O peso e o tamanho da cruz

Em 16 de janeiro de 1989, o velho cruzado saiu de cena, sendo substituído pelo cruzado novo na razão de 1:1.000, ou mais um “corte de três zeros”. A reforma foi um dos itens dentro do chamado Plano Verão, implantado pelo então ministro da Fazenda do governo Sarney, Maílson da Nóbrega.

A Resolução do Conselho Monetário Nacional nº 1.565, de 16/1/1989, além de oficializar a reconversão monetária, dispõe sobre o novo meio circulante a entrar em circulação a partir de 30/4/1989. Originalmente, havia a previsão de quatro peças: 1, 5, 10 e 50 centavos, “com temática centrada em tipos e aspectos do Brasil” (CNM, 1989). Moedas, aliás, esteticamente muito interessantes.

Da esq. para a dir.: reverso e anverso da peça de 1 centavo; anversos das peças de 5, 10 e 50 centavos.

Com a posse de Fernando Collor de Mello como presidente da República, em 15 de março de 1990, assumiu o Ministério da Fazenda Zélia Cardoso de Mello, que, no dia seguinte, pôs em vigência o Plano Brasil Novo, popularmente conhecido como Plano Collor. Além das várias medidas macroeconômicas para contenção da inflação, uma de ordem cosmética: pela Resolução CNM nº 1.689, de 18 de março de 1990 (retroativa a 16/3, data estabelecida pela Medida Provisória nº 168, de 15/3/1990), a moeda voltava a chamar-se cruzeiro. Não houve reconversão. Simplesmente 1 cruzado novo passou a ser 1 cruzeiro, a terceira vida da moeda.

A mudança, não obstante ser cosmética, acarretou em mudanças nas cédulas. As notas de 100, 200 e 500 cruzados novos traziam a expressão cruzados novos, que foi alterada para “cruzeiros”. A de 50 cruzados novos nem chegou a ser retocada, embora o art. 4º da Resolução CMN nº 1.689 o previsse inicialmente, ficando apenas com o carimbo retangular previsto pelo mesmo dispositivo legal (CNM, 1990). Um dos imperativos, provavelmente é o fato de, em 13/3/1990, o dólar ter chegado à cota de NCz$ 38,197, além de a mesma resolução, em seus arts. 6º 7º e 8º, prever já o lançamento da moeda de 50 cruzeiros para depois o final de 1990, o que acabou ocorrendo em dezembro (BACEN, 1990).

Como já dito, as quatro moedas divisionárias do cruzado novo foram previstas pela Resolução CNM nº 1.565, mas ficou faltando a peça auxiliar de 1 cruzado novo. Emitiu-se, em 8 de novembro de 1989, uma moeda desse valor que comemorava o centenário da República, mas não uma peça comum.

Porém, com o novo governo, o novo plano e a nova unidade monetária, apareceu a peça equivalente, a de 1 cruzeiro, na Resolução CNM nº 1.689.

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Peça de 1 cruzeiro emitida em 1990.

Se os projetos gráficos das peças de cruzado novo foram apresentadas ao CNM no fim de novembro de 1988 (CNM, 1989), porque não havia a ideia de uma moeda auxiliar? No fim desse mês, um dólar americano valia Cz$ 585 (que seriam, logo mais NCz$ 0,585); quando do corte de zeros, em 16/1/1989, o dólar valia exatamente NCz$ 1 (ou Cz$ 1.000), valor que o governo conseguiu manter congelado até meados de abril; quando da simples passagem de cruzado novo para cruzeiro, o dólar valia Cr$ 38.

Em resumo, a vida do cruzado novo foi curta, um ano e dois meses. Porém, lembremo-nos que o Plano Collor foi algo meio abrupto, incluindo mesmo o confisco de aplicações bancárias.

Nossos catálogos trazem uma moeda muito rara; os colecionadores batizaram-na de “Cruz de Cristo”. Trata-se de uma moeda de 1 cruzado novo, com era 1990, aparentemente pensada para circulação comum; o Catálogo Bentes 2014 indica a existência comprovada de 15 exemplares (MALDONADO, 2014). Há quem diga que, com a troca de padrão monetário, as moedas já batidas teriam sido enviadas à Acesita para refundição.

A polêmica “Cruz de Cristo”.

O reverso da “Cruz de Cristo” é praticamente igual ao das peças divisionárias, ao contrário do da moeda de 1 cruzeiro que acabou saindo no lugar. No anverso, um mapa do Brasil atravessado por uma cruz estilizada que lembra muito a da Ordem de Cristo, daí o nome que lhe atribuíram.

