O meio circulante do real

Muita especulação e muito achismo aparecem quando se fala no meio circulante do real, segundo padrão monetário de maior duração desde 1942, contando, em dezembro de 2017, com 23 anos e cinco meses, prestes a ultrapassar o primeiro cruzeiro, esse sim, o padrão mais duradouro no pós-1942, vigente de outubro de 1942 a fevereiro de 1967, contando 24 anos e cinco meses; marca que o real alcançará em novembro de 2018.

Nesses quase 23 anos e meio de real, houve alterações substanciais no meio circulante. Em julho de 1994 foram lançadas uma série de cédulas e uma série de moedas para circulação provisória. A segunda família de moedas, que pôs fim ao reinado absoluto de quase vinte anos do aço inox, entrou em circulação em 1º de julho de 1998, quarto aniversário do padrão. A série de cédulas foi sendo substituída em três etapas, entre 2010 e 2013.

O fato de terem sido lançadas novas séries de cédulas e moedas não quer dizer que as primeiras versões não tenham mais validade.

A primeira família de cédulas, lançada em 1994, contava com as peças de 1, 5, 10, 50 e 100 reais. A cédula de 2 reais foi introduzida em 13 de dezembro de 2001, e a de 20, em 27 de julho de 2002. A numária brasileira não via cédulas com múltiplo de 2 desde o lançamento da cédulas de 200 cruzados novos, que comemorava os cem anos da Proclamação da República, em 1989.

A primeira família de moedas foi lançada também em julho 1994 e contava inicialmente com as peças de 1, 5, 10, 50 centavos e 1 real. A moeda de 25 centavos, provavelmente um protótipo para uma possível segunda família, foi lançado em setembro daquele ano.

Vamos então a alguns mitos e boatos que há a respeito da numária do real.

A moeda de centavo não vale mais.

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Falso. Embora sua produção tenha sido descontinuada a partir de 2005, a moeda segue tendo curso legal, ou seja tem valor e tem de ser aceita como meio de pagamento (até o limite de cem vezes seu valor de face). E isso vale tanto para as moedas de aço da primeira família como para as de aço eletrorrevestido de cobre da segunda.

As moedas de aço não valem mais.

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Parcialmente falso. Todas as moedas emitidas a partir de 1994 têm valor legal, exceto a de 1 real da primeira família, que foi demonetizada em 23 de dezembro de 2003; é a única sem valor. As outras continuam tendo poder de compra.

As moedas verdadeiras são atraídas pelo ímã.

Parcialmente falso. Entre 1998 e 2001, foram emitidas moedas de 50 centavos e 1 real, de cuproníquel e de anel de alpaca e miolo de cuproníquel, respectivamente. Esses metais são amagnéticos, ou seja, não são atraídos pelo ímã. Em 2002, por conta dos custos de produção, o Banco Central trocou por aço os metais das moedas citadas.

 Qualquer moeda fora dessas datas (1998-2001) e não magnéticas, sim, são falsas.

A cédula de 1 real não vale mais.

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Falso. A produção da cédula de 1 real foi descontinuada em 2005 — fato por que não há cédula de 1 real na segunda família —, mas as que ainda estiverem em mãos dos usuários podem ser usadas e devem ser aceitas, pois têm valor legal.

A cédula de 10 reais de plástico é falsa/não vale mais.

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Em 2000, o Banco Central emitiu uma cédula de polímero que comemorava os 500 do descobrimento do Brasil, bem diferente da série então vigente. Tratou-se de um teste de material para a segunda família, mas que não vingou. Embora praticamente não sejam mais vistas em circulação, continuam tendo valor legal e devem ser aceitas por comércio e setor bancário.

Meu primo/vizinho/amigo me disse que as moedas das olimpíadas valem R$ 50 cada.

Falso. Das moedas comemorativas do real, podem chegar a ter valor considerável a de 1 real dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1998), com 600 mil exemplares, e o chamado real da Bandeira Olímpica (2012), com 1 milhão de exemplares. As de 10 e 25 centavos da FAO, de 1995, também podem chegar a valer algo. Todas as outras, incluindo as das modalidades olímpicas (2015-2016), do Juscelino Kubitschek (2002), dos 40 anos do BC (2005) e dos 50 anos do BC (2015) foram emitidas todas em quantidades superiores a 10 milhões, o que não faz delas raridades.

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O porquê de nosso sumiço

Não, meus caros. Ainda não foi desta vez que este blogue acabou. Na verdade, demos uma pausa na postagem por alguns motivos de trabalho e também de estudo numismático.

