As ciências auxiliares da numismática

A numismática é a ciência que se dedica ao estudo de moedas e medalhas, segundo o Dicionário Houaiss, ou “a ciência que tem por objeto o estudo morfológico e imperativo das moedas”, segundo Leite de Vasconcellos (1), mas ela é uma ciência que depende muito de outras, justamente pela natureza de seu objeto de estudo.

A moeda, originalmente, não era um objeto em si, ou seja, de ser apenas por ser, mas tem uma função muito específica: a de ser meio de troca neutro, sem necessidade de troca direta de mercadorias; ou seja, a moeda representa um veículo de valor; tal relação acabou, com o tempo, sendo atribuição do poder estatal.

E os Estados mudam no decorrer do tempo; consequentemente somem e aparecem instituições emissoras. Aí entra a primeira e quiçá mais importante ciência auxiliar da numismática: a história. É preciso entender o que foi, por exemplo, o Império Austro-Húngaro e a sua monarquia dual para a classificação das moedas emitidas pelo Império da Áustria e pelo Reino da Hungria, embora fossem do mesmo padrão monetário (a coroa austro-húngara). Ou como classificar as moedas de libra pré-decimais, sabendo-se, que antes do sistema decimal, a libra usava um sistema franco ou carolíngio.

Como os Estados geralmente têm uma circunscrição territorial sobre a qual exercem seu poder, a geografia. Podemos saber, pela data, em que territórios determinada peça circulava. Voltemos ao Império Austro-Húngaro. A monarquia dual, composta por Império da Áustria e Reino da Hungria, extrapolava o que hoje são os territórios da Áustria e da Hungria. A Áustria, dentro do Império Austro-Húngaro, incluía os territórios atuais de Áustria, República Tcheca e partes da Itália, da Eslovênia, da Croácia, da Ucrânia e da Romênia; o Reino da Hungria incluía a atual Hungria, Eslováquia, partes de Eslovênia, Croácia, Ucrânia, Romênia, Sérvia e Polônia; havia ainda a Bósnia, que era condomínio austro-húngaro. Logo, as moedas emitidas por Viena e Budapeste circulavam nesse vasto território.

As moedas são geralmente feitas de metal, principalmente no mundo ocidental. Desde há muito, usam-se discos de metal puro ou muito puro, como cobre, prata, ouro e alumínio, ou de ligas, como cuproníquel, aço inox, bronze, bronze-alumínio. A ciência que trata dos metais, suas propriedades e suas ligas é a metalurgia, relativamente esquecida entre os colecionadores. Também a fabricação de moedas é campo da metalurgia.

Não podemos nos esquecer de outra ciência muito importante. As moedas, como símbolo de um valor, tinham poder de compra; a relação da moeda com o poder de compra é estudada pela economia. O que determinada moeda comprava em tal época é uma questão que pode ser respondida por meio de conhecimentos econômicos. Também se pode explicar por meio da economia a mudança dos metais das moedas, geralmente atribuída à inflação e ao aumento do valor do metal com relação ao valor extrínseco das peças. Nessa toada explica-se o sumiço da prata da cunhagem regular brasileira a partir de 1939.

A heráldica é uma ciência importante. É com ela que analisamos os brasões eventualmente presentes nas moedas.

A iconografia é importante para identificação de elementos estéticos e representativos não heráldicos.

A linguística também é importante. É com conhecimentos linguísticos que lemos ou deciframos as inscrições nas moedas.

Conhecimentos sobre sistemas de numeração são bem-vindos. Além do sistema indo-arábico usado nas moedas hoje em dia, podemos nos deparar com os sistemas árabe-oriental, japonês, romano, hebraico.

A lista pode ser ainda maior. Dependerá de quais conhecimentos precisaremos mobilizar para responder as questões que nos pomos.


(1) VASCONCELLOS, J. L. de. apud FRÈRE, H. Numismática – uma introdução aos métodos e à classificação. São Paulo: Sociedade Numismática Brasileira, 1984.