Porém, um detalhe no Catálogo Bentes chama muito a atenção. Na Portaria CMN nº 1.689, a peça de 1 cruzeiro é descrita como tendo 20,5 mm de diâmetro; a massa, no site do Bacen, é de 3,61 g. É de se imaginar que a “Cruz de Cristo” tivesse as mesmas dimensões; o Bentes 2014, porém, indica-nos essa moeda como tendo 19,5 mm de diâmetro e massa de 2,83 g, o que coincide, no próprio catálogo e na listagem on-line do Bacen, com a moeda de 50 centavos de cruzado novo.

A “Cruz de Cristo” teria o mesmo tamanho da moeda de 50 centavos? Acredito ser muito improvável. Já que o Catálogo Amato não nos traz as dimensões e o Krause não registra a peça em questão, onde poderíamos conseguir alguma informação?

Já que a moeda foi batida, é possível que seu projeto tenha sido apreciado pelo CNM entre 1989 e o começo de 1990; é pena essas atas não estarem disponíveis na internet.

Eis uma polêmica muito similar ao caso da Bromélia.

Referências

BACEN – Banco Central. Comunicado nº 2.249, de 11/12/1990. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/normativo.asp?numero=2249&tipo=Comunicado&data=11/12/1990>. Acesso em 21 fev. 2017.

CNM – Conselho Monetário Nacional. Resolução nº 1.565, de 16 de janeiro de 1989. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/42039/Res_1565_v2_L.pdf>. Acesso em: 21 fev. 2017.

______. Resolução nº 1.689, de 18 de março de 1990. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/downloadNormativo.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/44905/Res_1689_v1_O.pdf>. Acesso em 27 fev. 2017.

MALDONADO, R. Moedas Brasileiras – Catálogo Oficial. 2. ed. revista e atualizada. Itália: MBA Editores, 2014. p. 970.

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Estojo vicentino

O estojo vicentino é fonte de muitas discussões. Trazemos hoje artigo de Emerson Pippi, associado da Associação Numismática Paranaense, que gentilmente nos autorizou a reprodução do texto.


O reconhecimento dos estojos vicentinos

O estojo vicentino é uma peça numismática cercada de dúvidas e suposições. Colecionadores e comerciantes não são unânimes quando questionados a respeito desse porta-joias do Estado Novo. Oitenta e quatro anos após seu lançamento, reunimos documentos e depoimentos que buscam provar sua autenticidade, oficialidade e quantidade.

Em virtude das comemorações ao quarto centenário da colonização do Brasil, a Casa da Moeda cunhou, em 1932, o conjunto de seis moedas, que viria a ser a famosa Série Vicentina, sendo estas as primeiras lançadas na era Vargas. Algumas séries foram acomodadas em belo estojo de madeira, com a imagem da Casa da Moeda estampada em sua tampa.

Periodicamente essa peça aparece em anúncios ou fóruns numismáticos. As perguntas, que invariavelmente acompanham essas citações, são respondidas com especulações. Não há certeza absoluta nas informações sobre a peça.

Uma publicação no Diário Oficial da União, no dia 13 de outubro de 1932, página 9, prova que o estojo é oficial da Casa da Moeda do Brasil.

O expediente do Ministério da Fazenda, em requerimento despachado pelo Diretor Geral do Tesouro Nacional ao Diretor da Casa da Moeda, diz:

Comunicando que o Sr. Ministro resolveu permitir que sejam vendidas diretamente pela Casa da Moeda as pequenas caixas de madeira contendo uma série completa das moedas divisionárias comemorativas do 4º centenário do inicio da Colonização do Brasil, devendo a mesma repartição incluir o produto da venda das moedas no total dos suprimentos que forem feitos à Tesouraria geral do Tesouro Nacional.

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Essa publicação descreve pequena caixa de madeira, ou seja, não são caixas comuns usadas para transporte das moedas. Também menciona que contém uma série completa das moedas, não deixando dúvidas que acomodam uma unidade de cada tipo de moeda da série.

No início pensamos que os estojos foram oferecidos para autoridades da época, mas o Diário Oficial informa que foram colocados à venda, talvez sendo uma sobra daqueles distribuídos inicialmente. Logicamente não é possível saber se foram realmente disponibilizados ao público ou reservados para colecionadores e amigos, mas é clara a designação que o dinheiro resultante da comercialização integraria o caixa do Tesouro Nacional.

Esse documento corrobora a tese que o Estojo Vicentino é oficial da CMB, e de conhecimento inclusive do Ministro da Fazenda, o ilustre Sr. Osvaldo Aranha.

