A inflação e os projetos de redenominação monetária (1961-65)

A inflação vinha em alta desde 1958. Em 1957, o índice anual registrado foi de 7%, o mais baixo desde 1948; mas, no ano seguinte, ele retoma a trajetória de crescimento, fechando em 24,4%; o ano de 1959 registrou 39,4%, o mais alto desde 1930; em 1964, chegou-se a 92,1% (MUNHOZ, 1997).

Frente a esse cenário, a depreciação do meio circulante era inevitável. Se em 1951 1 dólar americano oscilava entre Cr$ 26 e Cr$ 33, em dezembro de 1955, a divisa estrangeira atingia a marca de Cr$ 67,36. Sempre em dezembro, em 1957, foram Cr$ 91,70/dólar; em 1958, Cr$ 140,40. Em 5 de novembro de 1959, a moeda americana cotava-se a Cr$ 198,50[1]. Se pensarmos que, nesse momento, a cédula mais alta era a de Cr$ 1.000, ela apenas comprava 5,04 dólares; a peça metálica de maior valor então circulante, 2 cruzeiros, valia pouco mais de um cent. Claro que é preciso atentar-se ao poder de compra das moedas: 1 dólar de 1959 equivale a US$ 8,18 em 2016, logo, esses Cr$ 1.000 equivaleriam a US$ 41,22 (jan 2017) e, logo, a R$ 130, aproximadamente[2].

Proposições de reforma

O panorama inflacionário aumentou o custo dos materiais de cunhagem, como vimos no capítulo anterior, forçando a substituição do cuproalumínio pelo alumínio.

Ainda no governo Jânio (janeiro a agosto de 1961) começaram a aparecer iniciativas parlamentares para a redenominação da moeda, inspirados aberta ou dissimuladamente na reforma feita pouco antes pela França, em virtude da política de estabilização da economia francesa, o chamado plano Pinay-Rueff, em que 100 francos passaram a ser 1 franco novo, a partir de 1º de janeiro de 1960[3]. É preciso lembrar que, no Brasil, nesse momento, não havia ainda Banco Central, e que políticas econômicas, e até mesmo emissão monetária, estavam sujeitas aos humores parlamentares.

Apresentamos aqui, sumariamente, esses projetos, em ordem cronológica.

Projeto Vasconcelos Torres: o novo cruzeiro ou cruzeiro forte

O Projeto de Lei (PL) nº 2.878/1961 é do deputado João Batista de Vasconcelos Torres (1920-82; PSD-RJ). O texto, de 20 de abril de 1961, propunha a instituição do novo cruzeiro ou cruzeiro forte; o art. 2º do PL informa que as peças metálicas seriam 1, 2, 5, 10, 20 e 50 centavos e 1 NC[4] de “metal comum” e 2 e 5 NC de prata. Cabe notar que as emissões de prata haviam cessado em 1938, com as últimas peças de 5$, que traziam Santos Dumont no anverso.

O projeto tem uma longa e enfadonha justificativa, versando sobre teorias econômicas e sociológicas, pondo como base das relações econômicas o capital e, como “medida natural” para esses valores, a moeda; o parlamentar pretende reverter o quadro inflacionário por meio da política monetária, e cita como exemplos recentes o Chile[5], a Rússia[6] e a França — novamente.

As moedas do novo cruzeiro são especificadas, mas não as cédulas, embora estas sejam citadas en passant; tampouco se explicita qual seria o fator de conversão do cruzeiro para o novo cruzeiro proposto, como bem aponta o parecer lúcido de Casemiro Antônio Ribeiro, então chefe do Departamento Econômico (Depec) da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), órgão do Ministério da Fazenda e predecessor do Banco Central. O parecer, em ofício datado de 4 de novembro de 1961, consta do PL e expõe que a adoção de uma nova unidade monetária teria, nos termos em que se punha, alcance psicológico, mas que o projeto era, em suma, vago.

Do exposto, infere-se que a simples intuição de uma unidade monetária nova, como medida isolada, não iria trazer maior contribuição aos objetivos colimados no projeto, quais sejam o fortalecimento interno da moeda e o saneamento do meio circulante. Para tanto indispensável se torna que juntamente com a referida medida se adotem outras de longo alcance, que propiciem às autoridades responsáveis pela política econômico-financeira meios para atingir-se a estabilização monetária. (Casemiro Antônio Ribeiro, no Ofício Depec 95/61, constante no PL 2.878/1961).

Pela tramitação confusa e pela realidade perceptível, vê-se que o tal PL não resultou em nada; o projeto foi arquivado em 21 de março de 1963.

