A que ocupou o posto por menos tempo foi a de mil cruzeiros reais, por 28 dias em outubro de 1993.

Os valores de equivalência de poder de compra são em níveis de junho de 2017.

Mil cruzeiros (1943) – aproximadamente 19 anos. Pelo IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas, pela correção inflacionária, essa cédula, quando lançada, teria o poder de compra hoje de aproximadamente R$ 2,3 mil. Em 1947 pagava mil tarifas de ônibus na cidade de São Paulo (Cr$ 1,00). Comprava, em dezembro de 1943, US$ 94,07, a Cr$ 10,63 por dólar (fonte Diário da Noite de 30 dez. 1943).

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5 mil cruzeiros (17 dez 1962) – aproximadamente três anos e quatro meses. Em valores atualizados, valia, em seu lançamento, o equivalente a R$ 383. Pagava exatamente 200 passagens de ônibus em São Paulo (Cr$ 25). Em 27 dez. 1962, o dólar cotava-se a Cr$ 810, logo, a cédula comprava US$ 6,17 (fonte Correio da Manhã de 27 de dezembro de 1962).

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10 mil cruzeiros (agosto de 1966) 10 cruzeiros novos (a partir de 13 fev. 1967) – três anos e nove meses. Valia, no lançamento, cerca de R$ 120. Pagava 66 passagens de ônibus (Cr$ 150) e sobravam Cr$ 100. Em 11 de agosto de 1966, o dólar valia Cr$ 2.200; a cédula comprava US$ 4,54 (fonte Correio da Manhã de 11 de agosto de 1966).

Em fevereiro de 1967, a cédula pagava as mesmas passagens, mas comprava apenas US$ 3,69, com o dólar cotado a NCr$ 2,71 (fonte Correio da Manhã de 21 de fevereiro de 1967).

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100 cruzeiros (15 maio 1970) – dois anos e seis meses. Poder de compra estimado em R$ 568 na data de lançamento. Pagava 285 passagens de ônibus (Cr$ 0,35) e sobrava Cr$ 0,25. Comprava então US$ 22,27 (Cr$ 4,49 por dólar).

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500 cruzeiros (15 nov 1972) – seis anos e 21 dias. Valor estimado em R$ 1,8 mil. Pagava mil passagens de ônibus, a Cr$ 0,50 cada. Comprava então US$ 81,57 (Cr$ 6,13 por dólar).

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Mil cruzeiros (06 dez 1978) – um ano, dez meses e dois dias. Cerca de R$ 600. Pagava 333 passagens de ônibus e sobrava Cr$ 1. Comprava então US$ 48,85 (Cr$ 20,47 por dólar).

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5 mil cruzeiros (08 set 1981) – três anos, um mês e 23 dias. Poder de compra estimado em R$ 520. Pagava 227 passagens de ônibus, a Cr$ 22 cada, e sobravam Cr$ 6. Comprava então US$ 47,78 (Cr$ 104,64 por dólar).

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50 mil cruzeiros (01 nov 1984) – onze meses e dois dias. Poder de compra de R$ 260. Pagava exatamente 125 passagens de ônibus a Cr$ 400 cada. Comprava então US$ 18,53 (Cr$ 2.698 por dólar).

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100 mil cruzeiros (03 out 1985) – um ano e dezessete dias. Poder de compra de R$ 180 na data do lançamento. Pagava 111 passagens de ônibus, a Cr$ 900 cada, e sobravam Cr$ 100. Comprava então US$ 12,29 (Cr$ 8.135 por dólar).

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500 cruzados (20 out 1986) – onze meses e nove dias. R$ 480 em poder de compra. Pagava 333 passagens de ônibus, a Cz$ 1,50, e sobrava Cz$ 0,50. Comprava então US$ 36,13 (CZ$ 13,84 por dólar).

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Mil cruzados (29 set 1987) – onze meses e catorze dias. R$ 220 em poder de compra. Pagava exatamente cem passagens de ônibus a Cz$ 10 cada. Comprava então US$ 20,12 (Cz$ 49,71 por dólar).

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5 mil cruzados (15 set 1988) – dois meses e nove dias. Poder de compra estimado em R$ 175. Pagava 62 passagens, a Cz$ 80 cada, e sobravam Cz$ 40. Comprava então US$ 15,56 (Cz$ 321,25 por dólar).