O texto foi também reproduzido em jornais da época, como o Diário de Pernambuco:

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Há duas versões das caixas que são reconhecidas como originais. Isso aconteceu porque dois fornecedores diferentes confeccionaram os estojos para a CMB. Os dois tipos são bem parecidos, em formato arredondado.

Um dos modelos tem 13,8 cm de diâmetro e 2,3 cm de altura. Feito em madeira avermelhada de jacarandá, a tampa possui um sistema de fechamento em rosca com ¼ de volta. No centro da tampa, há uma belíssima gravação redonda com 5 cm de diâmetro, com a inscrição “Casa da Moeda Brasil” e uma imagem da fachada principal do antigo prédio dessa instituição no Rio de Janeiro.

Dento do estojo, há seis nichos para o encaixe das moedas da série. O tamanho dos entalhes é perfeito e ainda há uma pequena cavidade para facilitar a retirada de cada moeda. A disposição delas é circular, com a de 400 réis colocada no centro. Curiosamente, parece que falta uma peça para fechar o círculo. Temos a impressão que foi deixado espaço para mais uma moeda, ou talvez uma medalha.

A segunda versão é similar, mas foi feita em madeira mais escura, com acabamento melhorado nas bordas e ao redor dos nichos. Nesse modelo as moedas estão dispostas em círculo fechado, mantendo a de 400 réis no centro. Aqui não há cavidade para auxiliar o manuseio das moedas.

Depoimentos foram colhidos a respeito do estojo, e isso reforça a importância de sua autenticação. Figuras importantes da numismática brasileira tem opiniões conflitantes.

O numismata Antônio Tomaz, sócio-fundador da Sociedade Numismática Paranaense, levanta dúvida em relação à produção ter sido feita a mando da Casa da Moeda: “Após a série vicentina, só houve lançamento de moeda em estojo no ano de 1972, e mesmo assim não era de madeira”, diz. Segundo Tomaz, há possibilidade da caixa ter sido feito paralelamente, sendo uma falsa da época, no intuito de acomodar as recém-lançadas moedas comemorativas.

Assim como estão fazendo hoje vários álbuns para as moedas olímpicas. Esses álbuns também ficarão antigos daqui a 80 anos e poderão ser avaliados como originais.

Ex-presidente da SNP, Denis Renaux discorda. Ele afirma que o estojo é oficial da CMB e ainda discorre sobre a técnica de gravação no jacarandá.

A imagem da tampa não é entalhada. Eles esquentavam a madeira e faziam a cunhagem. Era um método impressionante para a época.

Após a confirmação da oficialidade, temos outra importante questão: Quantos estojos foram feitos? Sabemos que a quantidade é somente um dos fatores que compõem o valor de uma moeda ou conjunto. O estado de conservação, a lei de oferta e procura e a história por trás do objeto também formam a avaliação. Ainda assim, a quantidade é elemento primordial para sabermos o grau de raridade e escassez de uma peça numismática. Sem essa informação voltaremos ao nível das especulações.

Chegamos então ao Catálogo das Moedas Brasileiras de Kurt Prober. Na página 170 da terceira edição, de 1981, o alemão menciona: “Quer me parecer que 214 era a quantidade de estojos oficiais feitos na C. da Moeda para êstes jogos”.

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A publicação e citação do estojo por Prober valida a sua autenticidade, além de confirmar a quantidade produzida. O alemão é um dos pais da numismática brasileira e jamais publicaria algo sem ter fonte e embasamento.  Conversamos com Cláudio Amato, co-autor do “Livro das Moedas do Brasil” e ele é da mesma opinião: “Se Kurt Prober tivesse alguma dúvida quanto a uma informação preferiria não escrever do que passar a informação errada”. Amato também disse que conhece o estojo, mas não tem nenhuma maior informação sobre ele e um artigo elucidatório seria de boa importância.

O próximo passo quem deve dar são os autores dos catálogos brasileiros. Pediremos que publiquem em seus livros esse belíssimo exemplar da nossa história numismática. As moedas comemorativas, circulantes ou não, tem diferença de cotação quando acomodadas em seus estojos originais. A inclusão e descrição evitaria a falsificação e solucionaria as dúvidas que cercam a caixa vicentina, além de dar-lhe o devido valor.


Bibliografia

Catálogo das Moedas Brasileiras, Kurt Prober, 3ª edição, 1981

http://www.forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=54&t=98954&start=20

http://www.moedasdobrasil.com.br/ – Eduardo Rezende

Diário Oficial da União, edição de 13/10/1392, página 9.

Diário de Pernambuco, edição de 21/10/1932.

Clipping: ‘Bélgica desafia França com emissão de moeda para celebrar a batalha de Waterloo’

Do Guardian, junho de 2015.