Aliás, trazemos a vocês, se já não as conhecem, duas obras que consideramos muito importantes e que responderam a várias indagações nossas. A primeira é “Dinheiro no Brasil“, de Florisvaldo dos Santos Trigueiros, que traz informações e dados muito úteis acerca principalmente das cédulas brasileiras até 1987.

A outra é “Moedas do Brasil – Desde o Reino Unido – 1818-2000“, de Eugenio Vergara Caffarelli, uma espécie de catálogo enciclopédico.

São obras que, após leitura, consideramos imprescindíveis para continuação dos nossos estudos, principalmente pela riqueza de detalhes. O bom é que ambas estão disponíveis em PDF.

Bons estudos.

Quantas moedas desde 1942?

Desde 1942, tivemos várias moedas e muitas peças foram emitidas. Quantas exatamente? Contemos.

Vamos nos limitar a alterações, sem contar as emissões por ano.

O primeiro cruzeiro (1942-65) soma 20 peças.

O cruzeiro novo/segundo cruzeiro (1967-86), 33. Já são 53.

O cruzado (1986-8) deu-nos 11 moedas. Temos 64.

O cruzado novo/terceiro cruzeiro (1989-93), 16. São 80 moedas.

O cruzeiro real (1993-4) presenteou-nos com 4 peças. São 84.

A primeira família do real (1994-7), 8 moedas. Somam-se 92.

A segunda família do real (desde 1998), incluindo todas as comemorativas, somam 137.

Esta lista inclui alterações de anverso ou reverso (principalmente na primeira série do primeiro cruzeiro) e mudanças de metal (na primeira série do segundo cruzeiro), mas não a questão dos monogramas (na primeira série do primeiro cruzeiro) ou as eras das peças.

A história das moedas de 1 centavo

O título pode parecer meio besta, mas tem alguma relevância.

Como já falamos aqui neste blogue, a divisão centesimal, chamada entre nós de centavo, fez seu début no Brasil em 1942, com a introdução do cruzeiro. Até então, a moeda era o mil-réis, dividido em mil réis. A menor moeda de mil-réis era o tostão, ou $100; a de $050 teve sua última emissão em 1931 (a emissão de 1935 teve apenas cem exemplares, certamente com intuitos numismáticos) e a de $020, em 1927 (também com um “choro” em 1935, também com cem exemplares).

Logo, a menor moeda do primeiro cruzeiro era a de 10 centavos, equivalente a $100 e que até os anos 1950 conservou o nome popular de tostão. O cruzeiro nasceu sem moeda de 1 centavo, quantia que existia apenas para conta.

A primeira moeda de 1 centavo vai aparecer apenas com o cruzeiro novo, em 1967. A “pequena notável”, além de representar a menor unidade formal da moeda, marcou, com as peças de 2 e 5 centavos, a introdução do aço inoxidável na numária brasileira.

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A primeira moeda de 1 centavo emitida no Brasil

A reforma da série em 1979 trouxe uma nova moeda de centavo, mas “para inglês ver”. Se em maio de 1967 um dólar americano valia cerca de NCr$ 2,70, a moeda norte-americana fechou dezembro de 1979 a Cr$ 42,30. O chamado “centavinho”, que ostentava um râmulo de soja foi emitido entre 1979 e 1983, com 100 mil peças anuais, exceto 1980, que contou apenas 60 mil. Trata-se de peça que, por seu valor mínimo, praticamente não circulou. Basta apenas pensar que a moeda seguinte na série era a de 1 cruzeiro.

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O “centavinho” de 1979

A introdução do cruzado, em fevereiro de 1986, trouxe nova série de moeda com a introdução de uma peça de 1 centavo, de 15 mm de diâmetro. Para se ter uma ideia, a primeira cotação do dólar em cruzados foi de Cz$ 13,84, o que conferia à moedinha o valor pouco acima de 1 milésimo de dólar.

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Em 1989, o cruzado novo entrou em paridade com o dólar. E trouxe também, na nova série de peças metálicas, sua moedinha de 1 centavo, com o boiadeiro; o câmbio do dólar chegou a NCz$ 11,30 ao final de 1989, o que mostra a depreciação da peça de 1 centavo. É sintomática a queda na cunhagem: 270,4 milhões de peças em 1989 (IR 1.829,5 pontos) e 1 milhão em 1990 (IR 6,6 pontos).