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10 mil cruzados (24 nov 1988) – dois meses e 23 dias. Poder de compra estimado em R$ 220. Pagava 125 passagens, a Cz$ 80 cada. Comprava então US$ 19,25 (Cz$ 519,60 por dólar).

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50 cruzados novos (17 mar 1989) – dois meses e dois dias. Poder de compra estimado em R$ 430. Pagava 294 passagens, a NCz$ 0,17 cada, e sobrava NCz$ 0,02. Comprava então US$ 50,00 (NCz$ 1,00 por dólar).

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100 cruzados novos (19 maio 1989) – cinco meses e onze dias. Poder de compra estimado em R$ 780. Pagava 588 passagens, a NCz$ 0,17 cada, e sobrava NCz$ 0,04. Comprava então US$ 110 (NCz$ 1,10 por dólar).

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200 cruzados novos (08 nov 1989) – três meses. Poder de compra estimado em R$ 300. Pagava 181 passagens, a NCz$ 1,10 cada, e sobravam NCz$ 0,90. Comprava então US$ 33,06 (NCz$ 6,05 por dólar).

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500 cruzados novos (08 fev 1990) – dois meses e um dia. Poder de compra estimado em R$ 220. Pagava 142 passagens, a NCz$ 3,50 cada, e sobravam NCz$ 3. Comprava então US$ 20,53 (NCz$ 24,35 por dólar).

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5 mil cruzeiros (09 abr 1990) – um ano e quinze dias. Poder aquisitivo estimado em R$ 670. Pagava 333 passagens, a Cr$ 15 cada, e sobravam Cr$ 5. Comprava então US$ 40,67 (NCz$ 106,72 por dólar).

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10 mil cruzeiros (26 abr 1991) – sete meses e onze dias. R$ 260 em poder aquisitivo. Pagava exatamente cem passagens, a Cr$ 100 cada. Comprava então US$ 39,78 (Cr$ 251,37 por dólar).

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50 mil cruzeiros (09 dez 1991) – sete meses e treze dias. R$ 450 em poder de compra. Pagava exatamente 200 passagens, a Cr$ 250 cada. Comprava então US$ 52,86 (Cr$ 945,85 por dólar).

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100 mil cruzeiros (24 jul 1992) – seis meses e cinco dias. Cerca de R$ 210 em poder de compra. Pagava 66 passagens, a Cr$ 1.500 cada, e sobravam Cr$ 1.000. Comprava então US$ 26,39 (Cr$ 3.790 por dólar).

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500 mil cruzeiros (29 jan 1993) – oito meses e 28 dias. Algo por volta de R$ 280 em poder aquisitivo. Pagava exatamente 125 passagens, a Cr$ 4.000 cada. Comprava então US$ 35,51 (Cr$ 14.081 por dólar).

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Mil cruzeiros reais (01 out 1993) – 28 dias. Poder aquisitivo na data de lançamento de R$ 50. Pagava 16 passagens, a CR$ 60 cada, e sobravam CR$ 40. Comprava então US$ 6,70 (CR$ 149,26 por dólar).

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5 mil cruzeiros reais (29 out 1993) – cinco meses e um dia. Cerca de R$ 270 em poder de compra. Pagava 62 passagens, a CR$ 80 cada, e sobravam CR$ 40. Comprava então US$ 35,51 (CR$ 149,23 por dólar).

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50 mil cruzeiros reais (30 mar 1994) – três meses e um dia. Poder aquisitivo equivalente a R$ 380. Pagava 333 passagens, a CR$ 150 cada, e sobravam CR$ 50. Comprava então US$ 66,18 (CR$ 755,52 por dólar).

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100 reais (01 jul 1994) – 23 anos e um mês (até 01 ago 2017). Poder aquisitivo na época equivalente a R$ 700 em junho de 2017. Pagava 200 passagens, a R$ 0,50 cada. Hoje (out. 2017) paga 26 passagens, a R$ 3,80, e sobra R$ 1,20. Comprava então US$ 108,11 (R$ 0,925 por dólar). Compra hoje (out. 2017) US$ 31,54 (a R$ 3,17 por dólar).

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Tarifas de ônibus de São Paulo/SP.
Média mensal do dólar (desde 1970).