A Bélgica começa a cunhar moedas de 2,50 euros para marcar o 200º aniversário da derrota de Napoleão em Waterloo após a França ter forçado a nação vizinha a descartar uma moeda de 2 euros com o mesmo propósito.

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Paris fez objeções à nova moeda belga, que recorda a derrota do imperador francês por forças britânicas e prussianas, no começo do ano, dizendo que ela criaria tensões em um momento em que a unidade europeia está sob ameaça.

A Bélgica foi obrigada a livrar-se de cerca de 180 mil moedas de 2 euros que já haviam sido cunhadas depois de as autoridades francesas enviarem uma carta dizendo que as peças poderiam provocar “reação negativa na França”.

Mas a Bélgica conseguiu driblar os protestos franceses valendo-se de uma regra que permite aos países da Eurozona emitir moedas unilateralmente, desde que em denominações irregulares.

Napoleão Bonaparte foi desterrado após suas ambições europeias terem sido esmagadas pelos exércitos do duque de Wellington e de Gebhard Von Blücher na batalha de Waterloo, que teve lugar no que hoje são os arredores de Bruxelas.

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Reverso da peça

A França informa, em sua carta inicial à Bélgica, que a batalha, ocorrida de 18 de julho de 1815, “teve repercussão única na consciência coletiva que vai além de um simples conflito militar”.

O ministro de Finanças belga, Johan Van Overtveldt, disse que a nova moeda — de que serão batidos 70 mil exemplares — não está sendo lançada propositalmente para irritar a França.

“O interesse não é reviver velhas rixas. Em uma Europa moderna, há coisas mais importantes a serem arrumadas”, disse Van Overtveldt na última segunda. “Mas não houve batalha na história recente tão importante como Waterloo, ou alguém que registre as impressões da mesma maneira.”

As moedas de 2,50 euros terão curso legal na Bélgica, mas espera-se que os colecionadores retenham boa parte delas. Vendidas em bolsas plásticas especiais a €6, elas mostram o monumento da Colina do Leão, que fica no campo de batalha, e também as linhas que indicam a posição das tropas.

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Cartão em que foi vendida a moeda

Uma moeda de prata — com valor facial de 10 euros, mas vendida a €40 —também será lançada.

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Valor facial: 2,50 euros
País: Bélgica
Diâmetro: 27,75 mm
Peso: 11 g
Liga: bronze
Emissão: 70 mil

Fonte: 24carat.

N. do T.: o texto deixa claro que 180 mil moedas de 2 euros foram cunhadas. Terá algum exemplar escapado ao damnatio memoriae?

A moeda de 1 real dos Direitos Humanos

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É difícil dedicar-se à pesquisa numismática pela internet. Grande parte das consultas e das comunidades dedicadas ao tema nas redes sociais é dominada por vendedores; existe um financismo excessivo no meio, o que não deixa de ser irônico para quem dedica a vida a colecionar e estudar a numária.

Nosso enfoque neste blogue não é o mercado numismático, mas a pesquisa de peças. Porém, é impossível fazer vista grossa a uma questão recente.

Os valores inflacionados de peças comum têm chamado a atenção. No centro da polêmica mais recente, o famoso real de 1998 que celebra os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ou, para sermos mais breves, o real Direitos Humanos (DH).

Com emissão de 600 mil exemplares, mas encontrá-la a preços decentes tem sido uma via-crúcis para o colecionador. Valor de catálogo em 2014 era de R$ 10 em condição FDC, porém, a peça não é achada por menos de R$ 50, chegando até mesmo a estratosféricos R$ 200. Consideremos que o catálogo, por defasagem ou cálculo errôneo, esteja desatualizado. Mesmo assim, as cifras vão acima de muitas moedas coloniais consideradas raras, com tiragem bem menor.

Não há por que desses valores. A moeda é categorizada pelo Bentes como C.1 (comum), ou seja, o segundo menor grau de raridade segundo aquele catálogo; o mais baixo é CC (muito comum). O que pretende com esses valores? Não faço a menor ideia. Mas recomendo aos colecionadores que segurem sua sanha de adquiri-la agora; é só esperar a bolha estourar.

Clipping: A moeda de Sacajawea e as alterações nas cédulas de dólar

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O chamado dólar Sacajawea ou Dólar Dourado

Por que o dólar Sacajawea foi um fracasso monumental – e por que a nota de 20 dólares será mais bem-sucedida

Danielle Wiener-Bronner

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Foto: Associated Press

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou na última semana que Harriet Tubman substituirá Andrew Jackson no anverso da nota de 20 dólares. As notas de cinco e dez dólares também terão mudanças: a face de Lincoln permanecerá no anverso dos cinco dólares, mas o reverso retratará Martin Luther King Jr., Eleanor Roosevelt e Marian Anderson. Hamilton continuará no anverso da nota de dez dólares, mas o reverso da cédula mostrará membros notáveis do movimento pelo sufrágio feminino: Sojourner Truth, Susan B. Anthony, Lucretia Mott, Elizabeth Cady Stanton e Alice Paul.