Projeto Ramos Viera: o brasão

Em 1963, vamos ter duas proposições. A primeira é o PL nº 864/1963[7]; de autoria do deputado Laerte Ramos Vieira (1925-; UDN-SC), inspirava-se também na redenominação feita na França e indicava que o brasão equivaleria a 100 cruzeiros. O curioso é a “precisão” numismática do projeto: o art. 3º informava que as moedas seriam:

  • 200 brasões; ouro, 34 mm, 18 g, com a efígie de Tiradentes;
  • 100 brasões; ouro, 28 mm, 9 g, Rui Barbosa;
  • 50 brasões; prata, 30 mm, 12 g, Barão do Rio Branco;
  • 20 brasões; prata, 26 mm, 8 g, Duque de Caxias;
  • 10 brasões; prata, 24 mm, 6 g, José Bonifácio; e
  • Peças de 1, 2, 5, 10, 20 e 50 centavos, de outros metais não especificados, com 17 mm, 19 mm, 21 mm, 23 mm, 25 mm e 27 mm, respectivamente, trazendo, os três valores menores as Armas da República, e os três maiores o mapa do Brasil[8], os mesmo motivos que vinham ornando as moedas desde 1942.

Esse projeto busca a reintrodução do bimetalismo a uma taxa de aproximadamente Cr$ 1,1 mil por grama de ouro e Cr$ 416 por grama de prata. O parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), de 20 de setembro de 1963, exarado pelo deputado Aliomar Baleeiro (1905-78; PSD-GB) e apenso à documentação, embora afirme que de inconstitucional o projeto nada tem, frisa “sua inconveniência como política legislativa, por ser inóculo relativamente à inflação”, além de citar a inutilidade de emissão de moedas de metal precioso, que, já naquela época, “desapareceriam, expulsas pelo papel aviltado”[9]. É curioso o deputado Baleeiro citar no parecer a escassez de prata nos EUA; parece até que ele pressentiu o Coinage Act de 1965[10].

Em 22 de outubro de 1963, a CCJ vota e aprova o parecer do relator. Ao que parece, o projeto estancou-se na Comissão de Economia; o deputado Alde Sampaio (1894-1987; UDN-PE), relator escolhido, informa ser incapaz de opinar sobre um projeto cuja base é a “volta ao padrão ouro”, já que o próprio Sampaio é autor de um projeto “que institui o sistema monetário à base do papel-moeda”. Sampaio, tendo em vista sua biografia, parece-nos uma pessoa apta a opinar sobre o tema, uma vez que tem ligação com a então nascente área de pesquisa econômica no país[11]. O projeto termina por ser arquivado em 25 de maio de 1964.

Projeto Peixoto da Silveira: o cruzeiro novo

Não se engane o leitor: ainda não se trata da reforma que efetivamente ocorrerá em 1967. O PL nº 909/1963[12], de 21 de agosto, da lavra do deputado José Peixoto da Silveira (1913-87; PSD-GO), basicamente propõe a instituição de um padrão monetário chamado cruzeiro novo nos mesmos moldes do novo franco, em que 1 cruzeiro novo equivaleria a 100 cruzeiros “antigos”. Na documentação do referido projeto há a tradução da Ordenança nº 58-1341, de 27 de dezembro de 1958, e do Decreto nº 59-1313, de 18 de novembro de 1959, que instituem o novo franco no país europeu, além de um longo relatório sobre o franco, também traduzido.

Porém, ao contrário do plano Pinay-Reuff, o projeto do deputado Peixoto da Silveira preocupava-se apenas com a “estética”, ou seja, com a quantidade de unidades, sem ter por base um plano de estabilização econômica, o que era mais necessário naquela ocasião. Tanto que, na justificativa do PL, o próprio parlamentar admite: “Este projeto visa, em última análise, cortar dois zeros em nossa nomenclatura monetária. Nada mais” (grifo nosso).

Projeto Noronha Filho: o cruzado

Em setembro de 1964, ou seja, já após a “Revolução”, o deputado Oscar Noronha Filho (1916-2015; PTB-GB), que assumira lugar na Câmara após a cassação de Leonel Brizola pelo AI-1, propunha uma moeda chamada cruzado, também na base 1:100 com o cruzeiro; e isso com mais de vinte anos de antecedência do cruzado implantado em 1986 pela equipe capitaneada pelo ministro Dilson Funaro. O PL nº 2.321/1964[13] prevê moedas de 1, 2, 5, 10, 20 e 50 cêntimos, que teriam 17, 19, 21, 23, 25 e 27 milímetros, respectivamente — curiosamente os mesmos valores e dimensões do brasão do projeto Vieira e a mesma equivalência em tamanho às moedas do Decreto-Lei nº 4.791, de 1942, que implantou o cruzeiro. O art. 7º do PL indica que as moedas — e também as cédulas — terão as mesmas características estéticas das peças do primeiro cruzeiro, mas valendo cem vezes mais. Imagine-se a confusão que teria sido caso o projeto tivesse vingado: a moeda de 1 cêntimo de cruzado, equivalente a 1 cruzeiro, teria as mesmas dimensões da moeda de 10 centavos de cruzeiro emitida entre 1942 e 1956 e a mesma liga da emitida entre 1942 e 1943. Seria também uma possível reintrodução do níquel rosa (vide capítulo I), já que a referência é ao Decreto-Lei de 1942, e não ao de 1943, que alterou a liga.