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O Brasil não veria outra moeda de 1 centavo até 1994, quando da entrada em circulação do real. A primeira versão, de aço inox, foi batida entre 1994 e 1997, e, em termos absolutos, foi a peça mais emitida da história da numária nacional, com 1,99 bilhão de peças. Individualmente, a peça de 1994, com 877,1 milhões, tem IR de 5.473 pontos, sendo, inicialmente a segunda moeda mais emitida da história da numária brasileira, perdendo apenas para a peça de 10 cruzeiros de 1991, com 947,9 milhões de exemplares, com IR de 6.198,8 pontos.

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A moeda de 1 centavo da segunda série do real, emitida entre 1998 e 2004, tem 1,2 bilhão de exemplares e marca também, com outras peças da série, a introdução do aço eletrorrevestido na numária.

1 centavo

Quadro sinóptico

Peças de um centavo emitidas no Brasil

1967 – cruzeiro novo, aço
1979 – cruzeiro, aço
1986 – cruzado, aço
1989 – cruzado novo, aço
1994 – real, aço
1998 – real, aço eletrorrevestido de cobre

Uma proposta de índice de referência de raridade para peças comuns

É fato que os índices de raridade usados pelos catálogos deixam a desejar no que se refere a como tal moeda foi classificada como rara, escassa ou comum. Por conta dessa necessidade, começo a pensar em um sistema numérico, um índice de referência (IR) para termos uma noção de quão rara é uma peça. Claro que o sistema que começo a pensar é deficiente em vários pontos, mas pode ser uma luz para desenvolvimentos futuros.

A correlação básica é entre a população cliente quando da emissão da peça, ou seja, seu mercado de circulação, e a quantidade de peças emitidas. Vamos ao primeiro cálculo com exemplo.

A moeda de 50 cruzeiros de 1985 teve 180 milhões de exemplares batidos para uma população estimada, à época, de 136.836.400 pessoas, segundo estimativas do Banco Mundial. Dividindo o número de peças pelo número de habitantes, teremos 1,32 peça/habitante.

Fazendo a mesma operação com os $500 de 1930, temos 146 mil peças para uma população estimada em 35 milhões de pessoas, o que nos dá um índice de 0,004 peça/habitante. Como esses decimais são muito incômodos no trato, resolvemos adotar o critério de 1 peça/habitante = 1.000 pontos. Assim, os 50 cruzeiros de 1985 têm um IR de 1.320 pontos, enquanto os $500 de 1930, 4 pontos.

O sistema aqui proposto tem vários problemas. Apenas para ilustrar, o primeiro deles seria a falta de séries anuais de população, já que os censos são feitos a cada dez anos, e há mesmo alguns intervalos de 20 anos. Como temos o índice de crescimento entre os censos, pode-se criar uma tabela de estimativas fracionando o percentual pelos anos do intervalo afinal, buscamos um índice de referência, não uma estatística precisa.

O bom desse tipo de indexação é uma noção razoável da proporção do número das peças. A moeda de 50 cruzeiros de 1985 é indicada como C.2 no Catálogo Bentes, ou seja, muito comum. Sabemos, então, que os 1.320 pontos no nosso IR equivalem a uma moeda muito comum, a peça de $500 de 1930 têm 4 pontos, indicada no Bentes como C.1 (comum), parece não responder exatamente à qualificação de comum.

O mesmo vale para a peça de $500 de 1932, comemorativa do 4º centenário da colonização, o famoso coletinho. Não é possível que uma peça com 34.214 exemplares para uma população então de 35,75 milhões (estimada) possa ser considerada simplesmente como C.1 (comum). O índice que propomos atribui-lhe 0,9 ponto, o que indica que ela é 4,4 vezes mais rara que os $500 de 1930.

Temos algumas moedas problemáticas na nossa numária, como a série MCMI. Ela foi emitida entre 1901 e 1917 sem alteração de data. Teríamos que fazer uma média da população no período; as quantidades registradas pelos censos de 1900 e 1920 são 17.438.434 e 30.635.605 habitantes, respectivamente. Considerando a média de 24.037.019,5 habitantes no período, para a moeda de $400, com 26,5 milhões de peças emitidas, teríamos um índice de 1,10 peça/habitante. Como as emissões anuais são indistinguíveis, ficamos com um IR de 1.100 pontos.

Essa pontuação seria, inicialmente, uma espécie de índice de referência básico (IR-B); penso ainda em adicionar outras variáveis, como o fato de a moeda não ser mais circulante, o tempo que ela não circula mais, por exemplo, para maior precisão do valor.

Inicialmente, pensamos que uma moeda com índice inferior a 200 seria uma peça com algum tipo de dificuldade em ser obtida.

Os colegas e confrades fiquem livres com opiniões para aperfeiçoar esse mecanismo.