Clipping: ‘E se vier o peso federal? Vantagens e desvantagens da troca da moeda na Argentina’

O país mudou de moeda em várias oportunidades, deixando quantidades significativas de zeros pelo caminho: um total de 13

Por Nicolás Litvinoff

Original.

Terça-feira, 5 de fevereiro de 2013, 3h09

Há pouco mais de uma semana, o ex-vice-presidente, Julio Cobos, afirmou em uma entrevista de rádio que o governo estaria preparando a emissão de uma nova moeda, o peso federal, que substituiria o atual (e vilipendiado) peso conversível (que de conversível já não tem mais nada).

O que exatamente disse Julio Cobos?

Tudo começou com as declarações à Rádio El mundo, em 25 de janeiro último: “Até me chegou um comentário de que estão estudando a mudança da moeda, o peso federal ou algo parecido”.

No dia seguinte, vieram declarações mais detalhadas: “É uma das várias soluções para a inflação que chegaram ao Governo para terminar com essa espiral”. Contou que a informação lhe havia sido passada uns quinze dias antes em Buenos Aires. Disse ainda: “é uma versão mais, não lhe dei tanta importância; mas acredito que não é possível suportar mais esta situação inflacionária, e, por tal, o Governo deve tomar alguma medida. Seria algo parecido com o que ocorreu com o austral. A saída é estabelecer uma moeda que não se desvalorize, uma moeda forte”. E disse na sequência: “Entendo que buscam uma maneira de sair do enrosco, uma desvalorização programada, e voltar a valorizar a moeda”. Dois dias depois, em declaração a La Voz del Interior, disse: “o que me chegou de fontes relativamente confiáveis é que estaria entre as medidas para sair do atraso e da prisão cambiária. Estavam pensando em uma reforma da moeda, do peso. Até com nome, me disseram: ‘peso federal’”.

Ainda que Julio Cobos não faça mais parte do Governo, a maior parte da equipe que exerce o poder executivo continua a mesma. Ter sido o número dois dessa equipe seguramente garante um conhecimento que poucos mortais têm sobre o fincionamento “portas adentro” do atual governo. Como todo ex-funcionário, provavelmente o ex-vice-presidente mantém algum tipo de contato com funcionários (ou com subordinados ou assessores destes).

Tudo o dito anteriormente não garante a veracidade do rumor, mas serve para chamar a atenção para não descartá-lo imediatamente sem uma análise mais detalhada.

Breve história das mudanças de moeda na Argentina

A história das moedas argentinas

Os Estados Unidos adotaram o dólar como moeda oficial em 1792 (há 221 anos).

Os mais jovens poderiam pensar que aconteceu algo similar com o peso na Argentina. Mas quem tem já uns anos a mais sabe que o país mudou de moeda em várias oportunidades, deixando quantidades significativas de zeros no caminho: um total de 13.

Mas a essas modificações é preciso juntar uma tentativa fracassada: no final de 2001, David Expósito, economista e jornalista, chegou à presidência do Banco Nación após apresentar ao presidente Rodríguez Saá um plano para emitir uma terceira moeda: o argentino.

Essa nova moeda flutuaria em relação ao peso e ao dólar. O novo sistema monetário, com três moedas em circulação, teria sido similar àqueles que praticam países como Cuba e China.

A ideia, porém, fracassou, e Expósito deixou de ser presidente do Banco Nación apenas 48 horas depois de tê-lo assumido, logo depois de dar declarações à imprensa na que dava a entender que a nova moeda já nasceria desvalorizada.

Razões e potenciais do novo peso federal

O que diferencia uma moeda das demais mercadorias de uma economia?

Uma moeda tem certas funções e propriedades que nenhum outro bem pode ter:

Unidade de conta. É a função inicial, da qual derivam as outras, que permite representar as distintas mercadorias por um só elemento.

Meio de pagamento. É a função diferenciadora da moeda, que permite que as obrigações entre duas partes sejam canceladas de forma exata, sem que fique dívida alguma. Dado que os saldos entre operações de débito/crédito não são sempre de soma zero, a moeda permite eliminar esses saldos.

Meio de troca. Serve como intermediário para evitar os intercâmbios diretos de mercadorias por outras mercadorias.

Reserva de valor. Permite manter o poder de compra ao largo do tempo.

Dessas quatro atribuições, a última mencionada (reserva de valor) é uma das mais importantes e é, justamente, a disciplina pendente que o peso conversível tem na atualidade: a sensação de que os pesos derretem-se na mão de que os cobra é fruto do aumento de preços na ordem de 25% ao ano que estamos suportando há vários anos e que cria a necessidade de gastar as cédulas antes que percam poder aquisitivo.

Quais são as vantagens que o Governo poderia atribuir ao nascimento de uma nova moeda? Arriscando um pouco, poderíamos assinalar cinco:

1) Seria um reconhecimento implícito, por parte do Governo, de que a inflação é um problema real e que procurará combatê-lo. Essa medida poderia vir acompanhada de um controle de preços mais forte, baseado nos valores que surjam a partir da troca de pesos conversíveis por pesos federais (1 a 10 seria, talvez, uma boa medida, com a qual 100 pesos “de agora” passariam a ser 10 pesos “novos”).

2) Poderia solucionar o problema do transporte físico. Atualmente, para quem prefere pagar com dinheiro em vez de fazê-lo com cartão, a quantidade de cédulas que tem de levar para fazer a compra mensal no supermercado já é incômodo… sem falar quando se trata do comprador de um automóvel ou de um imóvel (será preciso ir com um caminhão de mudança).

3) Poderia resolver a questão da deterioração e das más condições das atuais cédulas de 2, 5, 10 e, principalmente, 50 pesos, que de tanto trocar de mãos encontram-se muito deteriorados.

4) Permitiria deixar de uma vez por todas a convertibilidade e faria com que a desvalorização de mercado que se está levando a cabo não pareça tão “sangrenta”, já que o dólar oficial passaria a valer (levando em conta o ponto 1) 50 centavos de peso deral, enquanto o blue valeria 80 centavos. Dessa maneira, o objetivo do paralelo talvez fosse chegar a 1 peso federal (10 pesos atuais) em algum momento posterior à mudança da moeda.

5) Poderia restaurar a confiança na moeda local, tão vilipendiada após anos sofrendo inflação de dois dígitos, ainda que seja de maneira momentânea.

Conclusão

Supondo que o novo peso federal perdesse um zero com relação ao peso atual, o câmbio ficar por volta de 0,80 peso federal/dólar. Notável coincidência com a marca de câmbio inicial do Plano Austral.

Segundo os últimos dados oficiais, as reservas do Banco Central são de US$ 42, 83 bilhões. Com a marca de câmbio mencionada, teríamos um meio circulante de aproximadamente 53 bilhões de pesos federais, que ficaria inicialmente lastreado pelas reservas. Se esse respaldo com reservar manter-se no tempo, a demanda de dólares como reserva de valor poderia diminuir substancialmente.

Mas para que uma medida dessas tenha êxito, há dois fatores que deveriam estar presentes: a abertura da prisão cambiária (não pode haver confiança na nova moeda se as restrições continuam) e, na sequência, um pacote de medidas anti-inflacionárias concretas.

A mudança de moeda seria um plano de choque anti-inflacionário, que poderia servir para mudar as expectativas, atualmente negativas, do peso.

Sem dúvida, é importante destacar que se trataria de um “câmbio artificial”, que tem um efeito mais psicológico que econômico.

Esse efeito de curto prazo deveria ser aproveitado para implantar políticas de longo prazo para que tenha alguma chance de êxito e para que não caia nos velhos erros do passado recente.

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