Esta não é a primeira vez que mulheres aparecem no dinheiro americano — tecnicamente é a quinta (e sexta e sétima). Martha Washington esteve na cédula de um dólar em 1886 e Pocahontas, na de 20, de 1865 a 1869. Muito mais tarde, o rosto de Susan B. Anthony esteve presente na moeda de um dólar de 1979 a 1981, que saiu de circulação em 1999. Sacajawea a substituiu no começo deste século.

Susan B. Anthony fará bis no dinheiro. Martha Washington é nossa “mãe fundadora”, e Pocahontas, para bem e para mal, foi lembrada pela Disney.

Sacajawea, por outro lado, parece ter perdido a vez. Esta é a história de como um esforço considerável para honrar as mulheres americanas nativas tornou-se um episódio embaraçoso na nossa história monetária a ser esquecido.

Sacajawea parecia a mulher perfeita para ser honrada no dólar americano. A índia shoshone ajudou a guiar Lewis e Clark durante sua jornada em direção ao oeste, em 1804. Antes disso, ainda criança, ela foi raptada, vendida como escrava e forçada a casar-se com Toussaint Charbonneau, um comerciante de peles franco-canadense; morreu aos 25 anos. Durante sua vida curta e trágica, ela, de acordo com a Casa da Moeda, evitou que os famosos exploradores fossem mortos ou começassem uma guerra.

“[Aos 15] Ela mostrou conhecimento crucial da topografia da parte mais inóspita do interior da América do Norte e ensinou aos exploradores como encontrar raízes comestíveis e plantas antes desconhecidas dos euro-americanos… o mais importante, porém, Sacajawea e seu filho serviram como “bandeira branca” para a expedição, que era muito mais uma expedição militar que científica. Eles entraram em território potencialmente hostil bem armados, mas com pouca gente em comparação com as tribos nativas americanas que encontraram… Sacagawea sempre serviu como intérprete. Nem um membro da comitiva foi morto em ação hostil.”

Em outras palavras, devemos-lhe.

Em 1998, a Casa da Moeda dos Estados Unidos começou o processo de seleção de um novo design para substituir o dólar de Susan B. Anthony. Uma equipe de especialistas, mais “120 mil e-mails e 2 mil cartas e faxes” ajudaram a instituição decidir que Sacajawea seria o novo rosto da moeda de um dólar. Em 1999, a Casa da Moeda tornou público o novo design.

Em 2000, a instituição começou a veicular a informação de que aquele dólar dourado substituiria, com o tempo, a cédula de George Washington. Na peça publicitária para a televisão, pode-se ver o rosto do primeiro presidente, sobreposto ao corpo de Michael Keaton, aproveitando sua aposentadoria. É esquisito.

“Ok, então eu não estou na nova moeda de um dólar dourada”, diz Keaton-Washington, “isso foi legal para comigo”. E agrega ainda: “a nova moeda é perfeita mesmo sem mim. De fato, eu a uso sempre e em toda parte. É dolartástico.”

Enquanto a Casa da Moeda vinha com a chamada “mudando a face do dinheiro” em suas publicidades bizarras, parece que tentava convencer os consumidores americanos que pôr Sacajawea na moeda de um dólar não era uma ofensa à reputação do nosso primeiro presidente. Em outro comercial, Washington diz: “Eu sei que você está pensando: por que George não está nela [na moeda]?”. Depois, vê-se ele em uma roupa de astronauta, orbitando a Terra. “Ei, mudanças ocorrem”, diz Washington.

As propagandas parecem não ter convencido muitos americanos de que as moedas poderiam funcionar tal qual as cédulas. O New York Times informou, em 2000, que as pessoas queriam manter suas notas, independentemente do custo.

“Mais de 75% dos americanos, segundo pesquisa recente, opõem-se à eliminação da nota de um dólar e sua substituição por qualquer moeda do mesmo valor”, informou o Times, juntou ainda que “então, o Federal Reserve estima que pode economizar US$ 395 milhões anualmente com a substituição das notas, que duram no máximo 18 meses com moedas que podem durar até 30 anos?”.