O cruzeiro real que nunca foi

O cruzeiro real foi a unidade monetária do Brasil entre 1º/8/1993 e 30/6/1994. Em seus nove meses de existência, foram lançadas quatro peças metálicas: em 20 de setembro de 1993, as de 5 e 10 cruzeiros reais (Comunicado BC nº 3.508, de 17/9/1993), e, em 10 de dezembro do mesmo ano, as de 50 e 100 cruzeiros reais (Comunicado BC nº 3.624, de 8/12/1993). Foram moedas efêmeras, pois perderam poder liberatório em 15/9/1994, já na vigência do real (Circular BC nº 2.471, de 24 de agosto de 1994).

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Da dir. para a esq.: anverso das peças de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (fonte: Mercado Livre).

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Da esq. para a dir.: reverso das peças de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (fonte: Mercado Livre).

As quatro moedas são nossas conhecidas. Emitidas com eras 1993 e 1994, não há quem não as tenha em suas coleções. A peça de 5 traz em seu anverso um par de araras; a de 10, um tamanduá; a de 50, uma onça-pintada e sua cria; e a de 100, o lobo-guará. O cruzeiro real deu continuidade “natural” à série que vinha já do cruzeiro (1990-1993), com as peças de 100 (peixe-boi), 500 (tartaruga marinha) e 1.000 cruzeiros (acará), seja nas dimensões ou na temática.

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Da esq. para a dir.: moedas de 1.000, 500 e 100 cruzeiros que provavelmente seriam a base das peças de 1 cruzeiro real, 50 e 10 centavos (fonte: sergiobatista-moedas)

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Moedas de 10 e 50 cruzeiros, possíveis bases (a serem reduzidas?) das moedas de 1 e 5 centavos de cruzeiro real.

Porém, há um detalhe que passa despercebido a muita gente. Trata-se da Resolução BC nº 2.010, de 28/7/1993, que é justamente a que informa sobre a vigência iminente do cruzeiro real. Ali há a previsão de uma família um pouco diferente daquela que conhecemos.

Art. 19. As moedas divisionárias a que se refere o artigo precedente serão cunhadas em aço inoxidável, com temática centrada em aspectos típicos do Brasil, observando as características gerais adiante descritas:

A – 1 centavo do cruzeiro real: – diâmetro: 16 mm; – tema do anverso: Seringueiro;

B – 5 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 17 mm; – tema do anverso: Baiana;

C – 10 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 18 mm; – tema do anverso: Peixe-Boi;

D – 50 centavos do cruzeiro real: – diâmetro: 19 mm; Resolução n° 2010, de 28 de julho de 1993 – tema do anverso: Tartaruga-Marinha;

E – 1 cruzeiro real: – diâmetro: 20 mm; – tema do anverso: Acará.

Ninguém viu essas moedas. Na verdade, elas seriam adaptação da numária até então vigente.

As moedas de 1 e 5 centavos apresentadas têm os mesmos temas das moedas de 10 e 50 cruzeiros emitidas entre 1990 e 1992, mas os tamanhos são diferentes: enquanto a moeda de 10 cruzeiros tinha 22,5 mm de diâmetro, a nova peça equivalente, de 1 centavo, teria apenas 16mm; a de 50 cruzeiros media 23,5 mm; a equivalente de 5 centavos teria 17 mm. No que se pensava no Banco Central e na Casa da Moeda? Em versões reduzidas, como ocorreu com as moedas de 5, 10 e 50 pence no Reino Unido?

As medidas dessas duas peças novas fariam conjunto perfeito com as adaptações das moedas de 100, 500 e 1.000 cruzeiros (10, 50 centavos e 1 cruzeiro real, respectivamente), com 17 mm, 18 mm e 19 mm, nessa sequência.

Como a iconografia é mantida pelo decreto, imagina-se, pelo menos para as moedas de 10, 50 centavos e 1 cruzeiro real a adaptação das peças de cruzeiro.

É curioso ainda notar o art. 20 da mesma resolução:

Art. 20. O Banco Central do Brasil colocará em circulação, até 31.12.93, moedas dos valores de CR$ 5,00 (cinco cruzeiros reais) e CR$ 10,00 (dez cruzeiros reais), adaptando ao novo padrão monetário as características gerais das moedas de Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) e Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros), aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional, em sessão de 29.06.93, e adiante descritas:

A – 5 cruzeiros reais: – diâmetro: 21 mm; – tema do anverso: Arara;

B – 10 cruzeiros reais: – diâmetro: 22 mm; – tema do anverso: Tamanduá-Bandeira.