O parecer da CCJ, do deputado Osni de Medeiros Régis (1917-91; PSD/SC), datado de 29 de setembro de 1964, aprova o projeto quanto à constitucionalidade, mas com ressalva em relação ao mérito. Basta citar que se trata de mais um projeto “cosmético”, que altera o padrão monetário sem, contudo, estabelecer uma estratégia para atacar os motivos da onda inflacionária, inversamente ao que fez o governo francês, que primeiro estabilizou a economia para depois alterar o padrão monetário. No mesmo dia, a CCJ aprova o parecer do relator.

O projeto terminou arquivado, em 10 de março de 1967.

Último ato

Em 1965, o governo, entre outras medidas, cria o Banco Central e programa a introdução do cruzeiro novo, equivalente a mil cruzeiros antigos, que se tornaria efetiva em 1967.

 


 

Referências

BRASIL. Projeto de Lei nº 864/1963. 1963a. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=9B800D338DEA7D0464A26C4BD5E0767C.node1?codteor=1198249&filename=Avulso+-PL+864/1963&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

______. Projeto de Lei nº 909/1963. 1963b. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=6A11EE597B556C8F27EDC8551746F621.proposicoesWeb2?codteor=1198292&filename=Avulso+-PL+909/1963&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

______. Projeto de Lei nº 2.321/1964. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1196222&filename=Dossie+-PL+2321/1964&gt;. Acesso em: 28 mar. 2018.

______. Projeto de Lei nº 2.878/1961. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=88022C97192B2A06494436A63470EA5A.proposicoesWeb1?codteor=1203329&filename=Avulso+-PL+2878/1961&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

CHÉLINI, M.-P. Le plan de stabilisation Pinay-Rueff, 1958. Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine, Paris, nº 48/4, Belin, 2001, p. 102-123. Disponível em: <https://www.cairn.info/revue-d-histoire-moderne-et-contemporaine-2001-4-page-102.htm&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

CURRENCY REFORM 1961. Presidential Library, s. d. Disponível em: <https://www.prlib.ru/en/history/618911&gt;. Acesso em: 28 mar. 2018.

EUA – Estados Unidos da América. Public Law 89-81 (Coinage Act of 1965). 23 jul, 1965. Disponível em: <https://fraser.stlouisfed.org/scribd/?title_id=1123&filepath=/files/docs/historical/congressional/coinage-act-1965.pdf&gt;. Acesso em: 27 mar. 2018.

MUNHOZ, D. G. Inflação brasileira – Os ensinamentos desde a crise dos anos 30. Economia Contemporânea, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, jan.-jun. 1997. p. 59-87. Disponível em: <http://www.ie.ufrj.br/images/ pesquisa/publicacoes/rec/REC%201/REC_1.1_03_Inflacao_brasileira_os_ensinamentos_desde_a_crise_dos_anos_30.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2018.

 

Notas

 

[1] “Mercado de taxa livre”. Correio da Manhã, 6 nov. 1959. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&pesq=cota%C3%A7%C3%A3o%20do%20d%C3%B3lar&gt;. Acesso em: 09 jan. 2017.

[2] O cálculo foi efetuado com auxílio da ferramenta para tal fim do Dollar Times (http://www.dollartimes.com/inflation/dollars.php); o valor do dólar foi considerado R$ 3,16 (cotação de 9/1/2017).

[3] CHÉLINI, 2003.

[4] É o símbolo que o PL propõe para o tal novo cruzeiro no parágrafo único do art. 1º; assim mesmo, sem r ou $.

[5] O governo de Jorge Alessandri (1958-64) substituiu, em 1º de janeiro de 1960, o desvalorizado peso chileno pelo escudo, na razão de 1:1.000; a mudança foi embasada em medidas econômicas.

[6] A então URSS cortou um zero de sua moeda em 1º de janeiro de 1961, ou seja, 1 rublo “novo” equivalia a 10 “antigos”. Além de mexer com os preços, a questão da quantidade de ouro por rublo, embora praticamente fictícia, também mudou (CURRENCY…, s/d).

[7] BRASIL, 1963a.

[8] Adaptado de BRASIL, 1963a.

[9] Baleeiro faz referência à Lei de Gresham, que se resume em uma oração: “A má moeda tende a expulsar a boa moeda do mercado”; o conceito foi cunhado por Henry Dunning Macleod (1821-1902), economista britânico, em memória de sir Thomas Gresham (1519-1579), mercador e financista inglês.