Advogados ficaram desgostosos com a mudança. Uma história publicada em 2000 pelo Scripps Howard News Service listou as primeiras críticas à moeda no Senado:

“Isso é um dólar?”, indagou a senadora Kay Bailey Hutchison (Republicano-Texas), que sustentou falta o lastro necessário àquilo que a Casa da Moeda descreve como “o dólar dourado”. “Francamente, todo nosso dinheiro se parece com dinheiro de Banco Imobiliário, então a moeda não é diferente das novas notas de dólar, que têm figuras exageradas”, disse a senadora. “[A moeda] deveria ser mais distinta? Acredito que sim,” disse o presidente do Comitê Financeiro do Senado, Phil Gramm. “Sendo nós a maior nação do globo, temos cédulas e moedas ordinárias. Compare-as com as da Europa, e elas parecerão ordinárias; e não se trata de simplesmente opor-se, porque não existe partidarismo quando ele vem de moedas ordinárias.”

A Casa da Moeda continuou, então, a promover a moeda como vinha fazendo. “A demanda pelo Dólar Dourado que mostra Sacajawea continua bem alta”, disse o diretor da Casa da Moeda, Jay Johnson, em 2000.

A instituição informou, naquela ocasião, que “distribuiu mais de 800 milhões de Dólares Dourados por seus canais de distribuição”. Relatou ainda que esperava “produzir o bilionésimo Dólar Dourado no fim do verão. Essa quantidade ultrapassa o programa anterior, o dólar de Susan B. Anthony, que, em 21 anos, teve 920 milhões de peças emitidas”.

Isso não duraria muito mais.

Em 2001, o New York Times quis saber para onde haviam ido as moedas. O artigo mostrava que, apesar de a Casa da Moeda rotular a peça como “a moeda de dólar de maior sucesso na história”, parecia que ninguém de fato a usava:

Parece que ninguém usava os dólares Sacajawea em suas compras. O que as pessoas estavam fazendo, recuperadas da surpresa causada pela moeda, era pô-las de lado, como se tivessem encontrado uma ponta de flecha. “A tendência era de que não circulassem”, disse Doug Tillet, um porta-voz do Federal Reserve Bank em Nova York. “Elas tendem a ficar nas gavetas, cofrinhos e bolsos.”

Os bancos informaram ao Times que planejavam encomendar novas moedas se houvesse demanda por elas — mas raramente houve. No geral, tiveram a impressão que as pessoas viam as moedas com a imagem de uma mulher como inconveniente:

“Quando as pessoas tentam gastar os dólares Sacajewea, as lojas ralham por aceitá-los. Vijay Patel, balconista na 7-Eleven de Tarrytown, disse que tinha cerca de 20 moedas no último final de semana, mas que as trocou no banco por cédulas. ‘É difícil manejar essas moedas de um dólar’. Disse ainda que a gaveta do caixa tem lugar apenas para níqueis [cinco centavos], dimes [dez centavos], quartos [25 centavos] e pennies [um centavo].

Tentativas em diferenciar a moeda dos quartos dos Dólares Dourados permitiu que oportunistas tentassem vendê-los a preço inflacionado. O Philadelphia Inquirer escreveu em 2000 que “alguns comerciantes mal-intencionados espalharam que o metal amarelado continha ouro (é, em sua maioria, cobre). Eles chegaram ao cúmulo da desonestidade chamando a moeda de o novo ‘dólar de ouro’”.

Em 2002, a Casa da Moeda parou de produzir a moeda para circulação comum. ABC News explicou então que, no curso de dois anos, foi produzido mais de 1,3 bilhão de moedas. Elas custaram aos contribuintes mais de US$ 160 milhões. A instituição cogitou fazer mais 40 milhões de peças no ano seguinte, mas, depois do fiasco evidente, decidiu fazer apenas 10 milhões para conjuntos de coleção.

Na estimativa da ABC, o esforço foi uma tentativa lastimosamente infrutífera de facilitar a transição das cédulas para as moedas: “Esta foi a terceira tentativa do governo em desacostumar os consumidores americanos à nota de um dólar em 30 anos. O dólar de prata de Eisenhower era tido como muito grande e pesado. A moeda de Susan B. Anthony parecia-se muito mais com a moeda de um quarto. Então, o Tesouro fez o dólar Sacajawea dourado em vez de prateado, e com bordo liso, não serrilhado”.

Como a ABC fez notar, as moedas eram, de fato, de fabricação mais barata, conforme o tempo passava. Naquela ocasião, custava três centavos fazer uma nota de um dólar; e 12 centavos, uma moeda. Mas as notas têm de ser repostas a cada ano e meio, e as moedas duram até 30 anos. Com o tempo, o dólar Sacajewea pagar-se-ia. A curto prazo, foi um desastre financeiro.