Ou seja, as peças de 5 e 10 cruzeiros reais seriam lançadas como 5 mil e 10 mil cruzeiros. E se foram aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional, provavelmente há arte-final dessas peças, ou na Casa da Moeda ou no Banco Central.

O fato de não termos visto essas moedas divisionárias do cruzeiro real deve-se à inflação e seu valor já muito baixo. Corrigido pelo IGP-M, o valor atual (janeiro/2017) de um cruzeiro real seria de R$ 0,10, o que tornaria as moedas divisionárias inúteis. Para uma comparação, a primeira cotação do dólar em cruzeiro real, em 2/8/1993, foi de CR$ 72,06.

Referências

BACEN – BANCO CENTRAL DO BRASIL. Circular nº 2.471, de 24 de agosto de 1994. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/43168/Circ_2471_v1_O.pdf>. Acesso em 23 fev. 2017.

______. Resolução nº 2.010, de 28 de julho de 1993. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/43582/Res_2010_v1_O.pdf>. Acesso em 23 fev. 2017.

Quantas moedas desde 1942?

Desde 1942, tivemos várias moedas e muitas peças foram emitidas. Quantas exatamente? Contemos.

Vamos nos limitar a alterações, sem contar as emissões por ano.

O primeiro cruzeiro (1942-65) soma 20 peças.

O cruzeiro novo/segundo cruzeiro (1967-86), 33. Já são 53.

O cruzado (1986-8) deu-nos 11 moedas. Temos 64.

O cruzado novo/terceiro cruzeiro (1989-93), 16. São 80 moedas.

O cruzeiro real (1993-4) presenteou-nos com 4 peças. São 84.

A primeira família do real (1994-7), 8 moedas. Somam-se 92.

A segunda família do real (desde 1998), incluindo todas as comemorativas, somam 137.

Esta lista inclui alterações de anverso ou reverso (principalmente na primeira série do primeiro cruzeiro) e mudanças de metal (na primeira série do segundo cruzeiro), mas não a questão dos monogramas (na primeira série do primeiro cruzeiro) ou as eras das peças.

Un breu històric de les unitats monetàries brasileres

An english version of this text is available here.
Una versión de este texto en español está disponible aquí.
Una versione di questo testo in italiano si può leggere qui.

Brasil va tenir moltes monedes dins la seva història. La primera va ésser heretada de Portugal. Del 1500 fins el 1822, la nostra moneda va ésser el real portugués (pl. réis). Després de la independència, dins el 1822, el vell real portugués va ser convertit en el real brasiler, però, el 1833, una llei de la Regència va establir de facto el mil-réis com a unitat monetària (mil-réis vol dir mil réis). Això va transformar el mil-réis en una moneda mil·lesimal: el real era la mil·lèsima part del nou mil-réis.

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100 réis (1871)

Aquest mil-réis va sobreviure fins el 1942. En aquell any, un decret llei de la dictadura Vargas va convertir 1 mil-réis en 1 cruzeiro. L’origen de la nova denominació és la constel·lació de la Creu del Sud (Cruzeiro do Sul en portugués), utilitzada com a símbol nacional. És també el debut del centavo (cèntim o centau).

Monedes i bitllets del primer cruzeiro (1942-1966).

Aquest primer cruzeiro (hi hauran dos altres en el futur) va ser la nostra moneda fins el 1966. Llavors, la desvaloració i l’inflació van fer necessària una reforma. Mil cruzeiros van esdevenir 1 cruzeiro novo (como el noveau franc en França). El 1970, només la denominació va cambiar un altre cop, però la raó es va mantenir 1:1, com també va succeir en França.

Bitllets i monedes del segon cruzeiro (1966-1986)

El segon cruzeiro va durar fins el 1986. L’inflació va fer necessària un’altra reforma, i altre canvi es va fer: mil cruzeiros van esdevenir 1 cruzado. El nom vé de una vella moneda d’or dels temps colonials (croat, en català).

Bitllet de 10 mil cruzados i moneda de 10 cruzados

L’inflació es va tornar implacable. Dins el 1989, altra reforma amb la raó de 1:1.000. Mil cruzados es van esdevenir un cruzado novo. El 1990, el nom va canviar de cruzado novo per a cruzeiro (el tercer cruzeiro). El 1993, altra reforma: mil cruzeiros es van esdevenir 1 cruzeiro real. Aquesta va ser la nostra moneda més efímera: va durar 11 mesos.