[10] A referida lei praticamente acabou com a cunhagem de prata americana, convertendo o dime (10 centavos) e o quarter (25 centavos) para peças de clad de cuproníquel com núcleo de cobre e reduzindo o teor de prata do half dollar de 90% para 40% milésimos (EUA, 1965), mas que também deixaria de ter prata com a Coinage Law de 1970.

[11] Vide biografia de Alde Sampaio no site do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/alde-feijo-sampaio&gt;. Acesso em: 28 mar. 2018.

[12] BRASIL, 1963b.

[13] BRASIL, 1964.

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A borda ondulada das moedas de 50 centavos

As moedas de 50 centavos não deixam de surpreender. Depois das questões de mudança no anverso e das variedades na inscrição da orla, mais um fator curioso se apresenta, a que chamaremos de borda corrugada.

A borda corrugada é uma anomalia apresentada principalmente na era 2009, embora se apresente em moedas de todas as eras, com menor intensidade. Trata-se de levantamentos irregulares na borda, dando um efeito de ondulado, podendo ir de leve (10% da borda) a severo (50% ou mais).

Pelo que se pode observar, o efeito é causado pelo fato de a orla da moeda não ser regular, ou seja, não ser lisa ou serrilhada, o que distribuiria a força de prensagem uniformemente por todo o instrumental de cunhagem, inclusive a virola, parte que cunha a orla. Não sendo a superfície da virola regular, por conta das letras, a força de prensagem espalha-se pelo conjunto; em alguns casos, a força faz com que o metal do disco “transborde” e crie as irregularidades na borda das peças. Como o processo de orlagem é anterior à cunhagem (CORSO, 2007), o metal excedente fica, por assim dizer, mal prensado, dando origem ao efeito. E as partes mais altas coincidem justamente com as letras da inscrição da orla.

A explicação do fenômeno parece comprovar-se pela inexistência da borda corrugada nas outras peças da série.

A maior frequência em 2009 pode ser atribuída à alteração do tamanho das letras da inscrição, que em artigo prévio foi categorizada como bordo tipo C; o ano em questão foi o primeiro desse tipo de bordo, que será produzido ainda em 2010, mas com menos peças. O motivo de seu sumiço é, muito possivelmente, a intensificação desse enrugamento na borda da peça.

Três peças de 2009 com a anomalia descrita

O que nossos leitores acham?

* * *

Referências

CORSO, J. L. Como são cunhadas nossas moedas atuais?. Boletim SNB, São Paulo, n. 60, 2007, p. 50-55.

Quanto vale a minha moeda – 3

Muita gente continua vindo a este blogue para saber o valor de suas moedas. Sem entrar em quantificações específicas, vamos dar algumas dicas nesse sentido. Já avisamos que não fazemos avaliações; logo, não peçam avaliações nos comentários.

Moedas brasileiras do século XX dificilmente têm algum valor monetário relevante, o que, claro, não impede colecioná-las. Lembre-se de que o século XX foi pródigo em inflação, e que as moedas, principalmente após os anos 1920, passaram a cumprir a função que hoje têm: a de dinheiro miúdo para troco.

Para termos uma ideia da desvalorização da moeda, vamos tomar como base o valor de 1$ (um mil-réis). Em janeiro 1901, o valor era representado por uma moeda de prata 11 dinheiros (916,6 milésimos), de 30 mm e 12,75 g, e valia 10 pence (0,04 libra esterlina). Em 1906, a peça passou a ser de prata 900 milésimos, com 26 mm de diâmetro e 10 g; naquele ano, comprava 1 shilling e 3 pence (0,063 libra); em 1922, a peça passa a ser de cuproalumínio (910 Cu-90 Al), com 26,7 mm e 8 g, o que já começa a caracterizar o mil-réis mais como moeda fiduciária. O câmbio médio de 1922 foi de 7½ pence (0,031 libra). Em 1936, a moeda passa a ter 24,5 mm e 7 g, infelizmente não temos a informação de câmbio, mas a desvalorização é visível. Em 1942, 1$ passa a ser 1 cruzeiro, moeda de cuproalumínio com 23 mm de diâmetro e 7 g, padrão que se manterá até 1956, quando é brevemente substituído por uma moedinha de 19 mm e 4 g, para ser, a partir de 1957, uma peça de alumínio de 23 mm e 2,7 g, que sobreviverá até 1961. Isso mostra bem a desvalorização monetária entre 1901 e 1961; com a reforma de 1967, o valor de 1 cruzeiro passa a ser 1 milésimo de cruzeiro novo, e usado apenas como moeda de conta. Assim o mil-réis foi da prata à inexistência.