Outra coisa perdeu-se nos bolsos do governo: o legado de Sacajawea. Seu nome nunca esteve na moeda; sua imagem é um retrato putativo, pois não há consenso histórico sobre sua aparência real.

Durante uma audiência do Subcomitê do Tesouro do Senado, em 2002, sobre a moeda e seu fracasso, o senador de Dakota do Norte Byron Dorgan expressou seu desapontamento. “Desde que o Dólar Dourado foi apresentado pela Casa da Moeda dos Estados Unidos, nunca recebi um sequer de troco em qualquer lugar do país. Parece que ele desapareceu, e eu lamento isso… parece, para mim, que, neste ponto, o uso do Dólar Dourado e a introdução de [metal] dourado foi um fracasso.”

A historiadora Amy Mosset também testemunhou durante a audiência. “Participo de simpósios por todo o país e fico surpresa, e mais decepcionada, talvez, pelo fato de que muitas pessoas nunca pegaram um dólar Sacajawea. Elas certamente sabem que a moeda existe, mas nunca tiveram a moeda em suas mãos em seus bolsos.”

Ela continuou o argumento que foi especialmente importante para promover a moeda logo adiante, em 2003. “Como estamos perto do início da celebração do bicentenário da expedição de Lewis e Clark, que será em janeiro próximo, seria infeliz se perdêssemos a grande oportunidade de promover a moeda e celebrar essa jovem americana nativa que resume o caráter e o espírito de um verdadeiro herói americano.”

Ao final, o esforço mostrou-se inútil.

Por ora, o dólar dourado de Sacajawea permanece em produção, se bem que em quantidades mais modestas. Em 2007, George W. Bush sancionou a Lei da Moeda de um dólar “Americana nativa”, para continuar a produção do dólar de Sacajawea, com novos designs no reverso para 2016. Por enquanto, a maioria deles foi mantida em segredoalgo pouco usual —, no Federal Reserve.

As novas notas de cinco, 10 e 20 dólares não terão pela frente os mesmos desafios que a moeda de um dólar teve. A Casa da Moeda não precisará convencer as pessoas a mudar seus hábitos, ainda que sejam veementemente contrárias às novas cédulas, é impossível que parem totalmente de usar dinheiro (ou limitar seu uso às notas de um e cem dólares).

Ver Harriet Tubman, Sojourner Truth e outras mulheres influentes nas cédulas não porá ponto final à questão da diferença de gênero, mas é um passo na direção certa e que forçará os americanos a ver seus rostos sempre que abrirem suas carteiras. O que certamente não acontecia quando a moeda de Sacajawea entrou em circulação.

Assim, quando recebermos as cédulas no futuro, relembremos as mulheres que elas trarão no reverso.

* * *

Original.

Clipping: Custos das moedas de 1, 2 e 5 eurocêntimos – Itália

Do Corriere della Sera

4 de novembro de 2013

O partido Esquerda Ecologia Liberdade e os custos de fabricação do euro. “Para fazer um cêntimo gastamos quatro”

Para emitir as moedinhas, a Casa da Moeda teria gastado “362 milhões de euros frente a um valor real de 174 milhões”

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Reverso comum das moedas de euro

Esquerda Ecologia Liberdade (Sinistra Ecologia Libertà – SEL) contra os cêntimos de euro. Os parlamentares da Comissão de Meio Ambiente da Câmera dos Deputados apresentaram uma moção, cujo primeiro firmante é o tesoureiro nacional da SEL, [Sergio] Boccaduri, e assinada ainda por deputados de PD [Partido Democrático – Partito Democratico], Scelta Civica [Escolha Cívica] e M5S [Movimento Cinco Estrelas – Movimento Cinque Stelle], que destaca a questão dos custos de fabricação das moedas de um, dois e cinco cêntimos. “Os custos de fabricação de cada moeda de um cêntimo chegariam a 4,5 cêntimos; os de cada moeda de dois cêntimos, a 5,2; e os da moeda de cinco cêntimos, a 5,7”. O texto da moção relata ainda que “desde a introdução do euro, a Casa da Moeda bateu mais de 2,8 bilhões de moedas de um cêntimo, 2,3 bilhões de dois cêntimos e 2 bilhões de cinco cêntimos, com um custo total de 362 milhões de euros frente a um valor real de 174 milhões”.

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Original.

Os ‘reais’ da bromélia

Com o lançamento da nova edição do Livro das Moedas do Brasil, conhecido nos meios numismáticos como Catálogo Amato, editado por Irlei Soares das Neves e Cláudio Amato, o ensaio da bromélia foi finalmente incluído num compêndio de tal tipo.