Bitllet comemoratiu dels cent anys de la República (200 cruzeiros) i moneda de 1 cruzado novo (que no va circular mai)

Moneda de 100 cruzeiros reais i bitllet de 5 mil cruzeiros reais, que fa homatge a un tipus regional brasiler, el gaucho

L’última reforma va tenir lloc el juny de 1994. Un pla d’estabilització, dit Plano real, ha canviat la moneda altre cop, però la raó de conversió va ser 2.750; 2.750 cruzeiros reais era el canvi per 1 real. El nom ve de la vella unitat colonial, imperial i de l’inici de la República (però el plural no és réis, com la vella, però reais, la forma moderna).

Monedes i bitllets del segon real (1994-fins l’actualitat)

Del 1994, la moneda de Brasil és la mateixa. El real és l’unitat més estable dels últims setenta anys.

Una breve storia delle unità monetarie brasiliane

Here is a english version of this text.
Aquí hay una versión en español de este texto.

Il Brasile ebbe molte monete nella sua storia. La prima fu ereditata da Portogallo. Dal 1500 fino il 1822, la nostra moneta fu il real portoghese (pl. réis). Dopo l’indipendenza, nel 1822, la moneta passó ad essere il real brasiliano, peró nel 1833, una legge della Regenza stabilì de facto il mil-réis come unità monetaria (mil-réis vuol dire mille réis). Ciò trasformó il mil-réis in una moneta millesimale: il real era la millesima parte de l’unità.

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100 réis (1871)

Questo mil-réis sopravisse fino il 1942. In quest’anno un decreto legge della dittatura Vargas convertì 1 mil-réis in 1 cruzeiro. La nuova denominazione venne della costellazione della Croce del Sul (Cruzeiro do Sul in portoghese), usata come simbolo nazionale. E’ anche il debutto del centavo (la centesima parte del cruzeiro).

Banconota da 200 cruzeiros e monete del primo cruzeiro

Il primo cruzeiro (ci saranno altre due edizioni negli anni seguenti) fu la nostra moneta fino al 1966. Quindi, la svalutazione e l’inflazione forzarono una riforma. Mille cruzeiros diventarono 1 cruzeiro novo (nuovo, come il noveau franc in Francia). Nel 1970, soltanto la denominazione fu cambiata di nuovo per cruzeiro, ma la relazione si mantenne 1:1, anche come successe in Francia.

Banconota da 50 cruzeiros e moneta da 20 centavos delle prime famiglie

Questo secondo cruzeiro durò fino al 1986, L’inflazione portò una nuova riforma: mille cruzeiros diventarono 1 cruzado. Il nome viene da una vecchia moneta coloniale d’oro.

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Moneta da 10 cruzados

L’inflazione diventò incontrollabile. Nel 1989, una nuova riforma 1:1.000. Mille cruzados diventano 1 cruzado novo (il novo di nuovo). Nel 1990, il nome fu cambiato: 1 cruzado novo diventò 1 cruzeiro (il terzo cruzeiro); nel 1993, altra riforma venne fatta: mille cruzeiros diventano 1 cruzeiro real. Fu la nostra moneta più breve: durò 11 mesi.

Banconota e moneta del terzo cruzeiro

L’ultima riforma venne nel 1994. Un piano di stabilizzazione monetaria, chiamato Plano Real, cambiò la valuta di nuovo. La tassa di conversione fu 1:2.750; 2.750 cruzeiros reais diventarono 1 real. Il nome venne dalla vecchia valuta coloniale, imperial e dei primi anni della Repubblica (il plurale non è réis, come la vecchia moneta, ma reais, la forma moderna del plurale).

Monete e banconote del secondo real

Dal 1994, la valuta brasiliana è la stessa. E’ il periodo più stabile dal tempo dell’Impero (1822-1889).

Una breve historia de las unidades monetarias brasileñas

There is a english version of this text.

Brasil tuvo muchas monedas en su historia. La primera fue heredada de Portugal. De 1500 hasta 1822, nuestra moneda fue el real portugués (pl. réis). Después de la independencia, en 1822, la moneda pasó a ser el real brasileño, pero en 1833 una ley de la Regencia estableció de facto el mil-réis como unidad monetaria (mil-réis quiere decir mil réis). Eso transformó el mil-réis en una moneda milesimal: el real era la milésima parte de la unidad.

