Clipping: ‘Pela primeira vez, haverá uma Liberdade negra em uma moeda’

Por A. J. Willingham, CNN. Texto original.

13 de janeiro de 2017

Uma nova moeda comemorativa emitida pela Casa da Moeda dos EUA mostra um novo retrato da Liberdade. Com uma coroa de estrela nos cabelos e com um vestido tipo toga, ela continua patriótica como sempre. Ela é também, pela primeira vez em uma moeda oficial, representada como uma mulher negra.

A Casa da Moeda dos EUA apresentou a moeda de 24 quilates em comemoração de seus 225 anos. Contemplemos sua beleza.

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Nos próximos anos, a Casa da Moeda planeja dar a essa versão da Liberdade alguns outros amigos.

“A moeda de ouro dos 225 anos da Casa da Moeda é a primeira dentro de uma série de moedas de ouro 24 quilates que mostrará desenhos que representam alegoricamente a Liberdade em formas contemporâneas, incluindo representações asiático-americanas, hispano-americanas e indígenas, entre outras, para refletir a diversidade étnica e cultural dos EUA (leia aqui o release da Casa da Moeda, em inglês).

As moedas têm valor de face de 100 USD e esta dinâmica, mas algo já previsível, águia-careca.

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Atualização de 1º/2/2017, extraída do Coin News: o retrato da Liberdade foi criado por Justin Kunz e gravado por Phebe Hemphill.

Bit e picayune: moedas quase americanas

É de conhecimento geral que o dólar divide-se em 100 cents, sendo a segunda moeda decimal do mundo; a primazia é do rublo russo. Porém, o dólar era baseado no chamado Spanish dollar, ou seja, no real de a ocho batido no então Vice-Reino da Nova Espanha, hoje o México. Essa moeda era tão popular no comércio internacional e circulava muito mais que as libras nas Treze Colônias, que forneceu o padrão para a unidade monetária dos Estados Unidos. O real de a ocho neo-espanhol tinha 38 mm de diâmetro, 27,468 g, com prata 930 milésimos.

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Peça de real de a ocho, ou Spanish dollar, que forneceu a base para o dólar americano. Emissão mexicana de 1753, reinado de Fernando VI.

Até o Coinage Act de 1857, as moedas hispano-mexicanas podiam circular livremente pelos EUA, porém sua divisão era diferente. O real de a ocho, ou peso (como passou a ser oficialmente a partir de 1866), era dividido em 8 reales; como essas moedas circulavam pelos EUA, acabaram ganhando nomes específicos. O espectro metálico americano era decimal, abrigando moedas de meio cent, 1, 2, 3, 5, 10, 20, 25 e 50 centavos, não todas ao mesmo tempo; esse espectro é diacrônico. A cunhagem decimal foi introduzida no México em 1863; antes a peça de real a ocho era a base da moeda mexicana, dividido em 8 reales.

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Um real da Nova Espanha, de 1753, ou bit, como ficou conhecido nos EUA.

A moeda de 1 real, que equivalia a 12,5 cents, ou 1/8 de dólar, ficou conhecida como bit. Como não havia moeda equivalente nas peças regulares americanas, por um tempo usou-se short bit para a moeda de 10 cents, o dime, e long bit para a quantia de 15 cents.

A moeda de 25 cents (quarter dollar) ainda é chamada de two-bits, pela equivalência exata à moeda de 2 reales.

O meio real mexicano também entrou nessa lista, valendo 1/16 de dólar, ou 6,25 cents. Foi apelidado no sul dos EUA como picayune, do francês picaillon, que, por sua vez, vem do provençal picaioun, nome de uma pequena moeda de cobre da Saboia; o nome acabou passando para a moeda mais próxima, o nickel (5 cents), denominação usada eventualmente na Flórida e na Luisiana.

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Meio real da Nova Espanha, de 1797 (reinado de Carlos IV), conhecido nos EUA como picayune.

Hobo nickel

Hobo nickel é o nome dado nos EUA a peças de cinco centavos, os nickels, esculpidas de modo a alterar seus detalhes originais. Houve preferência pelos nickels pelo fato de estes serem feitos de cuproníquel, material de dureza relativamente baixa.

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Exemplares de hobo nickels. Fonte: wikipedia

A moeda em que as alterações eram feitas era o buffalo nickel, emitido entre 1913 e 1938, que trazia no reverso um búfalo e, no anverso, a efígie de um indígena norte-americano. E é justamente essa efígie, que ocupa cerca 85% do campo do anverso, que permitia a criação de desenhos variados. Para comparar, basta ver que o busto de Abraham Lincoln, que está desde 1909 nas moedas de um centavo (penny), ocupa apenas 16% da superfície do campo, o que limita as possibilidades de trabalho para o gravador.

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buffalo nickel. Fonte: wikipedia

Pelo baixo custo e pela facilidade de serem carregados, os hobo nickels tornaram-se muito famosos entre os hobos, e daí seu nome. Hobo é a palavra do inglês norte-americano para designar o andarilho ou alguém que percorre longas distâncias a pé em busca de trabalho.

O período considerado clássico desse tipo de alteração é entre 1913 e 1940, que coincide com a emissão do buffalo. Muitos artistas talentosos são desse período, como Bertham Wiegand, conhecido como Bert, que começou a gravar nos níqueis na adolescência, e George Washington Hughes, conhecido como Bo, que começou a gravar também na adolescência e o fez até os anos 1980.

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Retrato de George Washington Hughes, o Bo, em um hobo nickel esculpido por Bill (Jameson) Zach, em 2001. Fonte: Gallery Mint Museum

Mas isso não quer dizer que não havia alterações em moedas em épocas anteriores ou mesmo em outros países.

Os especialistas classificam como período clássico tardio as moedas esculpidas entre 1940 e 1980. Dentro desse período, os hobo nickels adaptaram-se às temáticas do movimento hippie, por exemplo, que teve seu auge entre o fim dos anos 60 e começo dos 70. Também se atesta nessa época o uso de ferramentas mais finas, elétricas, e também do uso de tinta para colorir detalhes como os cabelos das figuras.

As produções a partir de 1980 são consideradas modernas. As classificações de período aqui consideradas são do numismata norte-americano Del Romines, estudioso e autor de obras sobre os hobo nickels, as várias edições do Romines Hobo Nickel Book Supplement.

Até os dias de hoje há artistas especializados em gravar nos níqueis, quase sempre usando os buffalos antigos.

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E, quem diria, um hobo feito sobre uma moeda de cuproníquel brasileira, de 50 centavos dos anos 70. A autoria é do artista JH Ohns