Outro mistério que se desfaz é a existência de mais peças do mesmo tipo, formando uma série. Embora sejam todas as peças de 1 real, o tamanho e os materiais mostram que são ensaios para a segunda série do real.

A citação da série no Catálogo Amato põe um ponto final nas questões que se levantavam sobre a veracidade das peças e mostra que a luta do senhor Pedro Pinto Balsemão, gravador gaúcho, era justa e não foi em vão.

As fotos abaixo são cortesia de Cristiano Paes, Irlei Soares das Neves e Telma Ceolim, aos quais agradecemos.

O anverso das peças da série de ensaio. Todas são de 1 real, mas o tamanho e o material mostram que são os protótipos da série que foi posta em circulação

O reverso das peças da série de ensaio. Todas são de 1 real, mas o tamanho e o material mostram que são os protótipos da série que foi posta em circulação

A anverso das peças mostrando a efígie da República usada em moedas brasileiras entre 1965 e 1979

O anverso das peças mostrando a efígie da República usada em moedas brasileiras entre 1965 e 1979

Página do novo Catálogo Amato em que se encontra a série catalogada

Página do novo Catálogo Amato em que se encontra a série catalogada

Descrição da série no Catálogo Amato

Descrição da série no Catálogo Amato

Capa da nova edição do "Livro das Moedas do Brasil", que foi lançado no último dia 18/6

Capa da nova edição do “Livro das Moedas do Brasil”, que foi lançado no último dia 18/6

A ‘bromélia’ ou ‘real Balsemão’

O controverso

O controverso “real Balsemão” ou “bromélia”

Muito já rendeu o tema da Bromélia. Há os relatos de manu propria do sr. P. P. Balsemão, gravador gaúcho, relatando como a moeda foi parar em suas mãos. Em vários fóruns a legitimidade da peça foi questionada e houve mesmo gente que perdeu tempo com discussões teóricas, pondo em xeque mesmo o status de moeda da peça. Balsemão, em seus relatos, classifica a peça como ensaio. Recorrendo a Frère (1984), podemos dizer que ensaios “são exemplares de uma moeda planejada, fabricados com a finalidade de testar o metal e os instrumentos […]. Seguem sempre a orientação estabelecida pela autoridade emissora” (1984:20).

Acredito que a forma em que encontra esse real, com data de 1997, indique um projeto. O anverso parece algo bem interessante e inovador, mas o uso da efígie da República criada em 1965 e presente no anverso de todas as moedas da 1ª série do segundo cruzeiro (1967-1979) me parece muito improvável. O resultado me parece uma peça de teste, um ensaio de materiais, híbrido, com um reverso possível — houve um concurso, ao que parece —  com um anverso provisório.

Os relatos de Balsemão relatam ainda sua presença no XV Congresso da Sociedade Numismática Brasileira, na qual teria feito uma comunicação.

Nossos catálogos mais famosos — Amato, Bentes e mesmo o Krause — têm seções de ensaios. O fato de a peça Balsemão ser única não é empecilho; a peça de ensaio de 200 réis de 1848 (prata) é assinalada pelo Amato (E077b) como única. Mesmo a polêmica Cruz de Cristo, ou seja, a moeda de 1 cruzado novo de 1990, que não entrou em circulação por mudança no nome do padrão, consta do Bentes e do Amato.

Também consultei o Banco Central, que repassou a demanda à Casa da Moeda. Esta instituição me mandou a seguinte resposta:

Prezado senhor

Em atenção a sua demanda, registrada sob protocolo e-SIC 99916.000007/2015-61, temos a esclarecer: A Casa da Moeda informou que cunhou peças contendo a imagem de uma bromélia em um dos lados, a título de teste de materiais e processos, para a fabricação da moeda de R$ 1 da Segunda Família de moedas.

Para concluir, acredito que o fato de a peça ter ido parar na mão de um gravador não é motivo para desconfiança ou simples desqualificação da própria peça. A existência de uma moeda e a declaração da CMB de ter cunhado a tal peça são dois terços da questão resolvida.

O mais interessante é que, se confirmada a versão do gravador Balsemão, trata-se de uma peça que, se tivesse sido destruída conforme os protocolos (?), ela jamais teria vindo à luz. É uma falha que trouxe uma peça até então desconhecida.

As lendas urbanas da numismática falam até mesmo de uma série similar, com plantas, mas a única de que se conhece a imagem é a de um real.

Bibliografia

FRÈRE, Hubert. Numismática – uma introdução aos métodos e à classificação. Sociedade Numismática Brasileira: São Paulo, 1984.