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100 réis (1871)

Ese mil-reis sobrevivió hasta el 1942. En ese año, un decreto-ley de la dictadura Vargas convirtió 1 mil-réis en 1 cruzeiro. La nueva denominación vino de la constelación de la Cruz del Sur (Cruzeiro do Sul en portugués), usada como símbolo nacional. Es también el estreno del centavo.

Billete de 10 cruzeiros y monedas del primer cruzeiro

Ese primer cruzeiro (habrán aun otros dos en el futuro) fue nuestra moneda hasta 1966. Entonces, la desvalorización y la inflación hicieron necesaria una reforma. Mil cruzeiros fueran convertidos en 1 cruzeiro novo (novo: nuevo, como el noveau franc en Francia). En 1970, solo la denominación fue alterada nuevamente para cruzeiro, pero la relación se mantuvo en 1:1, como también ocurrió en Francia.

Moneda de 1 cruzeiro y billete de 10o cruzeiros de las primeras series.

Ese segundo cruzeiro duró hasta 1986. La inflación hizo necesaria una nueva reforma, y otro cambio se dio: mil cruzeiros se han convertido en 1 cruzado. El nombre viene de una vieja moneda de oro de los tiempos coloniales.

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Moneda de 10 cruzados

La inflación volvió implacable. En 1989, una nueva reforma con corte de tres ceros. Mil cruzados se convierten en 1 cruzado novo (el novo de nuevo). En 1990, el nombre fue cambiado: 1 cruzado novo se convirtió en 1 cruzeiro (el tercer cruzeiro). En 1993, otra reforma fue necesaria: mil cruzeiros pasan a ser 1 cruzeiro real. Esa fue nuestra más breve moneda: duró 11 meses.

Billete y moneda del tercer cruzeiro

La última reforma se dio en 1994. Un plan de estabilización, llamado Plano Real, cambió la moneda otra vez, pero el factor de conversión fue 2.750; 2.750 cruzeiros reais se transformaron en 1 real. El nombre vino de la vieja unidad colonial, imperial y del comienzo de la República (pero el plural no es réis, como la vieja moneda, sino reais, la forma moderna del plural).

Monedas y billetes del segundo real

Desde 1994, la moneda de Brasil es la misma. El real es la unidad más estable desde los tiempos del Imperio.

22 anos de plano Real

Hoje, 1º de julho de 2016, o plano Real e a moeda homônima completam 22 anos. E não é pouco: trata-se da unidade monetária mais longeva depois do mil-réis; também marca o fim de um período “maldito” de oito anos (1986-1994), em que tivemos apenas quatro moedas: cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real.

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Moeda de 100 cruzeiros reais, a mais alta desse padrão monetário

No que concerne ao meio circulante metálico, tivemos duas famílias de moedas. A primeira, batida entre 1994 e 1997, era de uma sensaboria ímpar, com aproveitamento de discos da família anterior (cruzeiro/cruzeiro real), trazia o valor no reverso e uma mal-ajambrada efígie da República no anverso. Tinha jeito e cheiro dinheiro provisório e pesou um pouco no descrédito inicial que o plano enfrentou. Lembro-me bem da fala de um freguês do meu pai:

— Um real, daqui seis meses, não vai dar para comprar um chiclete.

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A anverso comum das moedas da primeira família

Por sorte, nosso pessimista errou. Apesar de inflação acumulada pelo IPCA até março de 2016 ser de 438%, o que equivale dizer que R$ 1 de 1994 tem o mesmo poder de compra de R$ 5 hoje, ou que o poder de compra de R$ 0,20 em 1995 é preciso, hoje, ter R$ 1.

Mesmo com crises e vaivéns, trata-se do período economicamente mais estável desde o fim do Império.

A primeira família de moedas provou a durabilidade do aço como material de cunhagem. O Brasil começou a bater do metal em 1967 e, de 1979 a 1997, só fabricou moedas de aço. As velhinhas da primeira família ainda perambulam pelos nossos bolsos e mantêm-se em bom estado, mesmo após dois decênios de circulação.