O fato de uma moeda ser “antiga” não garante nada. Há peças com mais de cem anos que foram emitidas aos milhões; ou seja, há possivelmente um caminhão delas por aí. O fato de você nunca a ter visto (impressão pessoal) não a valoriza; nem o fato de ela estar no meio das coisas do seu avô. As pessoas mais velhas tinham o costume de juntar as moedas conforme elas iam perdendo valor. E outra: millennials acham que algo feito nos anos 1980, por ser anterior a seu nascimento, é necessariamente valioso. Basta lembrar que entre 1979 e 1997, por conta das altas taxas de inflação, só foram batidas moedas de aço, o metal de cunhagem mais abundante no Brasil. As peças metálicas feitas até 1994 tinham poder de compra reduzidíssimo, bastando lembrar que a moeda mais alta do último padrão antes do real, a peça de 100 cruzeiros reais, foi convertida para real na astronômica cifra de R$ 0,0275, ou seja, 2 centavos e 75 décimos-milésimos, ou 2¾ centavos de real.

Outro fator é observar as moedas batidas após 1939: temos moedas de cuproalumínio, cuproníquel, alumínio, níquel e aço, muito aço. São materiais baratos. É claro que estão fora dessa conta as peças comemorativas, como os 20 e 300 cruzeiros do Sesquicentenário da Independência, de 1972, de prata e outro, respectivamente, e os 10 cruzeiros dos dez anos do Banco Central (1975) e os 200 cruzados novos do Centenário da República (1989), ambas de prata. Essas não foram moedas feitas para circulação comum.

Moedas do século XX podem atingir valores interessantes se tiverem reverso invertido, ou seja, na posição contrária ao inicialmente previsto, ou reverso horizontal; ou ainda algum defeito de cunhagem. Há algumas exceções, como a presença de siglas nas primeiras moedas de cruzeiro (1944-6), mas é preciso consultar um catálogo para avaliá-las. Ou ainda se forem algum ensaio ou prova, ou seja, protótipos de moedas que não foram feitos para circulação.

Tampouco uma moeda, simplesmente por ser de prata, atingirá valores astronômicos. Há centenas de anúncios no Mercado Livre em que gente sem o conhecimento ou a consultoria adequada pede verdadeiras fortunas por peças relativamente comuns. Você pagaria, digamos, R$ 100 mil em um Fusca 85? Ou R$ 500 em um PF?

Então, antes de pôr algo a venda, procure informar-se. Não é porque se pede R$ 20 em uma moeda de 10 cruzeiros de 1984 ela efetivamente valha isso.

Outro dado muito importante é a conservação das peças; dependendo da moeda, ela só terá algum valor monetário se estiver em FC (flor de cunho), que é mais ou menos do jeito que ela sai da Casa da Moeda, ou seja, intocada.

Há várias questões envolvidas, mas dificilmente uma moeda brasileira emitida no século XX para circulação atingirá valores com mais de três dígitos.

Abaixo, uma lista resumida de moedas extremamente comuns:

  • 100, 200 e 400 réis da série MCMI (cuproníquel)
  • 20, 50, 100, 200 e 400 réis (1918-1935) de cuproníquel. Os valores de 20 e 50, se com data superior a 1927-9, são de interesse do mercado.
  • 500 e mil réis (cuproalumínio) do Centenário da Independência (1923)
  • 500 e mil réis (1924-1930 – cuproalumínio)
  • 100, 200, 400 e 2 mil réis da série Vicentina (1932). As peças de 500 e mil réis têm alta procura.
  • Peças emitidas de mil-reis entre 1936 e 1942.
  • 10, 20, 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1942-56 – níquel rosa e cuproalumínio)
  • 5 cruzeiros (1942-3 – cuproalumínio)
  • 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1956 – cuproalumínio)
  • 10 e 20 centavos (1956-61 – alumínio)
  • 50 centavos, 1 e 2 cruzeiros (1957-61 – alumínio)
  • 10 e 20 cruzeiros (1965 – alumínio)
  • 50 cruzeiros (1965 – cuproníquel)
  • 1, 2 e 5 centavos (1967-78 – aço)
  • 10 e 20 centavos (1967-78 – cuproníquel e aço)
  • 50 centavos (1967-78 – níquel, cuproníquel e aço)
  • 1 cruzeiro (1970-8 – níquel e cuproníquel)

A partir daqui, são todas de aço:

  • 1 cruzeiro (1979-85)
  • 5 cruzeiros (1980-5)
  • 10, 20 e 50 cruzeiros (1980-6)
  • 100, 200 e 500 cruzeiros (1985-6)
  • 1, 5, 10, 20, 50 centavos e 1 e 5 cruzados (1986-8)
  • 10 cruzados (1987-8)
  • 1, 5, 10 e 50 centavos (1989-90) – Obs.: as moedas e 1 e 5 centavos de 1990 são difíceis de conseguir, consequentemente podem valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 1 cruzeiro (1990)
  • 5, 10 e 50 cruzeiros (1990-2)
  • 100, 500 e 1.000 cruzeiros (1992-3)
  • 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais (1993-4)

Primeira família do real:

  • 1 centavo (1994-7)
  • 5 centavos (1994-7)
  • 10 centavos (1994-7) – em 1995 foi emitida uma moeda comemorativa dos 50 anos da FAO, que pode valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 25 centavos (1994-5) – em 1995 foi emitida uma moeda comemorativa dos 50 anos da FAO, que pode valer algo, a depender o estado de conservação.
  • 50 centavos (1994-5)
  • 1 real (1994)

Há ainda fatos mais recentes, como a moeda de 1 real dos 50 anos da Declaração Universal do Direitos Humanos, que tem, por conta de especulação, alcançado valores próximos de R$ 100, o que é um fato estranho, pois sua tiragem foi de 600 mil exemplares. Do centavinho (1979-83) foram batidas 100 mil peças de cada ano, e dificilmente a série completa de cinco peças sai por mais de R$ 40.

Portanto, antes de anunciar valores absurdos, veja o que você tem em mãos. E consulte os catálogos.

O meio circulante do real

Muita especulação e muito achismo aparecem quando se fala no meio circulante do real, segundo padrão monetário de maior duração desde 1942, contando, em dezembro de 2017, com 23 anos e cinco meses, prestes a ultrapassar o primeiro cruzeiro, esse sim, o padrão mais duradouro no pós-1942, vigente de outubro de 1942 a fevereiro de 1967, contando 24 anos e cinco meses; marca que o real alcançará em novembro de 2018.

Nesses quase 23 anos e meio de real, houve alterações substanciais no meio circulante. Em julho de 1994 foram lançadas uma série de cédulas e uma série de moedas para circulação provisória. A segunda família de moedas, que pôs fim ao reinado absoluto de quase vinte anos do aço inox, entrou em circulação em 1º de julho de 1998, quarto aniversário do padrão. A série de cédulas foi sendo substituída em três etapas, entre 2010 e 2013.

O fato de terem sido lançadas novas séries de cédulas e moedas não quer dizer que as primeiras versões não tenham mais validade.

A primeira família de cédulas, lançada em 1994, contava com as peças de 1, 5, 10, 50 e 100 reais. A cédula de 2 reais foi introduzida em 13 de dezembro de 2001, e a de 20, em 27 de julho de 2002. A numária brasileira não via cédulas com múltiplo de 2 desde o lançamento da cédulas de 200 cruzados novos, que comemorava os cem anos da Proclamação da República, em 1989.

A primeira família de moedas foi lançada também em julho 1994 e contava inicialmente com as peças de 1, 5, 10, 50 centavos e 1 real. A moeda de 25 centavos, provavelmente um protótipo para uma possível segunda família, foi lançado em setembro daquele ano.

Vamos então a alguns mitos e boatos que há a respeito da numária do real.

A moeda de centavo não vale mais.

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Falso. Embora sua produção tenha sido descontinuada a partir de 2005, a moeda segue tendo curso legal, ou seja tem valor e tem de ser aceita como meio de pagamento (até o limite de cem vezes seu valor de face). E isso vale tanto para as moedas de aço da primeira família como para as de aço eletrorrevestido de cobre da segunda.

As moedas de aço não valem mais.

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Parcialmente falso. Todas as moedas emitidas a partir de 1994 têm valor legal, exceto a de 1 real da primeira família, que foi demonetizada em 23 de dezembro de 2003; é a única sem valor. As outras continuam tendo poder de compra.

As moedas verdadeiras são atraídas pelo ímã.

Parcialmente falso. Entre 1998 e 2001, foram emitidas moedas de 50 centavos e 1 real, de cuproníquel e de anel de alpaca e miolo de cuproníquel, respectivamente. Esses metais são amagnéticos, ou seja, não são atraídos pelo ímã. Em 2002, por conta dos custos de produção, o Banco Central trocou por aço os metais das moedas citadas.

 Qualquer moeda fora dessas datas (1998-2001) e não magnéticas, sim, são falsas.

A cédula de 1 real não vale mais.

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Falso. A produção da cédula de 1 real foi descontinuada em 2005 — fato por que não há cédula de 1 real na segunda família —, mas as que ainda estiverem em mãos dos usuários podem ser usadas e devem ser aceitas, pois têm valor legal.

A cédula de 10 reais de plástico é falsa/não vale mais.

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Em 2000, o Banco Central emitiu uma cédula de polímero que comemorava os 500 do descobrimento do Brasil, bem diferente da série então vigente. Tratou-se de um teste de material para a segunda família, mas que não vingou. Embora praticamente não sejam mais vistas em circulação, continuam tendo valor legal e devem ser aceitas por comércio e setor bancário.

Meu primo/vizinho/amigo me disse que as moedas das olimpíadas valem R$ 50 cada.

