O que observar em uma moeda e como

As peças de uma coleção precisam ser caracterizadas, e, para isso, são necessários um vocabulário específico e instrumentos adequados.

Comecemos com a análise física. Dois tipos de instrumentos são necessários: um óptico, para observação de detalhes, e os de medição.

Dos instrumentos ópticos, o mais comum é a lupa, ou seja, uma lente de aumento com um cabo, que pode ser plástico ou metálico. Com ela é possível ver detalhes que seriam muito difíceis de serem individuados a olho nu; não que sejam invisíveis, mas que nossa vista não consegue distingui-los de modo adequado. Há ainda instrumentos mais precisos, como os óculos de joalheiro e os microscópios. Deste último tipo, há ainda os microscópios USB, excelentes para quem mantém informações armazenadas em meio digital.

À esq., lupa; à dir., acima, o microscópio USB; abaixo, os óculos de joalheiro

Com relação aos instrumentos de medição, há os famosos paquímetros, cuja precisão pode chegar a centésimos de milímetros. Há os paquímetros comuns, que não são nada mais que duas regras justapostas com uma janela de medição para a aferição das medidas dos submúltiplos do milímetro, de aço ou de plástico, e os eletrônicos.

Paquímetros “analógico” e digital

Para pesar as moedas, faz-se necessária uma balança de precisão. Há hoje no mercado pequenas balanças eletrônicas a bom preço. Há ainda as mecânicas, que são quase elas também objeto de coleção. Usa-se a balança de precisão porque as balanças que conhecemos, as de mercado, por exemplo, tem precisão entre 1 e 5 gramas. Haja vista que o peso das moedas orbita justamente nessa faixa, fica impossível distinguir variantes pelo peso, por exemplo, a diferença de peso que há entre as moedas de 1 real emitidas entre 1998 e 2001, com 7,84 g, e as emitidas a partir de 2002, com 7 g, que apresentam diferença inferior a 1 g.

minibalança

Minibalança de precisão

Com esses itens em mãos, o que observar?

Diâmetro. O tamanho da moeda de ponta a ponta. Mede-se com o paquímetro e se expressa em milímetros.

Espessura. A altura do disco. Expressa-se também em milímetros.

Peso. Em gramas, mede-se com a balança de precisão.

No exame visual, podemos ver as características do bordo, se é liso, serrilhado, com serrilha intermitente, com inscrição, ornamentado, etc.

Grande parte das moedas atuais é redonda, ou seja, é uma circunferência, mas há países que emitem moedas em outros formatos. O Reino Unido, por exemplo, tem a famosa threepence bit, emitida entre 1938 e 1970, que é um polígono regular de doze lados, ou seja, um dodecágono, uma moeda de forma dodecagonal. O mesmo país ainda tem as atuais moedas de 20 e 50 pence, que são heptagonais, ou seja, formam um polígono de sete lados, um heptágono. Também a Argentina emitiu peças dodecagonais nos anos 1960.

À dir., peça dodecagonal de três pence; à esq., moeda de 50 pence heptagonal

A cor do metal pode fornecer-nos pistas sobre a composição das moedas. Vamos às principais cores e metais.

Prateado. Há de se ter cuidado: nem tudo que é prateado é prata. Aliás, moedas de prata após a década de 1960 não são de circulação comum. Na paleta do prateado, temos, claro, a prata, que, para circulação comum, costuma ser mais fosca, além da sua pátina peculiar, que, em estados de conservação excelentes, fica azulada, o que os colecionadores chamam de pata de elefante.

Em sentido horário, $100 de cuproníquel, 100 cruzeiros de aço inox, 20 cruzeiros de alumínio e um xelim sul-africano de prata

Para substituir a prata, criou-se uma liga binária, o cuproníquel, que estreou na numária com moedas belgas, na década de 1860. O cuproníquel padrão é composto por 75% de cobre e 25% de níquel, ou melhor, 750 milésimos de Cu e 250 milésimos de Ni — é assim que se indica a composição das ligas, em milésimos (‰) —; embora o cobre seja avermelhado, o aspecto de uma peça de cuproníquel é prateada. O Brasil, por exemplo, usou continuamente o cuproníquel de 1870 a 1942, novamente entre 1967 e 1978 e na moeda de 50 centavos e no disco interno da moeda de 1 real emitidas entre 1998 e 2001. Com a circulação, o cuproníquel adquire um aspecto escurecido.

O alumínio também apresenta aspecto prateado. Nas moedas brasileiras emitidas entres 1956 e 1965, ele apresenta aspecto fosco. O metal distingue-se dos outros pela sua leveza. Por exemplo, o aço inox 430, usado para moedas, tem o peso específico de 7,7 g/cm3, enquanto o alumínio puro apresenta 2,6 g/cm3.

O aço inoxidável, liga de ferro, carbono e cromo, também apresenta aspecto prateado, mas muito brilhoso. No Brasil, as moedas desse metal começaram a ser emitidas em 1967, com um breve hiato entre 1998 e 2001. Nossa atual moeda de 50 centavos é de aço inox.

Dourado. O tom dourado, além do ouro, claro, aparece em moedas de latão (liga de cobre e zinco em proporções variáveis) e bronze-alumínio (liga ternária de cobre, alumínio e zinco). Este último foi muito usado no Brasil entre 1922 e 1956. A alpaca, liga ternaria de Cu, Zn e Ni, pode apresentar coloração fracamente dourada, como aparece no anel da moeda de 1 real entre 1998 e 2001. Há ainda o ouro nórdico (saiba mais sobre essa liga aqui), usado nas moedas de euro, e o bronze fosfórico, usado nas moedas de 10 e 25 centavos de real brasileiro.

No primeiro quadrante, à esq., 1 real, com anel de alpaca dourada, e logo abaixo, peça de três pence de latão, à dir., 2$ de bronze-alumínio; abaixo à esq., peça de ouro do antigo Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia), à dir., 10 coroas suecas de ouro nórdico

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10 centavos de real com eletrorrevestimento de bronze fosfórico

Vermelho. É o tom do cobre e do bronze quando em peças FDC (flor de cunho). Moedas de cobre puro não são batidas no Brasil desde 1833. Foram substituídas pelo bronze em 1868; o bronze é uma liga binária de cobre e estanho, com predominância do primeiro. Nossas moedas atuais de 1 e 5 centavos são eletrorrevestidas de cobre, embora tenham a alma (o miolo) de aço baixo-carbono. Com a circulação, a gordura das mãos faz com que o cobre crie um óxido de cor acastanhada.

À esq., o farthing (um quarto de penny) de bronze; à esq., dois exemplares de 5 centavos de real com eletrorrevestimento de cobre já oxidado pela circulação

Rosado. O tom rosado geralmente aponta para um tipo específico de cuproníquel com 880‰ Cu e 120‰ Ni; a proporção confere ao metal a coloração rosada. Essa liga foi usada no Brasil entre 1942 e 1944 e é conhecida nos meios numismáticos como níquel rosa.

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Anverso de moeda de cruzeiro de níquel rosa

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