Apesar de tudo, não se trata de opção primeira mundo afora. Conforme algumas pesquisas que vimos conduzindo, o primeiro país do mundo a introduzir moedas de aço inoxidável, em substituição às de cuproníquel, foi a Itália. O acmonital (do it. acciaio monetário italiano) foi introduzido na cunhagem em 1936, na chamada “série imperial”. No pós-guerra, o alumínio dominou a numária italiana; somente em 1954 foi emitida a peça de 50 liras de aço, e, em 1955, a de 100 liras. A Itália cunhou peças do metal até 1992.

Peça de 2 liras da série imperial (à esq.) e de 100 liras (à dir.)

Voltando ao Brasil, o aço provou sua vitalidade em moedas que circulam há mais de 20 anos. Ainda temos as moedas de 50 centavos e o núcleo da moeda de 1 real de aço inox — as outras são de aço baixo-carbono revestidas de cobre (5 centavos) e bronze (10 e 25 centavos e o anel da moeda de 1 real). Talvez fosse o tempo de pensar numa terceira série, toda em aço, mas sem a pobreza estética da primeira família. É possível fazer belas moedas de aço, e matéria-prima não nos falta.

A brief history of Brazilian currencies

Brazil had many currencies in its history. The first one was inherited from Portugal. From 1500 to 1822, our currency was the Portuguese real (pl. réis). After independence, in 1822, currency changed to Brazilian real, but in 1833, an act of Regency de facto established the mil-réis as currency unit (mil-réis means one thousand réis). This turned mil-réis into a millesimal currency: the real was the thousandth part of the currency.

100reis

100-réis coin (1871)

This mil-réis survived until 1942. In this year, a Vargas’ dictatorship decree converted one mil-réis in one cruzeiro. The new denomination comes from the Southern Cross constellation (Cruzeiro do Sul in Portuguese), used as a national symbol. It’s the début of centavo (a hundredth of the currency; a cent).

First cruzeiro coins and banknotes

This first cruzeiro (there were two others in the future) was our currency until 1966. Then, devaluation and inflation made necessary a reformation. One thousand cruzeiros were revaluated to one cruzeiro novo (novo means new, like the noveau franc in France). In 1970, only the denomination changed again to cruzeiro, but this was at par, like in France.

Second cruzeiro. One-cruzeiro coin (1970-1979) and 100-cruzeiros bill (1970-1979)

This second cruzeiro lasted until 1986. Inflation made necessary a new reformation, then other change was made: 1,000 cruzeiros became 1 cruzado. The name comes from an old gold coin from colonial times.

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A 10-cruzados coin.

Inflation became implacable. In 1989, a new reformation 1:1,000. One thousand cruzados became 1 cruzado novo (the new again). In 1990, name changed again, but at par: 1 cruzado novo became 1 cruzeiro (the third cruzeiro). In 1993, another reformation was necessary: 1,000 cruzeiros became 1 cruzeiro real. That was our most short-lived currency: about 11 months.

Third cruzeiro: coin and bill

The last reformation came in 1994. A stabilization plan, called Plano Real, changed the currency again. The ratio was 1:2,750; 2,750 cruzeiros reais became 1 real. The name comes from the old colonial, imperial and early republican currency (the plural isn’t réis, like the old currency, but reais, the modern form of plural).

From left to right: 1-real bill (first series), 1-real coin (second series), 25-centavos (first series) e 10-centavos (second series)

From 1994, currency stays the same. It’s the most stable currency since imperial times (1822-1889).

Beija-flores

Este interessante artigo do Diniz Numismática mostra a inspiração muito similar em cédulas totalmente diferentes, no caso, uma hondurenha e uma brasileira.

Mas o nosso querido Banco Central reutilizou artes já prontas. Basta ver a cédula de 100 mil cruzeiros/100 cruzeiros reais (1991-1993) e a nossa saudosa cédula de 1 real, cuja produção começou em 1994. O beija-flor, usado no anverso da primeira e no reverso da segunda, é o mesmo. Pode contar os detalhes, apenas cuidado para não tropeçar na “renda” impressa na cédula de 100 mil cruzeiros.

Tendo em vista que a ideia original da primeira família de cédulas do real era ser provisória, a ideia não era assim tão absurda. O problema é que o provisório durou praticamente 16 anos, até as primeiras cédulas da segunda família aparecerem, em 2010; embora a dita cédula tenha sido produzida somente até 2005.

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