Falso. Das moedas comemorativas do real, podem chegar a ter valor considerável a de 1 real dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1998), com 600 mil exemplares, e o chamado real da Bandeira Olímpica (2012), com 1 milhão de exemplares. As de 10 e 25 centavos da FAO, de 1995, também podem chegar a valer algo. Todas as outras, incluindo as das modalidades olímpicas (2015-2016), do Juscelino Kubitschek (2002), dos 40 anos do BC (2005) e dos 50 anos do BC (2015) foram emitidas todas em quantidades superiores a 10 milhões, o que não faz delas raridades.

O porquê de nosso sumiço

Não, meus caros. Ainda não foi desta vez que este blogue acabou. Na verdade, demos uma pausa na postagem por alguns motivos de trabalho e também de estudo numismático.

Aliás, trazemos a vocês, se já não as conhecem, duas obras que consideramos muito importantes e que responderam a várias indagações nossas. A primeira é “Dinheiro no Brasil“, de Florisvaldo dos Santos Trigueiros, que traz informações e dados muito úteis acerca principalmente das cédulas brasileiras até 1987.

A outra é “Moedas do Brasil – Desde o Reino Unido – 1818-2000“, de Eugenio Vergara Caffarelli, uma espécie de catálogo enciclopédico.

São obras que, após leitura, consideramos imprescindíveis para continuação dos nossos estudos, principalmente pela riqueza de detalhes. O bom é que ambas estão disponíveis em PDF.

Bons estudos.

Quantas moedas desde 1942?

Desde 1942, tivemos várias moedas e muitas peças foram emitidas. Quantas exatamente? Contemos.

Vamos nos limitar a alterações, sem contar as emissões por ano.

O primeiro cruzeiro (1942-65) soma 20 peças.

O cruzeiro novo/segundo cruzeiro (1967-86), 33. Já são 53.

O cruzado (1986-8) deu-nos 11 moedas. Temos 64.

O cruzado novo/terceiro cruzeiro (1989-93), 16. São 80 moedas.

O cruzeiro real (1993-4) presenteou-nos com 4 peças. São 84.

A primeira família do real (1994-7), 8 moedas. Somam-se 92.

A segunda família do real (desde 1998), incluindo todas as comemorativas, somam 137.

Esta lista inclui alterações de anverso ou reverso (principalmente na primeira série do primeiro cruzeiro) e mudanças de metal (na primeira série do segundo cruzeiro), mas não a questão dos monogramas (na primeira série do primeiro cruzeiro) ou as eras das peças.

A história das moedas de 1 centavo

O título pode parecer meio besta, mas tem alguma relevância.

Como já falamos aqui neste blogue, a divisão centesimal, chamada entre nós de centavo, fez seu début no Brasil em 1942, com a introdução do cruzeiro. Até então, a moeda era o mil-réis, dividido em mil réis. A menor moeda de mil-réis era o tostão, ou $100; a de $050 teve sua última emissão em 1931 (a emissão de 1935 teve apenas cem exemplares, certamente com intuitos numismáticos) e a de $020, em 1927 (também com um “choro” em 1935, também com cem exemplares).

Logo, a menor moeda do primeiro cruzeiro era a de 10 centavos, equivalente a $100 e que até os anos 1950 conservou o nome popular de tostão. O cruzeiro nasceu sem moeda de 1 centavo, quantia que existia apenas para conta.

A primeira moeda de 1 centavo vai aparecer apenas com o cruzeiro novo, em 1967. A “pequena notável”, além de representar a menor unidade formal da moeda, marcou, com as peças de 2 e 5 centavos, a introdução do aço inoxidável na numária brasileira.

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A primeira moeda de 1 centavo emitida no Brasil

A reforma da série em 1979 trouxe uma nova moeda de centavo, mas “para inglês ver”. Se em maio de 1967 um dólar americano valia cerca de NCr$ 2,70, a moeda norte-americana fechou dezembro de 1979 a Cr$ 42,30. O chamado “centavinho”, que ostentava um râmulo de soja foi emitido entre 1979 e 1983, com 100 mil peças anuais, exceto 1980, que contou apenas 60 mil. Trata-se de peça que, por seu valor mínimo, praticamente não circulou. Basta apenas pensar que a moeda seguinte na série era a de 1 cruzeiro.

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O “centavinho” de 1979

A introdução do cruzado, em fevereiro de 1986, trouxe nova série de moeda com a introdução de uma peça de 1 centavo, de 15 mm de diâmetro. Para se ter uma ideia, a primeira cotação do dólar em cruzados foi de Cz$ 13,84, o que conferia à moedinha o valor pouco acima de 1 milésimo de dólar.

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Em 1989, o cruzado novo entrou em paridade com o dólar. E trouxe também, na nova série de peças metálicas, sua moedinha de 1 centavo, com o boiadeiro; o câmbio do dólar chegou a NCz$ 11,30 ao final de 1989, o que mostra a depreciação da peça de 1 centavo. É sintomática a queda na cunhagem: 270,4 milhões de peças em 1989 (IR 1.829,5 pontos) e 1 milhão em 1990 (IR 6,6 pontos).

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O Brasil não veria outra moeda de 1 centavo até 1994, quando da entrada em circulação do real. A primeira versão, de aço inox, foi batida entre 1994 e 1997, e, em termos absolutos, foi a peça mais emitida da história da numária nacional, com 1,99 bilhão de peças. Individualmente, a peça de 1994, com 877,1 milhões, tem IR de 5.473 pontos, sendo, inicialmente a segunda moeda mais emitida da história da numária brasileira, perdendo apenas para a peça de 10 cruzeiros de 1991, com 947,9 milhões de exemplares, com IR de 6.198,8 pontos.

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A moeda de 1 centavo da segunda série do real, emitida entre 1998 e 2004, tem 1,2 bilhão de exemplares e marca também, com outras peças da série, a introdução do aço eletrorrevestido na numária.

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Quadro sinóptico

Peças de um centavo emitidas no Brasil

1967 – cruzeiro novo, aço
1979 – cruzeiro, aço
1986 – cruzado, aço
1989 – cruzado novo, aço
1994 – real, aço
1998 – real, aço eletrorrevestido de cobre

Uma proposta de índice de referência de raridade para peças comuns

É fato que os índices de raridade usados pelos catálogos deixam a desejar no que se refere a como tal moeda foi classificada como rara, escassa ou comum. Por conta dessa necessidade, começo a pensar em um sistema numérico, um índice de referência (IR) para termos uma noção de quão rara é uma peça. Claro que o sistema que começo a pensar é deficiente em vários pontos, mas pode ser uma luz para desenvolvimentos futuros.

A correlação básica é entre a população cliente quando da emissão da peça, ou seja, seu mercado de circulação, e a quantidade de peças emitidas. Vamos ao primeiro cálculo com exemplo.

A moeda de 50 cruzeiros de 1985 teve 180 milhões de exemplares batidos para uma população estimada, à época, de 136.836.400 pessoas, segundo estimativas do Banco Mundial. Dividindo o número de peças pelo número de habitantes, teremos 1,32 peça/habitante.

Fazendo a mesma operação com os $500 de 1930, temos 146 mil peças para uma população estimada em 35 milhões de pessoas, o que nos dá um índice de 0,004 peça/habitante. Como esses decimais são muito incômodos no trato, resolvemos adotar o critério de 1 peça/habitante = 1.000 pontos. Assim, os 50 cruzeiros de 1985 têm um IR de 1.320 pontos, enquanto os $500 de 1930, 4 pontos.

O sistema aqui proposto tem vários problemas. Apenas para ilustrar, o primeiro deles seria a falta de séries anuais de população, já que os censos são feitos a cada dez anos, e há mesmo alguns intervalos de 20 anos. Como temos o índice de crescimento entre os censos, pode-se criar uma tabela de estimativas fracionando o percentual pelos anos do intervalo afinal, buscamos um índice de referência, não uma estatística precisa.

O bom desse tipo de indexação é uma noção razoável da proporção do número das peças. A moeda de 50 cruzeiros de 1985 é indicada como C.2 no Catálogo Bentes, ou seja, muito comum. Sabemos, então, que os 1.320 pontos no nosso IR equivalem a uma moeda muito comum, a peça de $500 de 1930 têm 4 pontos, indicada no Bentes como C.1 (comum), parece não responder exatamente à qualificação de comum.

O mesmo vale para a peça de $500 de 1932, comemorativa do 4º centenário da colonização, o famoso coletinho. Não é possível que uma peça com 34.214 exemplares para uma população então de 35,75 milhões (estimada) possa ser considerada simplesmente como C.1 (comum). O índice que propomos atribui-lhe 0,9 ponto, o que indica que ela é 4,4 vezes mais rara que os $500 de 1930.

Temos algumas moedas problemáticas na nossa numária, como a série MCMI. Ela foi emitida entre 1901 e 1917 sem alteração de data. Teríamos que fazer uma média da população no período; as quantidades registradas pelos censos de 1900 e 1920 são 17.438.434 e 30.635.605 habitantes, respectivamente. Considerando a média de 24.037.019,5 habitantes no período, para a moeda de $400, com 26,5 milhões de peças emitidas, teríamos um índice de 1,10 peça/habitante. Como as emissões anuais são indistinguíveis, ficamos com um IR de 1.100 pontos.

Essa pontuação seria, inicialmente, uma espécie de índice de referência básico (IR-B); penso ainda em adicionar outras variáveis, como o fato de a moeda não ser mais circulante, o tempo que ela não circula mais, por exemplo, para maior precisão do valor.

Inicialmente, pensamos que uma moeda com índice inferior a 200 seria uma peça com algum tipo de dificuldade em ser obtida.

Os colegas e confrades fiquem livres com opiniões para aperfeiçoar esse mecanismo.